quarta-feira, 2 de outubro de 2019

"É preciso viver na vida real, que é trágica".


Trecho de uma entrevista do Woody Allen para Borja Hermoso do El País. Setembro/2019.
"Sentido é capacidade de perceber sensações, a partir do corpo e de seus órgãos: língua com sabor; pele com tato; nariz com olfato; olhos com visão; ouvidos com audição. Quando as sensações se misturam, vira sinestesia; quando não há sentir em jogo, apatia; quando não há sentido no sentir, nonsense; quando não há sensação no sentido, anestesia. Para a faculdade de pensar, sentido é propósito. Para quem faz, sentido é intenção. Diante do desequilíbrio, sentido torna-se senso, tino. Quando não bastam os perceptos, vem o sentido e seus afetos. Para a alma, é um adjetivo doido. No argumento, sentido é um ponto de vista. Se, a partir do presente, o sentido é antecipado, é porque se está entrevendo. Na obra de Cildo Meireles, sentido é instrumento, medida, matéria, procedimento, modo e meio.
Entrevendo, como exposição, é um convite para encontrar a obra de Cildo Meireles a partir das múltiplas noções de sentido e de nossa capacidade de reinventá-las. De caráter antológico, este projeto remonta aos primeiros anos da produção de Meireles, na década de 1960, até os dias atuais. Na amplitude de mais de cinquenta anos, o artista apresenta uma obra de inquestionável contundência, que passa por suportes como desenhos, gravuras, instalações, objetos, estudos, esculturas, situações obras sonoras, instruções. Suas proposições conceituais funcionam como um gatilho para engajamento do público, e a maneira de formalizá-las faz do uso dos materiais (ou a abdicação deles) um recurso de sedução e verdade. Quando, no entanto, os elementos parecem todos evidentes, a equação das obras de Meireles coloca-nos diante de resultados imprevisíveis que têm pensamento crítico, afeto e criação como qualidades. Em seus trabalhos, são indissociáveis as relações entre forma e conteúdo, texto e imagem, poesia e política, abstração e figuração, íntimo e universal, passado e presente.""

(...)

Parte do texto escrito pelos curadores Júlia Rebouças e Diego Matos para a exposição Entrevendo de Cildo Meireles, no SESC Pompéia - Setembro/2019.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

"Não há artista que possa suportar a realidade. Nem a superar."

Logo depois da guerra, Theodor Adorno, abalado, disse: "Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro". Um dos meus professores, Aliés Adamóvitch, um nome que quero citar hoje com gratidão, também considerava que compor prosa sobre os pesadelos do século XX era sacrilégio. Aqui, não se tem o direito de inventar. deve-se mostrar a verdade como ela é. Exige-se uma "supraliteratura", uma literatura que esteja além da literatura. É a testemunha que deve falar. Pode-se pensar em Nietzsche, que dizia que não há artista que possa suportar a realidade. Nem a superar.

Sempre me atormentou o fato de que a verdade não se sustenta num só coração, num só espírito. Que ela é de algum modo fragmentada, múltipla, diversa e dispersa pelo mundo. Há em Dostoiévski a ideia de que a humanidade sabe muito mais sobre si mesma do que aquilo que consegue fixar a literatura. O que eu faço? Recolho sentimentos, pensamentos, palavras cotidianas. Reúno a vida do meu tempo. O que me interessa é a história da alma. A vida cotidiana da alma. Aquilo que a grande história geralmente deixa de lado, que trata com desdém. Eu me ocupo com a história omitida. Ouvi mais de uma vez e ainda ouço que isso não é literatura, que é documento. Mas o que é literatura hoje? Quem pode responder? Vivemos mais rápido que antes. O conteúdo rompe a forma. Ela a quebra e modifica. Tudo extravasa das margens: a música, a pintura e, no documento, a palavra escapa aos limites do documento. Não há fronteiras entre o fato e a ficção, um transborda sobre o outro. Mesmo a testemunha não é imparcial. Ao narrar, o homem cria, luta com o tempo assim como o escultor com o mármore. Ele é um ator e um criador.

O que me interessa é o pequeno homem. O pequeno grande homem, eu diria, porque o sofrimento o torna maior. Nos meus livros ele próprio conta a sua pequena história e, no momento em que faz isso, conta a grande história. O que aconteceu e acontece conosco é ainda incompreensível, é preciso ser pronunciado. Para começar, é preciso ao menos pôr tudo em palavras. E tememos por isso, pois ainda não nos sentimos em condições de dar conta do nosso passado. Em Os demônios, de Dostoiévski, em preâmbulo a uma conversa, o personagem Chátov diz a Stavróguin: "Nós somos dois seres que se encontram fora dos limites do tempo e do espaço... pela última vez no mundo. Deixe o seu tom de lado e pegue outro que seja humano! Fale, uma vez na vida, com voz humana".

Vozes de Tchernóbil- Svetlana Aleksiévitch
Companhia das letras - pág 372 e 373.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

2+2 = 22

- É que eu gosto muito do Woody Allen. Me identifico com ele em Annie Hall. Digo, sei que isso é uma afirmação controversa, pela coisa toda das acusações, mas eu realmente gosto dos filmes dele.

- Tudo bem, eu me identifico com os filmes do Polanski. Principalmente Lua de Fel.


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

5 anos, 6 meses e 18 dias depois...

Olá.

Agora não escrevo tão bem (mal escrevo na verdade).

Agora trabalho batendo ponto.

Agora sou orfã.

Agora moro sozinha.

Agora congelei um punhado de óvulos.

Agora eu tento parar com a coisa que eu mais gosto de fazer: fumar.

Agora tenho outros medos e alguns traumas.

Agora já conheci desertos imensos.

Agora releio tudo o que foi deixado intacto aqui, tal qual a cidade de Prypiat, e já nem sei o porquê dessa vontade de voltar aqui, justamente agora.