sábado, 30 de julho de 2011

Contrariando Thiago de Mello

Faz sol e venta, mas eu canto.

Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela


Artigo Final

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem

- Trechos de "Os estatutos do homem"Thiago de Mello


Tô em um show.
Uma mensagem sem próposito vem me assombrar. (Buu!!)
É você, do limbo, pedindo desculpas por alguma coisa que eu nem sei. (duplo Buu!!)
Respondo te chamando de "meu querido", porque finjo leveza.
Você pede desculpas mais uma vez por perambular pelas redondezas de San Sebastian. (triplo Buu!!)
Peço que pare com isso, você sabe que eu acho desagradável esse sentimento de culpa exacerbado e sem propósito, que acarreta um festival de palavras vazias e insinceras.
Você pede desculpas mais uma vez. (dois Buus para a frente, dois Buus para trás!!!)
Respondo dizendo que você é chato, que eu estou tomando um frozen delícia, que a vida é curta, que tem feito dias lindos, e te chamo pra cometer pecado comigo.
Você pede desculpas, sempre fora de sintonia com o meu humor. (Buu mesmo!!!)
O papo não vai adiante, retiro o convite, perco o celular no banheiro. Acho depois de 30 minutos, e vejo que você escreveu: "Você é perturbada !!". (Bingo!!)
Eu te digo que só estava tentando ser a benfeitora da culpa e transformá-la em algo real,  e que "viver é melhor que sonhar".
Você diz que ainda me ama.
Eu respondo que eu acho que não.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Sem preparo para tal

Poderia estar tudo bem, na verdade, talvez até esteja. Só que falta um detalhe, e a falta pesa demais para ser só detalhe.



"A arte de perder" - Elizabeth Bishop - Trad. Paulo Henriques Britto

“A arte de perder não é nenhum mistério; 
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. 
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, 
A chave perdida, a hora gasta bestamente. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Depois perca mais rápido, com mais critério: 
Lugares, nomes, a escala subseqüente 
Da viagem não feita. Nada disso é sério. 
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero 
Lembrar a perda de três casas excelentes. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Perdi duas cidades lindas. E um império 
Que era meu, dois rios, e mais um continente. 
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente 
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “



Esse cd da banda Cults é bem legal: http://www.youtube.com/watch?v=lcId8t9c4cc&feature=related

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Honrarias

"Você não é meu amante, você é eu mesma. Meu coração ou meu sexo. Um ramo de mim." E Gabriel, comovido, mas sorrindo orgulhoso, responde: "Ah sua putinha!"

Sartre faz uma apresentação de quase 60 páginas na edição do livro "Nossa Senhora das Flores" de Jean Genet, que tenho em mãos. O que poderia ser um pouco maçante,  se torna quase fundamental na preparação para o que está por vir. Neste texto mais que introdutório, ele faz um divisão para melhor analisar os diversos aspectos que o fazem considerar esta obra uma das três grandes obras "medievais" do século XX.
Escrevendo no interior de uma cela, Genet fala sobre transgressão, imoralidade, vida, onanismo, solidão e palavra. Pois bem, os trechos aqui selecionados fazem parte da segunda parte intitulada: "As palavras" e falam (literalmente) sobre a atividade individual-mundana-condenada que é o ato de se masturbar.

"Não é por acaso que a palavra acompanha o ato masturbatório, que Gide mostra Boris murmurando sua fórmula evocadora como um "Abre-te Sésamo": o onanista quer reter a palavra como um objeto. Quando repetida em voz alta ou num murmúrio, imediatamente  (ela) adquire uma objetividade e uma presença que faltavam ao objeto. A imagem permanece um tanto ausente; na realidade não a vejo, nem a ouço bem. Sou eu quem me canso tentando retê-la. Mas, se murmuro a palavra, posso ouvi-la, e se consigo me esquecer de mim mesmo quando a palavra sai da minha boca, se consigo esquecer que fui eu quem a pronunciou, posso ouvi-la como ela estivesse emanando de outra pessoa e na verdade como se ela estivesse soando por si própria". (pg. 21)

" A enunciação dos prazeres proibidos é uma blasfêmia. O homem que se masturba humildemente, sem emitir uma palavra, ou que está por demais preocupado com o que sua mão está fazendo, está perdoado em parte; seu gesto se dissolve na escuridão. Porém, se for enunciado, torna-se o gesto do masturbador uma ameaça à memória de todos. A fim de aumentar seu prazer, Genet o enuncia. Para quem? Para ninguém e para Deus. Para ele, como para os primitivos, a palavra possui virtudes metafísicas. É perverso, é delicioso que uma palavra obscena ressoe na semi-obscuridade da cela, que surja do buraco negro das suas cobertas. A ordem do universo é desta forma desbaratada. Uma palavra dita é palavra como sujeito: ouvida, é objeto." (Pg. 22)

Jean-Paul Sartre in
Genet, Jean -Nossa Senhora das Flores, Nova Fronteira.

