quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O ano giro

Se eu tivesse que escolher um país homenageado em 2011 seria Portugal. Até então não tinha muita curiosidade pelos lusos tirando um fado ali, outro acolá, e o fato de minha mãe ter morado em Lisboa na infância. Este ano, no entanto, eu li "Afirma Pereira" do Tabucchi, e a história do jornalista do suplemento cultural em plena ditadura salazarista me conquistou. Foi na Flip, que Tabucchi não foi, que me emocionei com as palavras de valter hugo mae, e da mesma forma na Fliporto* com as de Gonçalo Tavares. Para finalizar, foi em 2011 que eu me apeguei a Nsra. de Fátima, e agora acho que não tem jeito: é para lá que eu quero ir no próximo ano.

O aborrecimento

Como a realidade era para o senhor Juarroz uma matéria aborrecida ele só deixava de pensar quando era mesmo imprescindível. Eis algumas situações em que era obrigado a deixar de pensar:

- quando falavam com ele muito alto;
- quando o insultavam;
- quando o empurravam;
- quando tinha de utilizar qualquer objeto útil à sua volta.

Por vezes, mesmo nas situações atrás descritas, o senhor Juarroz não saía dos seus pensamentos e por isso os outros supunham que ele:

- era surdo (porque não ouvia quando falvam com ele muito alto);
- era covarde (porque o insultavam e ele não reagia);
- era muito covarde (porque o empurravam e ele não reagia);
- era desastrado (porque pegava mal nas coisas, deixando-as cair ao chão).

No entanto, ele não era nem surdo, nem covarde, nem desastrado. Simplesmente, para o senhor Juarroz, a realidade era uma matéria que aborrecia.

O senhor Juarroz - Gonçalo Tavares

* Aqui uma entrevista com palavras semelhantes às que eu ouvi em Olinda.

Foto de: beautesauvage

Um comentário:

VW Nonno disse...

Portugal tem uma beleza própria e a escrita na língua - que é só deles, não adianta- incrivelmente rica. Minhas retinas são saturadas de imagens que não encontram correspondência na minha terra, que eu amo. Ficaram lá inscritas na minha adolescência.