Em 2002 foi "Funtime". Em 2011 tá sendo "Funtime". Fiz as pazes com você. Tá tudo certo.
« Le beau est toujours bizarre. Je ne veux pas dire qu'il soit volontairement, froidement bizarre, car dans ce cas il serait un monstre sorti des rails de la vie. Je dis qu'il contient toujours un peu de bizarrerie, de bizarrerie non voulue, inconsciente, et que c'est cette bizarrerie qui le fait être particulièrement le Beau. » (Charles Baudelaire)
quinta-feira, 26 de maio de 2011
segunda-feira, 23 de maio de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Amar é
Fazer do outro um apoio sensual para leituras edificantes.
Ilustração de Seymour Chwast para o livro Design Humor: The Art of Graphic Wit by Steve Heller
Ilustração de Seymour Chwast para o livro Design Humor: The Art of Graphic Wit by Steve Heller
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Paredes brancas
A sensação é de caminhar em um corredor todo branco, enorme e estreito.
A higiene e a frieza do branco nunca me agradaram, acho que é por isso que uso tanto preto. O preto te protege e te faz fechar para o mundo, o branco não, ele deixa nítido todas as imperfeições, sujeiras, coisinhas fora de lugar. Branco é uma cor calculista, egocêntrica (junto com outras ela altera muito) e, acima de tudo, solitária. No momento é necessário botar cor no caminho antes que a retina se acostume com essa vida p&b.
Eu via MTV e Beavis and Butthead demais quando mais nova. Logo, eu adoro esse clipe.
A higiene e a frieza do branco nunca me agradaram, acho que é por isso que uso tanto preto. O preto te protege e te faz fechar para o mundo, o branco não, ele deixa nítido todas as imperfeições, sujeiras, coisinhas fora de lugar. Branco é uma cor calculista, egocêntrica (junto com outras ela altera muito) e, acima de tudo, solitária. No momento é necessário botar cor no caminho antes que a retina se acostume com essa vida p&b.
Eu via MTV e Beavis and Butthead demais quando mais nova. Logo, eu adoro esse clipe.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
O crepúsculo sobre nossas cabeças
Para os dias de sol que não apreciamos juntos.
" (...)
O choro a acorda. Ela te olha. Olha o quarto. E de novo ela te olha. Acaricia a tua mão. Ela pergunta: Você chora por quê? Você diz que cabe a ela dizer por que você chora, que ela é que deveria saber.
Ela responde baixinho, com doçura: Porque você não ama. Você responde que é isso.
Ela pede a você que lhe diga claramente. Você lhe diz: Eu não amo.
Ela diz: Nunca?
Você diz: Nunca.
Ela diz: O desejo de estar prestes a matar um amante, de guardá-lo para si, só para si, de arrebatá-lo, de roubá-lo a contrapelo de todas as leis, de todos os impérios da moral, você não sabe o que é isso, você nunca soube?
Você diz: Nunca.
Ela te olha, ela repete: É curioso um morto.
(...)
Um dia ela não está mais ali. Você acorda e ela não está mais ali. Ela se foi na noite. O rastro do corpo ainda está nos lençóis, o rastro é frio.
Agora é alvorada. Não ainda o sol, mas as fímbrias do céu já estão claras, ao passo que do centro desse céu a obscuridade ainda desce à terra, densa.
Não há mais nada no quarto além de você sozinho. O corpo dela desapareceu. A diferença entre ela e você se confirma pela sua ausência súbita.
Ao longe, pelas praias, as gaivotas gritariam no negrume que se desfaz, elas já começariam a se alimentar dos bichos da vasa, a escarafunchar as areias desertadas pela maré baixa. No negrume, o grito louco das gaivotas famintas, de repente lhe parece que você nunca chegou a ouvi-lo.
Ela não voltará nunca.
Na noite em que ela se foi, num bar, você conta a história. Primeiro você conta como se fosse possível fazer isso, e depois você desiste.
Em seguida você conta rindo como se fosse impossível que ela tenha ocorrido ou como se fosse impossível que você a tivesse inventado.
No dia seguinte, de repente, você talvez notasse a ausência dela no quarto. No dia seguinte, talvez você experimentasse um desejo de revê-la ali, na estranheza da tua solidão, no seu estado de desconhecida tua.