Ilustração de André Breton

terça-feira, 26 de julho de 2011

Mix tapes: Brasa mora e Boco-moco

Esses dias refleti sobre obviedades, como, por exemplo, o poder que a música tem de mudar o nosso humor e/ou astral. Na nuvem de coisas ululantes que se formou na minha cabeça, fiquei pensando especificamente em músicas que têm o poder de me deixar alegre. O que poderia ser um ato simples, pá- pum, pelo contrário,  me fez procurar durante um tempo, porque só me lembrava de músicas terrivelmente tristes (acabam sendo as mais ouvidas). Mesmo dando a ordem de: "Coisa alegre!" um neuroboicote acontecia, e minha mente só trazia à tona os piores pagodes de minha infância em Miguel Pereira. Dei um basta, e ontem fiz um exercicio que me tomou exatos 20 minutos. Abri o Itunes, que está bem defasado (malefícios de arrumar somente o mp3 player), e criei uma lista com tudo que me remete a felicidade & alegria. Poderia ter sido mais criteriosa nas escolhas, mas gastaria muito tempo, e não era esse o objetivo.
Imagens de casa na praia, feijoada, gato mia, espetinho de camarão, inicio de namoro, andar de bicicleta, amigos, viagens, Londres (várias músicas me lembram de lá) e que tais, cascatearam a cada música. O resultado, apesar de provar que não nasci para ser Dj e que meu gosto musical tende para algo Pop- indie-retrô e latino-oriental, me deixou feliz. Acho que consegui!

Deixo aqui esses prozacs sonoros:

Brasa Mora

1) Abducted - Cults
2) 13 dias - Manu Chao
3) Its 5 - Architecture in Helsinki
4) Quicksand - La Roux
5) Jules et Jim (main title) - George Delerue (♥)
6) Capzise - Karen O and the kids
7) Japan - CocoRosie
8) Cemalin -Erkin Koray
9 ) Peaches - The President of United States  (que achado!)
10) Ballerina - Van Morrison
11) Shabop Shalom - Devendra Banhart
12) Hey Man - Ave Sangria
13) Bohemian like you - The Dandy Warhols
14) A minha menina - Mutantes
15) Om Nashi me - Edward Sharpe & the magnetic zeros
16) Typewriter tip tip tip - Jakishan (minha favorita no momento, acompanha dancinha)
17) Genius of love - Tom tom club
18) Star and sons - Broken social scene
19) Irene - Caetano Veloso
20) Feira de Acari - Funk
21) Get along gang theme
22) I got you babe - Sonny and Cher
23) Ring of fire - Johny Cash
24) Essa noite não - Lobão
25) Hey ya - Outkast
26) Do you think Im sexy - Rod Stewart
27) Baby's on fire - Brian Eno
28) Heads will roll - Yeah Yeah Yes

Boco-moco:

1) Picture Book - The Kinks
2) In the beginnig - Van Morisson
3) My Girls - Animal Collective (a mais querida de todas)
4) Tristeza Maleza - Manu Chao
5) Samba Vexillographica - Devendra Banhart
6) Love and affection - Bob Marley
7) The true wheel - Brian Eno
8) Coração Bobo/ Pelas ruas que andei - Alceu Valença
9) The goonies r' goog enough - Cindy Lauper
10) Love is no big truth - Kings of Convenience
11) Jump in the line - Harry Belafonte
12) Mon manàge a moi - Etiene Daho (homenagem a Bebel e Olavo)
13) There's a boat leaving dat's leving soon - Ella Fitzgerald & Louis Armstrong
14) Burning torch - Don Drummond
15) Cannibale - Stereo Total
16) Girl - Beck
17) Jerk it out - Ceasars Palace
18) Brimful os Asha - Corneshop
19) I see you babe - Groove Armada
20) Temptation - Heaven 17
21) I'd rather dance with you - Kings of Convenience
22) Deceptacon - Le tigre
23) How Bizarre - OMC
24) Wildcat - Ratatat
25) Would you - Touch and Go

Aproveito e divulgo o blog Ferro Extra, que tem mix tapes bem melhores que as que estão aqui. Eu não conheço o Tarta, mas ele presenteia seus leitores com grandes achados: http://ferroextra.wordpress.com/

domingo, 24 de julho de 2011

Parte maldita

" O Mal, na medida em que traduz a atração para a morte, em que é um desafio, como o é em todas as formas do erotismo, nunca é, por outro lado, o objeto de uma condenação ambígua. O Mal é assumido gloriosamente, como o é, por sua vez, aquele que assume a guerra, em condições que se revelam irremediáveis na nossa época. Mas a guerra tem o imperialismo como consequencia... Aliás, seria inútil dissimular que, no Mal, sempre aparece uma inclinação para o pior, que justifica a angústia e o desgosto. Não é menos verdadeiro que o Mal, considerado sob a luz de uma atração desinteressada para a morte, difere do mal cujo significado é o interesse egoísta. Uma ação criminosa "infame" se opõe à "passional". A lei rejeita ambas, mas a literatura mais humana é o lugar privilegiado da paixão. Do mesmo modo, a paixão não escapa à maldição: só uma "parte maldita" está destinada àquilo que, numa vida humana, tem o sentido mais carregado. A maldição é o caminho da benção menos ilusória."

