terça-feira, 31 de julho de 2012

Jaz em mim

Ao abrir a porta displicentemente vejo teu corpo estendido no chão da memória. Fecho a porta, abro um pouco, dou uma espiada, imóvel, passo por cima de você deixando o ângulo de baixo para cima bem obtuso para que você veja meus fundilhos.
Morreu? Espero que não.
E se tiver morrido, o que vou fazer? Não rola mais de chorar a essa altura do campeonato.
Te chuto, mando parar com a brincadeira, não tem graça nenhuma, você sempre morre, eu borro a maquiagem, digo que te amo, que é o homem da minha vida, que te espero, sinto raiva e você fica sempre com a mesma cara de parvo que teus pais te deram a me olhar, com um riso frouxo semi-débil que é sua marca registrada.
Tô cansada, anda, para com a palhaçada. Levanta, volta para ela, para outra, para quem você bem entender, já não ligo, já não faz diferença, já acabou. Eu não vou pedir mais uma vez, levanta.
Ok. Deito ao seu lado, olho para você, sussurro no teu ouvido: vai se foder, seu doente!
Nada.
A verdade, no entanto, é que fico com pena desse desfecho gelado que você se tornou, te dou a mão, que saco ter que salvar sempre essa história.
Nada.
Me levanto, cansei de ser patética. Vou embora, fecho a porta, cuspo na soleira, olho para você e concluo: "Hei, psiu, Presunto? Você não entende que virou parte do meu ser? Pois bem, saiba que você jaz em mim".

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Todo amor desse mundo

E a espera por um momento como esse.

sábado, 21 de julho de 2012

Meow

Nas férias de julho de 1992, quando eu tinha 9 anos, fui ao cinema aproximadamente quatro vezes para ver "Batman - o retorno". O fascínio, no entanto, não era pelo Cavaleiro das  Trevas, nem pelo Pinguim e muito menos pelo Christopher Walken. O que me fez voltar tantas vezes foi a Mulher Gato, seu quarto com neón (Hello there), e a roupa de vinil.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Vida

Sobre um dia após o outro:

Foram dias surreais - este é um adjetivo que neutraliza as coisas e pode ser adotado sem drama. Tudo saiu do lugar, ficou desconfortável, mudou. Dizem que é para melhor, me questiono sobre esta verdade. Quando passamos por momentos como esses a energia mina, ainda mais com o tempo frio, e nos dá vontade de se encolher. Essa tarde eu vi um filme ruim, achei que estava deprimida, pode ser, mas o filme mesmo sendo do Gus Van Sant era ruim.
Família, saúde, amor, sexo, comida, trabalho, futuro, minhas visceras não funcionam - não há onde se segurar, tudo precisa ser rearrumado. Sinto saudades de quando não vivia tanto, ou vivia dentro da minha cabeça.  A realidade é para profissionais e eu sou assumidamente amadora. Me deixem sonhar em paz, ok?

Sobre eterno retorno e fidelidade:

Recebi um cutucão. Recebi um cutucão oriundo daquele estado. Aquele, que na sexta dentro do aeroporto na cidade dos mórmons com sotaque de Nelson da Capitinga, eu disse em tom semi-desesperado: "Se é para desistir, eu me mudo, e ganho dinheiro, e me caso, e volto". Nenhum profeta é aceito em sua cidade. Ninguém cutuca ninguém nos dias atuais. Um rapaz me cutucou e me adicionou. Olhei a foto e achei bonitinho, já deveria ter aprendido que isso não se faz, que depois dá o maior trabalho voltar para a realidade, lembrar quem você é, e parar de usar esmalte. Ainda mais de lá. Porém, sou fraca, ou viciada, ou saudosista, e aceitei, e ele disse:

- Opa, posso stalkear agora
- Pode. Essa frase dá um certo medo. Por favor não faça montagens com as minhas fotos e publique em sites de tortura animal e/ou abuso de anões.
- Sou bom com montagens
- Sou boa com anões
- Tipo branca de neve?
- Não. Tipo Papai Noel de Quintino.
- Então nem tão boa com anões assim. O que você faz?
- Trabalho com design e literatura. E você?
- Sou professor de literatura na U e faço mestrado lá.
- Tenho que sair. Prazer em conhece-lo .Um beijo
- Outro beijo

Fiquei animada. Senti potencial. Saí. Exclui e bloqueei.
A verdade é que eu sou fiel.

Sobre achados dentro de livros, ou o dia que comprei um best-seller que vai me fazer chorar (A culpa é das Estrelas - John Green): 

"Enquanto a maré banhava a areia da praia, o Homem das Tulipas Holandês contemplava o oceano:
- Juntadora treplicadora envenenadora ocultadora reveladora. Repare nela, subindo e descendo, levando tudo consigo.
- O que é? - Anna perguntou.
- A água - respondeu o holandês - Bem, e as horas"
 
( Peter Van Houten, Uma aflição imperial)


domingo, 15 de julho de 2012

Por mim

Andrew Wyeth foi um pintor realista americano, apaixonado por invernos e outonos.
Andrew Wyeth pinta paisagens que eu gostaria de ver.

" I can't work completely out of my imagination. I must put my foot in a bit of truth; and then I can fly free".


    Combers

 
Open and closed

Wind from the sea

Crows

His boot

quarta-feira, 11 de julho de 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A verdade

É que ser insuportável não é uma escolha.

Foram 5 dias cantando os primeiros segundos desta música.

Entre quatro paredes de azulejo

You want the truth?
You know I'd do it all again
Left for dead, heaven is only in my head!

Espalha a substância viscosa com cheiro de frutas nas melenas. Desliga o chuveiro. Segura a embalagem de formato anatômico. Fecha os olhos. Escuta a vozinha que diz:

"And the oscar goes to...B. for the best non-story of love"

Abre os olhos. Esfrega mais um pouco o cabelo, desta vez lentamente. Olha para cima. Respira fundo. Fecha os olhos com força. Recita o discurso ensaiado:

" Essa é uma história que nunca aconteceu.
Essa é uma história que por nunca ter acontecido se tornou uma não-história.
Essa é uma não-história que chegou ao fim.
Essa é a minha história de amor.
Essa sou eu, e minha forma de amá-lo.
Esse é ele, e a sua forma de me amar.
Enquanto lembrar, eu a contarei para quem quiser ouvir.
Para que ela não se perca.
Para que ela de alguma forma exista.
Para que nossos personagens não morram.
Para que eu nunca a deixe ser esquecida.

Obrigada a todos que, de alguma forma, assistiram e torceram por um final triunfal. A verdade é que as histórias de amor são banais. Essa é só mais uma. A diferença é que nessa sou protagonista."

Abre a água. Fecha a boca, recusa as gotas quentes e salgadas misturadas com o xampu. Deixa escorrer a espuma do cabelo.


* Essa é uma homenagem aos três anos completados ontem.

domingo, 8 de julho de 2012

O silêncio dos que sentem

Muito pode ser dito sobre o nada, mas só quando ele se assemelha, ou é, vazio. Quando ainda existe algo, o melhor é não falar.
Um reencontro fraternal com 8 amigos, e dias de profunda infelicidade.
Contradição • acaso • quedas • superações • esquecimento • lembrança • finitude • risos • explosão• ambulância • fratura • veranico • acarajé • divulgação
Mudei o destino para poder mensurar o fragmento e não gostei do resultado.
Era maior do que o esperado.
Me calei.

segunda-feira, 2 de julho de 2012