Talvez você a procurasse fora do teu quarto, pelas praias, pelas varadas, pelas ruas. Mas você não poderia achá-la, porque à luz do dia você não reconhece ninguém. Você não a reconheceria. Dela você não conhece mais do que o corpo adormecido sob os olhos entreabertos ou fechados. A penetração dos corpos, você não poderia reconhecê-la, você não pode jamais reconhecer. Você não poderá jamais.
Quando você chorou, era só por você e não pela admirável impossibilidade de chegar até ela através da diferença que os separa.
De toda a história você só retém certas palavras que ela disse durante o sono, essas palvras que dizem aquilo que você tem: Doença da morte.
Bem depressa você desiste, você já não a procura, nem na cidade, nem na noite, nem no dia.
Assim, no entanto, você pôde viver esse amor do único jeito que era lhe possível, perdendo-o antes que ele acontecesse."
Marguerite Duras - A doença da morte.
" (...)
O choro a acorda. Ela te olha. Olha o quarto. E de novo ela te olha. Acaricia a tua mão. Ela pergunta: Você chora por quê? Você diz que cabe a ela dizer por que você chora, que ela é que deveria saber.
Ela responde baixinho, com doçura: Porque você não ama. Você responde que é isso.
Ela pede a você que lhe diga claramente. Você lhe diz: Eu não amo.
Ela diz: Nunca?
Você diz: Nunca.
Ela diz: O desejo de estar prestes a matar um amante, de guardá-lo para si, só para si, de arrebatá-lo, de roubá-lo a contrapelo de todas as leis, de todos os impérios da moral, você não sabe o que é isso, você nunca soube?
Você diz: Nunca.
Ela te olha, ela repete: É curioso um morto.
(...)
Um dia ela não está mais ali. Você acorda e ela não está mais ali. Ela se foi na noite. O rastro do corpo ainda está nos lençóis, o rastro é frio.
Agora é alvorada. Não ainda o sol, mas as fímbrias do céu já estão claras, ao passo que do centro desse céu a obscuridade ainda desce à terra, densa.
Não há mais nada no quarto além de você sozinho. O corpo dela desapareceu. A diferença entre ela e você se confirma pela sua ausência súbita.
Ao longe, pelas praias, as gaivotas gritariam no negrume que se desfaz, elas já começariam a se alimentar dos bichos da vasa, a escarafunchar as areias desertadas pela maré baixa. No negrume, o grito louco das gaivotas famintas, de repente lhe parece que você nunca chegou a ouvi-lo.
Ela não voltará nunca.
Na noite em que ela se foi, num bar, você conta a história. Primeiro você conta como se fosse possível fazer isso, e depois você desiste.
Em seguida você conta rindo como se fosse impossível que ela tenha ocorrido ou como se fosse impossível que você a tivesse inventado.
No dia seguinte, de repente, você talvez notasse a ausência dela no quarto. No dia seguinte, talvez você experimentasse um desejo de revê-la ali, na estranheza da tua solidão, no seu estado de desconhecida tua.
Talvez você a procurasse fora do teu quarto, pelas praias, pelas varadas, pelas ruas. Mas você não poderia achá-la, porque à luz do dia você não reconhece ninguém. Você não a reconheceria. Dela você não conhece mais do que o corpo adormecido sob os olhos entreabertos ou fechados. A penetração dos corpos, você não poderia reconhecê-la, você não pode jamais reconhecer. Você não poderá jamais.
Quando você chorou, era só por você e não pela admirável impossibilidade de chegar até ela através da diferença que os separa.
De toda a história você só retém certas palavras que ela disse durante o sono, essas palvras que dizem aquilo que você tem: Doença da morte.
Bem depressa você desiste, você já não a procura, nem na cidade, nem na noite, nem no dia.
Assim, no entanto, você pôde viver esse amor do único jeito que era lhe possível, perdendo-o antes que ele acontecesse."