A literatura e o mal - Georges Bataille - L&PM.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O processo que vicia

Lucian Freud era um dos maiores pintores figurativos vivo. Pelo menos até hoje. Texto de sua  autoria publicado na Revista Serrote: 7.


Algumas reflexões sobre a pintura

Lucian Freud
Meu objetivo ao pintar um quadro é estimular os sentidos pela intensificação da realidade. Esse efeito depende da intensidade com que o pintor compreende ou percebe o objeto de sua escolha. Por causa disso, a pintura é a única arte em que as qualidades intuitivas do artista podem ser mais valiosas para ele do que o conhecimento ou a inteli­gência propriamente ditos.
O pintor torna real para as outras pessoas os seus mais profundos sentimentos em relação a tudo o que lhe é caro. Um segredo é revelado a qualquer um que olhar o quadro com a mesma intensidade com que ele foi concebido. Para isso, o pintor deve liberar os sentimentos ou as sensações que guarda e rejeitar tudo aquilo com que já está naturalmente envolvido. Essa autoindulgência é a mesma disciplina que descarta tudo aquilo que não lhe é essencial – e que cristaliza, assim, seus gostos. Afinal, os gostos do pintor devem ser fruto daquilo que, na vida, o deixa obcecado a tal ponto que ele não precisa se perguntar o que lhe cabe fazer na arte. É somente por meio do entendimento completo dos seus gostos que ele se liberta da tendência a encaixar tudo o que vê em uma concepção preestabelecida. Caso não tenha isso sempre em mente, ele vai passar a enxergar a vida pura e simplesmente como material para uma linha artística específica. De modo que vai olhar para algo e se perguntar: “Posso fazer uma pin­tura minha a partir disso?”. E assim sua obra acaba por se degenerar, já que deixa de ser o veículo de suas sensações.
(...)
Continua aqui: http://www.revistaserrote.com.br/2011/07/algumas-reflexoes-sobre-a-pintura


Eu, particularmente, gosto muito dos desenhos:








"It's really too hard for to fly"

terça-feira, 19 de julho de 2011

"Pobre Flynn, quem foi que te deixou na chuva?"*

* O Piano.

Este é um não-diálogo: 
'E's not pinin'! 'E's passed on! This dialogue is no more! He has ceased to be! 'E's expired and gone to meet 'is maker!
'E's a stiff! Bereft of life, 'e rests in peace! If you hadn't nailed 'im to the perch 'e'd be pushing up the daisies!
'Is metabolic processes are now 'istory! 'E's off the twig!
'E's kicked the bucket, 'e's shuffled off 'is mortal coil, run down the curtain and joined the bleedin' choir invisibile!!
This is an ex-dialogue (adaptação de: Dead Parrot sketch - Monty Phyton).

- Deixa eu te explicar, por favor!
- Não.
- Não?
- Tá tudo bem.
- Lá vem você com esse “tá tudo bem” como se não houvesse sentimento dentro de você.
- O que você quer eu faça?
- Me escute!
- Não.
- Mas eu quero.
- Ok.
- Não é como você está pensando, eu não fiz...
- ...
- Tá me ouvindo? O que você está fazendo?
- Me olhando no espelho.
- Sua velha mania de tentar enxergar seu interior através de um espelho.
- Para você ver.
- Você tem um muro na frente, ninguém sabe o que você sente, como sente e na intensidade que sente! É impossível lidar com você, mas ao mesmo tempo...
- Talvez seja por isso que não dê certo, você é imediato e eu sou construção. Logo, tá tudo bem.
- Não, não está! A vida continua, você mesma diz isso, que as coisas mudam e que é necessário humildade para ver essa mudança acontecer vagarosamente, mas sempre dando um empurrãozinho para que haja algum movimento para frente, não se pode ficar parado.
- Bom saber que você aprendeu isso.
- Seu coração nunca foi inteiro meu.
- Lá vem você com esse gráfico cardíaco.
- É sério, é visível, é palpável.
- Todo mundo tem algum tipo de cicatriz, principalmente interna. Vivemos com elas e nem lembramos que elas estão lá, até que o tempo muda e elas coçam, depois param, e voltamos a esquecer. Simples assim. Elas fazem parte de mim, e eu não sei porque te incomodam tanto.
- Sinceramente, foge total à minha compreensão sua linha de raciocínio.
- Me esquece.
- Como assim?
- Assim.
- Você consegue alternar uma alegria contagiante com uma melancolia avassaladora, parece que são duas pessoas, isso é estranho para mim. Além de se esconder atrás de livros, fones de ouvido e óculos de armação gigante.
- Eu chamo essa alternância de gente.
- Gente?
- Você tá sempre perguntando e se explicando, que coisa engraçada e desgastante.
- Engraçada?
- ...É... Acredito que dessa vez não vão ficar marcas de nenhum tipo...
- Hã? Oi? Tá ai??
- ...

Jane Campion entende de mulher como ninguém, principalmente as com modo operacional dito estranho:





Beck, por favor, casa comigo

        No dia 24 de fevereiro de 2011 foi colocado no ar o programa mais infame de toda internet: Talk To The Losers, ou como é carinhosamente chamado por nós:  TTTL. Esta primeira edição especial ao vivo e a cores estreou logo após o reclame e  novela: “O direito de espoucar a champagne”, que nada mais foi que uma longa discussão regada a empanadas e uma garrafa de vinho. Cegas de ódio, C. e eu ameaçamos uma à outra com as taças, para depois decidirmos que nada daquilo era prudente, já que éramos losers demais, e a chance de acabarmos em uma emergência em Buenos Aires era grande (na verdade a briga era boa, mas ninguém queria ver sangue). Entre choro e ranger de dentes criamos o programa internacional , que passou a acontecer no Gtalk, geralmente às sexta-feiras à noite. O mote era/é simples: saber o quão loser nossas vidas estão, não importa aonde estejamos. Pensamos em vender o programa para a Oi, que curte uns baratos meios estranhos na sua programação, mas teríamos que formatar a ideia, e somos losers demais até para isso.
        O programa foi sucesso de março a junho, com colaboradores e audiência fieis. Em junho C. retornou ao balneário mostrando que quem é loser mesmo não fica longe de casa. A audiência rareou e o que antes era virtual começou a ser por telefone para poupar a tendinite (losers!), uma coisa meio programa de rádio: "Alô? Tá em casa nessa sexta-feira? Não pega ninguém mas dá cada olhada? Seu cartão de ônibus não passou? Pagou cofrinho ao catar o cocozito do cachorro na rua? Stalkeou a vida alheia no Facebook durante o expediente no trabalho? Recebeu aquela cutucada e acha que ele está a fim de você? Tá levando a vodca na garrafinha para tomar com refrigerante para poupar dinheiro?  Pintou só o dedão do pé para aparecer no peep-shoe?  Bem vinda! Você é uma de nós."
       Até aqui boa parte é ficcional, mas a vida imita a arte, e eis que as últimas semanas têm prodigalizado um festival de loseronismo. C. viajou novamente e foi parar em um hotel onde rolava umas gincanas para gente que escreve de maneira criativa, e eu fui a um festival literário à beira-mar sem ela, pela primeira vez. Durante duas semanas sofremos intensamente pela separação de um casal que, literalmente, nunca vimos mais gordos. Nós nos sensibilizamos, trocamos mil SMS e maldissemos o amor – "Bandidos! Como fizeram isso com a gente?Acreditavamos na historinha!" Eu voltei e ela continuou por lá. Chorei baldes com comédias românticas de quinta categoria, encontrei uma amiga cujo relacionamento acabou: ele é judeu e ela goy, outra que está em crise por conta das escolhas profissionais, e mais uma cujo namorado não suportou tanta libertinagem de comportamento. Sem falar na Z., que me presenteia todo café da manhã com relatos sobre sua separação, e de como ela não quer mais homem algum na vida. Ouvi tudo com interesse, dei minhas opiniões com parcimônia, ofereci lenços e cedi meu ombro enquanto pensava se minha nova pasta de dente White now! ia fazer um serviço bom ou não (loser, loser). No sábado decidi deixar de lado essa minha verve perdedora e  sair com a amiga não judia. Me arrumei, coloquei um salto, dancei aquela musica preliminar “tô gata” na frente do espelho. Liguei para confirmar a programação, e ela disse: “Vai de preto que a festa é alternativa”. ATENÇÃO para palavra alternativa. “Alternativa como?”, “Ah... gente moderna e interessante”, me disse ela. NEON PISCANDO para palavra gente moderna e interessante. “Ok”, pensei – “me arrumei e vou me divertir”. Ok? Claro que não. Loser não merece ter noites com 100% de aproveitamento, e por isso cai em um evento übber gay onde me vi dançando George Michael seguido de Mc Sapão, o que foi divertido, mas, francamente, não era bem para eu estar ali. Mesmo sendo simpática à causa, não foi para aquela "clientela" que saí de casa. Eu só queria dançar e não pensar muito, mas naquele espaço abarrotado eu me sentia uma bizarra no ninho. Qual uma viagem estranha de ácido onde tudo estava trocado, liguei para uma amiga que convidou: “Vem para um bar punk em Copacabana chamado Orgasmo!” Pensei: “É hoje que vou chorar no táxi ouvindo Sade ou Simple Red , enquanto praguejo contra meu caminhar sobre a Terra”. Estava indo para o Orgasmo bar quando recebo outra ligação da tal amiga dizendo que era caído e que todo mundo estava voltando para casa de um amigo que já tinha dado PT faz tempo. Fui para casa do amigo, com aquele clima fim de festa pairando e pude acompanhar, sentadinha no sofá, uma discussão acalorada sobre se um dos camaradas presentes, que momentos antes defendia o uso das sandálias Croc como sinalizador de: "Acabou tudo para mim, tô velho!", deveria ter jogado fora, ou não, o enfeite do bolo do casamento (separados há 2 anos) que nada mais é que um casal de Hello Kitty com a carinha dos noivos. Todo mundo estava sóbrio o suficiente para não emitir qualquer opinião e/ou juízo, e eu olhei para porta esperando que o Steve Buscemi aparecesse. Seria legal se ele estivesse ali com a gente. Decidimos ir para um boteco próximo, que teoricamente estava inaugurando, mas que na verdade ainda nem entrou em reforma e somamos ao grupinho mais alguns perdidos na noite (ref. Jon Voight). Sentei no boteco, pedi uma pizza, tomei uma coca, já estava enjoada (L-O-S-E-R), quando me vi em um debate acirrado sobre se o leilão de sêmen bovino e o Medalhão Persa são, ou não, bons programas de tv (ref. Cães de aluguel). Não me lembro porque o papo mudou, mas de repente todo mundo estava tentando fazer brincadeiras idiotas com as mãos e eu decidi, sábia, porém tardiamente, ir embora. No táxi, não tocou Simple Red, mas tocou Across the universe e minha vontade de morrer atingiu grandes picos.
        Hoje C. voltou dizendo que nunca mais entrará em nenhum programa de incentivo que tenha gincana, e eu fui agraciada com fotos públicas do ex namorado (recente) mordiscando umas moças - Nhac!. “Ok”, pensei eu, mais uma vez. "Hoje é segunda-feira". Ainda ouvi que eu deveria ser mais esclarecida , escrito com uma ortografia muito louca. Protestei (Loser língua afiada, pior espécie). Ato continuo fui submetida a um bombardeio emocionante de SMS's infrutíferos e só pude concluir que não sou mesmo esclarecida. É cada erro que cometo nessa vida, a começar pelos atentados contra o português.
     Por ora vou me encontrar com outra amiga, tá difícil e eu não me sinto bem, sabe-se lá o que me espera. Pelo menos sei que não volto de táxi, é logo ali na esquina, e sei também que 2012 (ufa!) está ai e eu só quero vê-lo chegar vestindo um pijama e vendo "Amélie Poulain": Loser encontra  Loser, se casam de forma loser, e têm losers babies.
    C., não podemos antecipar o TTTL dessa semana?

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Savage Beauty

Trechos da exposição do Alexander McQueen (gênio) no Metropolitan Museum - NY.

McQueen entendia de solidão, de medo, de paisagens vazias, de beleza, de grotesco e de bizarro. Ele sabia o que era lúgubre, o que era fúnebre, o que era sensual e romântico. Ele gostava de Poe, de Baudelaire e Novalis.  McQueen entendia, acima de tudo, de gente, e de vida, talvez por isso não tenha suportado seu olhar e achou melhor acabar com tudo tão cedo.

"People find my things sometimes agressive. But I don't see it as agressive. I see it as romantics dealing with darkside of personality".

" I find beauty in the grotesque, like most artists. I have to force people to look at things"

" I especialy like the acessory for its sadomasochist aspect".

" There is no way back for me now. I am going to take you on journeys you've never dreamed were possible."




domingo, 17 de julho de 2011

Agora, sob efeito colateral

Recordações de um tempo sem tanta proteção.
Nico, que é um anagrama de icon. Boa, Andy!

 

sábado, 16 de julho de 2011

Ainda sob efeito.

Recordações de Colônia de Sacramento.
Animal Collective, os melhores transes


sexta-feira, 15 de julho de 2011

Viajando com Lao Zi

Segundo o escritor Paul Theroux em seu livro "The Tao of Travel: Enlightenments from lives on the road", as 10 coisas necessárias para se fazer uma viagem Tao (conhecimento adquirido por intuição, ying e yang e tudo mais), são:

1) Leave home
2) Go alone
3) Travel light
4) Bring a map
5) Go by land
6) Walk across a national frontier
7) Keep a journal
8) Read a novel that has no relation to the place you're in
9) If you must bring a cell phone, avoid using it.
10) Make a friend

* Reader's Digest americana de junho e julho,  achada neste momento junto a um pedaço de Babyruth (homenagem aos Goonies).


quinta-feira, 14 de julho de 2011

Rear Window

De madrugada, arrumando as coisas no computador para futuramente (em breve) me desfazer dele, vi o quanto de imagem, em sua maioria pseudo erótico-sensual, eu tinha para alimentar este blog. Como tem muita coisa que simplesmente não cabe aqui, outras que se perderam, e outras que eu esqueço de onde tirei, achei uma boa ideia criar esta espécie de álbum/rede virtual que eu não sei bem como funciona, mas quem sabe eu aprenda. Neste novo espaço eu posso "guardar" e compartilhar estes fragmentos de intimidade alheia, tal qual uma voyeur nojenta.

Com um nome que pode soar um pouco cafona, mas inspirado nos milhões de sites de fotógrafos franceses que curtem animais selvagens em estado natural, e um coelhinho buliçoso como cursor, eis que surge: http://beautesauvage.tumblr.com/

Tudo isso me fez ouvir Carmina Burana. Talvez porque tenha falado de São Paulo no outro post, e agora tô aqui, postando coisas mundanas. Acho que essa blasfêmia toda me recordou os escritos dos monges alemães do século XIII ( ou não). Todavia, deixo-a aqui, também, direto de um bela gravação daqui de casa.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

As 3 peças fundamentais

Na onda de sair dedicando tudo.
Para você, Ká. E para você, Ma.

             Não há fórmula certa para que duas pessoas fiquem juntas, e nem motivos bons o suficiente para que se aceite o fato de não funcionar como deveria (eu já comecei outro post assim, mas é sempre bom lembrar). Se relacionar vem sendo cada vez mais difícil, mas  parece que finalmente há um esforço mínimo que seja para se tentar ser verdadeiramente feliz com outra pessoa, ou pelo menos a Pollyanna Moça que aqui escreve acha isso.
 Textos que falam sobre o retorno de  netuno , ou do jornalista Ivan Martins, ou do Xico Sá , pipocam em caixas de e-mail, twitter e facebook. Isso não pode ser à toa, talvez seja uma denúncia do que vem acontecendo, ou será que cansamos de seguir exemplos modernos de casais? Quem sabe agora questionemos se Sartre e Simone não tinham dificuldades ainda maiores com tanta liberdade, ou pior, que talvez não se bastassem. Eu acredito nisso.
Muito se é ouvido, muito se é aconselhado, muito se é suposto, e discordando um pouco do maestro, é possível sim ser feliz sozinho, só que é chato para caramba a médio prazo. É vital para se ter qualidade de afeto, porém, aprender a se virar solitariamente. Esta é a única forma de saber pular fora quando os problemas, aqueles que nos fazem viciar ainda mais em relações complexas, aparecem. Quando existe um trabalho de se conhecer melhor, de ver o que realmente se quer, e precisa, fica mais “fácil” (nunca é) contornar as linhas tênues entre a saudade de se estar com alguém, a obsessão e a rejeição (pode ser substituído por fracasso, no caso de ser a voz ativa). Fica mais “fácil” (nunca é) de ver como as coisas se dão e, acima de tudo, fica mais “fácil” (alto nível de dificuldade) não cair em jogos e manipulações de fraquezas, que destroem coisas boas e machucam quando o manipulado (seja quem for na relação) percebe.
Longe de ser a dona da verdade, ou a profunda conhecedora de relacionamentos, mas sendo uma boa ouvinte e tendo passado por tudo isso recentemente (ciclo vicioso da saudade, briga, esperança, desencanto, certezas, separação, fim, ufa), eu tenho que concordar um pouco com o Ivan Martins. Nem tudo que é difícil é bom, ou melhor. Só que para facilitar o que naturalmente não é, precisamos nos simplificar, para quem saber encontrar outro ser simplificado e juntos construirmos algo bem grandioso, forte e delícia. O trabalho é longo e árduo, mas acho que no final deve valer a pena, ainda não sei.
Renato Russo professou o capítulo 13 da primeira carta de São Paulo aos Coríntios na música Monte Castelo, ok, não vou tocar no assunto Legião, mas é que a música é conhecida. O capítulo em questão é mais bonito que a letra da música (indiferente de qualquer crença religiosa), e digo isso com aval de muito ateu que concorda. São Paulo fala sobre as três coisas que levam a Deus: fé, esperança e caridade. Ele termina dizendo que a caridade (amor para com o outro) é a coisa mais importante de todas. No fundo o Santo verborrágico missivista tem razão, e por isso termino como ele. Se tivesse que dizer o que faz um relacionamento dar certo, um amor durar, ou o que eu acredito atualmente, depois do que foi vivido e experimentado nesses, humm, 13 anos me relacionando, eu diria que são três peças fundamentais que fazem essa engrenagem mover bem: o respeito, o companheirismo e o tesão.
Vou ali tatuar isso na outra costela e já volto.

Dia do rock

Para Lia e Rolf

Todo dia 13 de julho tinha especial dia do rock na rádio Cidade. A rádio acabou, mas o dia ainda está ai para ser comemorado. Gosto do dia do rock, do dia do carteiro, da alegria, do gimnosperma e que tais. Queria trabalhar inventando dias para tudo nessa vida, mas isso é assunto para outro post. Hoje é dia do rock e ainda faço o exercício de descobrir qual a banda da qual mais gosto. Como não chego a conclusão alguma, presto uma homenagem ao estilo que mais me marcou.
 Aos 10 anos meus avós maternos chegaram com uma fita do Ramones para mim, "Acid Eaters", em um domingo de páscoa com a justificativa que leram no jornal que a banda ia acabar. Até hoje guardo essa relíquia. Aos 12 anos minha mãe me deu de presente o cd do Iggy Pop "Nude & Rude", e aos 13 anos minha amiga de infância G. chegou com uma camisa preta com os dizeres "Adios Amigos" ( mas naquela fase eu já não queria socializar com ninguém que usasse estampas). Aos 13, ainda, assinei duas revistas especializadas no assunto, e tentava me corresponder com amigos desconhecidos. Aos 15 namorei um rapaz do metal e juntos abraçamos o hardcore. Mais tarde veio a J. e sua tara pelo Clash, e em um sábado Kid Vinyl me apresentou ao Sex Pistols e a Siouxie.
Muita coisa foi ouvida de lá para cá, e muitos amigos surgiram em torno do rock. Até hoje, não importa se temos 26 ou 36 anos, se somos advogados, jornalistas ou designers, nos encontramos, bebemos na rua, nos vestimos , inconscientemente, com roupas pretas. Alguém disse que o rock é o pagode com todo mundo vestido de preto. E poucos estilos musicais criam amizades tão leais e histórias tão boas. Talvez seja por isso que celebramos esse dia que não faz sentido algum.

"Iggy Pop: Os caras ficaram sentados na varanda da frente, tomando cerveja e jogando moedas, fazendo apostas sobre quanto  tempo ia durar. Bem alto: "Hey! Aposto cinco contra quatro em dois meses".
"Não, voto em um dia. Conheço Pop".
Danny Fields disse: "Iggy, o que você está fazendo? Pense na sua imagem". 
 E Jimmy Silver, meu empresário macrobiótico zen, falou: "Realidade, verdade - é nessa que Iggy está".
Danny só olhou pra ele e disse: "Foda-se a realidade! Quem se importa com a realidade?"
- Mate-me por favor - Uma história sem censura do Punk - Legs McNeil e Gillian McCain - L&PM.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Für Elise

Elisa,

Sinto muita saudade sua. Nos últimos dias houve uma revolução de aspargos, eles estão por toda parte e creio que estou viciada. Sempre que lanço meu olhar guloso sobre aquele vegetal  me lembro de você. Já comi na modalidade: sopa, salada e risoto. Estou virando a Buba dos aspargos. Aquela ressalva que você faz toda vez antes de comer ainda não aconteceu (apesar de ter pesquisado e ver que é normal). Talvez eu não distingua tais buquês, ou isso é só contigo, ou só aconteça por essas bandas. Ao procurar saber mais sobre esse alimento tão maravilhoso, que me traz tantas recordações boas, descobri que Manet curtia aspargos, e que Marriott Edgar e Margaret Atwood gostavam deles em suas poesias. Eu sou tradicional. Na manteiga, por favor.



ASPARAGUS - Margaret Atwood

This afternoon a man leans over
the hard rolls and the curled
butter, and tells me everything: two
women love him, he loves them, what
should he do?
The sun
sifts down through the imperceptibly
brownish urban air. I'm going to
suffer for this: turn red, get
blisters or else cancer. I eat
asparagus with my fingers, he
plunges into description.
He's at his wit's end, sewed
up in his own frenzy. He has
breadcrumbs in his beard.
I wonder
if I should let my hair go grey
so my advice will be better.
I could wrinkle up my eyelids,
look wise. I could get a pet lizard.
You're not crazy, I tell him.
Others have done this. Me, too.
Messy love is better than none,
I guess. I'm no authority
on sane living.
Which is all true
and no help at all, because
this form of love is like the pain
of childbirth: so intense
it's hard to remember afterwards,
or what kind of screams and grimaces
it pushed you into.
The shrimps arrive on their skewers,
the courtyard trees unroll
their yellow caterpillars,
pollen powders our shoulders.
He wants them both, he relates
tortures, the coffee
arrives and altogether I am amazed
at his stupidities.
I sit looking at him
with a sort of wonder;
or is it envy?
Listen, I say to him,
you're very lucky.

Um belo poema, não? Ainda na busca sobre este reino onde me encontro e te espero, esbarrei no caminho em Vladimir Radunsky (não, broder, não estou pirando, mas é bom saber que tem gente como a gente) que escreveu um livro infantil chamado: The mighty asparagus, que é a história de um aspargo que cresce na frente do castelo do rei e se passa na Itália renascentista. Parece que o poderoso aspargo fica imóvel, todo na dele, e o rei cada dia mais chateado com tudo isso. Eu não ficaria, mas ele não achou bom. Respeito.

Comprei o livro em fita cassete usada para você, logo chegará ai, coloca no walkmen e vem. Estou te esperando, corre,  a janta vai ser servida e adivinha o que temos para hoje?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Nunca é fácil, mas bem que poderia ser

Well we know where we're going
But we don't know where we've been
And we know what we're knowing
But we can't say what we've seen
And we're not little children
And we know what we want
And the future is certain
Give us time to work it out
-
We're on a road to nowhere, come on inside
Taking that ride to nowhere, we'll take that ride
Feeling okay this morning, and you know
We're on a road to paradise, here we go, here we go
(...)
There's is a city in my mind, come along and take that ride
And it's all right, baby it's all right
And it's very far away but it's growing day by day
And it's all right, baby it's all right

Road to nowhere - Talking heads

Ontem, na Flip, David Byrne (vocalista da banda Talking Heads) falou de forma um pouco modorrenta sobre urbanismo e projetos sustentáveis. O autor acaba de lançar o livro"Diários de bicicleta" (ed. Amarilys), que nada mais é que uma compilação de relatos escritos em diversos estilos sobre suas andanças no mundo em cima de duas rodas.
 Muita coisa foi discutida-  por exemplo, a inutilidade dos estacionamentos,- e um clipe, feito pelo autor, compositor e cantor foi apresentado no início da mesa. No vídeo caseiro havia cenas clássicas, extraídas de filmes, com pessoas andando de bicicleta.
Afirmo, como boa pedaladora que sou, que foi emocionante, porque a liberdade e a leveza que se tem ao andar de bicicleta deve ser próxima a que se possa ter ao voar. Talvez seja por isso que defenda tanto o ensino dessa prática gostosa. Qualquer artifício que faça nossa vida mais leve, mais divertida, mais prazerosa, que nos tire um pouco da dureza da realidade vale a pena. Afinal, nunca é fácil. Mas bem que poderia ser.

Uma das cenas lindas do vídeo. Merece ser vista, imaginada e, talvez, porque não, praticada (Butch Cassidy and the Sundance Kid, 1969):


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Amor bandido

Adoro.

Túmulo de Bonnie Parker:

As the flowers are all made sweeter by the sunshine and the dew, so this old world is made brighter by the lives of folks like you.


O belo poema que ela fez para o amor da sua vida enquanto eles fugiam, foi entregue à sua mãe dias antes deles morrerem.

Aqui esta ele: http://history1900s.about.com/od/1930s/qt/bonniepoem.htm

E a versão francesa (cosquinha no pescoço) que conta a história de um dos casais americanos mais famosos:

6 horas da manhã

- Por que você tá me olhando desse jeito?
- Acho que é curiosidade, desculpa. Não vou mais te olhar assim.
- Curiosidade?
- É. Curiosidade, ela ainda existe. Que horas são?
- Não sei, não uso relógio.
- Não sabia. Eu uso sempre, mas hoje eu esqueci.
- Faz diferença, as horas?
- Faz. Quero saber quanto tempo ainda temos até o dia nascer.
- Quando for 6 horas da manhã você acha que vai acabar tudo, né?
- É o que vem acontecendo ao longo desses anos.
- Você acha que não pode ser diferente desta vez?
- Não sei, acho que agora é definitivo, é questão de horas. Que horas são?
- Eu não sei que horas são.
- Eu nunca saio sem relógio.
- É terminal?
- É. Pior que metástase, uma vez iniciado o processo não tem como parar. Já disse, é questão de horas para ruir, morrer por completo.
- Que barra.
- Diria que é tenso. 
- O que vamos fazer?
- Não sei. Nunca me vi nesta situação. Já pode chorar? Acho legal umas lágrimas, mostra que damos valor e que foi bom, não acha?
- Ainda não acabou, temos algumas horas, tudo pode mudar. Deixa para chorar quando se deitar, é assim que acontece na vida real. Pelo menos é assim que aparece nos filmes.
- Filmes não são vida real.
- Ah vai, você entendeu.
- Entendi. Vou chorar então só quando me deitar. Mas, puxa, me deu mó vontade de começar a chorar logo.
- Vamos sentar ali então, e ver o fim chegar, se é que ele vem?
- Vamos. É quase um ano novo. Posso ver seu pé pela última vez?
- Isso. Praticamente. Pode.
- Poderíamos ser fotografados aqui e para sempre sermos projetados. Uma coisa meio Bioy. Mistura de holografia com fantasmas, Brasil com Egito. Afinal, foi aqui que tudo começou.
- Já temos uma foto, basta pedir para alguém fazer isso. Deixamos de herança.
- Boa ideia, perdi até a vontade de chorar.
- Sabe, nunca tinha acreditado, mas agora estou convicto. Você acredita em reencarnação?
- Não. Quer dizer, teoricamente não, mas talvez sim. Não sei ao certo. Por que? Você acredita?
- Sentado aqui ao seu lado é só no que consigo acreditar.
- Sério?
- É terminal não, é?
- É.
- Pois então...
- (....)
- Olhando para essa imensidão na minha frente, e para a imensidão acima de mim, de repente é uma acreditar que posso voltar, mudar umas coisas e tal.
- Volta, vai ser diferente.
- E como você vai saber que sou eu na próxima vida, caso ela exista?
- Eu vou saber.
- (....)
- Vou sentir saudades.
- Eu já estou sentindo.
- (...)
- São 6 horas da manhã. Ouvi alguém falando, vamos?
- Já acabou?
- Já.
- Estamos mortos ou já reencarnamos?
- Não sei, mas acho que com o passar do dia vamos saber.


Foto do tumblr: pelasbeiradas

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Abby Normal

É o seu cérebro que eu quero.

Os melhores filmes sobre massa cinzenta obscura.



Free and fresh

Sonny & Cher = Que casal!