Marguerite Duras - A doença da morte.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Ser jaca
Newton teve uma epifania gravitacional ao receber do alto uma maçã na cabeça. O alvo da natureza não estava pensando em física e, provavelmente, não queria e nem esperava ganhar o fruto proibido no cocuruto. Acontece que provocações celestiais surgem sem que a gente queira, e quando elas ocorrem, geralmente, é como uma fruta que nos acerta.
Pois bem, eu sou Newton no seu espanto todas as vezes que você surge na minha vida, seja na forma que for (são muitas, em lugares e formas que nem eu mesma acredito). Diferente da história amplamente conhecida, sua aparição não é como uma singela maçã. Você despenca na minha cabeça feito uma jaca, não deixando espaço para nenhum tipo de teoria pós choque - o susto é grande. Eu, cagada, cheia de visco e bagos, fico ali, parada a olhar você esborrachado no chão. Me sinto um pouco humilhada, um pouco exposta, e um tanto ridícula de saber o quão recheado de simbolismo é este ataque aéreo, que muitas vezes nem é intencional: você simplesmente despenca e pronto. Fito seu interior, vejo sua casca grossa, seu odor característico, não tenho dúvida que, sim, é você. "Por que?" - indago olhando para cima, sabendo que quem poderia responder está justamente embaixo . Você, jogado na superfície de asfalto, não tem como me responder. Tomada de paixão, pego um bago mole (assim eu classifiquei você, jaca mole - Artocarpus Integrifólia) e coloco na boca. Relembro seu gosto, que nem é tão maravilhoso assim, mastigo com cautela, tentando achar algum sabor aprazível, e cuspo seu caroço em uma poça, me certificando que não brotarão outros vocês por aí. Enfio minha mão bem no seu âmago, e pego tudo que consigo de dentro de você. Coloco tudo na boca em busca de uma sensação esquecida - deve ser saudades - mas não cabe. Me babo, sujo meu rosto com fiapos, toda aquela gosma e cica sua em mim - é impressionante como você nunca está maduro!
A cena é toda grotesca. Eu, ali, no meio da rua, de quatro, chafurdada em você. Você, expelindo de seu caule aquela espécie de néctar branco, viscoso, que mais parece cola, e que tanto me repugna. Eu, colocando para dentro tudo que pertence a você, toda a sua intimidade. Você, estático, permitindo a violação. Levanto, me aprumo, e, transtornada com tudo que está acontecendo, decido pisar em você. Sim, enfio o pé na jaca, e saio andando sem olhar, criando pegadas sebentas pela calçada. Sei que mais à frente vou acabar dando uma rápida olhada para trás, uma espécie de fraqueza com verve masoquista. Sei também que, quando chegar em casa e me recuperar da sua aparição, vou refazer toda a cena, desde o início, na minha cabeça, e achar que foi bom. De alguma forma sei que nossos encontros, daqui para a frente, vão ser sempre (sempre?) assim, tomados de surpresa, sem esperar, ditados por leis que desconheço. Da minha parte, faço o exercício da banalização dos fatos. Já estou tendo certo autocontrole, a ponto de haver dias em que consigo evitar sua presença inesperada, antecipando situações nas quais você de alguma forma possa irromper. Mas há outros em que pago para ver. Nossa relação se desenvolveu dessa maneira antropofágica e sádica. Você me agride, eu amo, você se abre para eu provar, cuspo, você me provoca e eu piso. Você me ama de maneira torta, e eu amo você de maneira errada.
Newton fez uma fórmula que revolucionou o mundo através da maçã, nós, ao contrário, não fazemos nada pela gente, tampouco pelos outros, quiçá pela posteridade. Toda a vez que isso acontece, eu me alimento de você, na ânsia de preencher um lugar vazio que você mesmo deixou. Porém, de alguma forma mórbida, que me foge à compreensão, sempre que há essa aparição sua, fora de lugar, você morre um pouco dentro de mim.
Me esquivo, mas não resisto.
(foto de algum tumblr que não me lembro)
(foto de algum tumblr que não me lembro)
* Ontem, às 20:54, você apareceu para mim, no meio da aula, na frente de todo mundo. Que vergonha.
** Texto escrito em março deste ano, daqueles feitos a caneta no caderno da pós, recuperado somente agora na volta ao lar. Inspirado livremente em Paixão Segundo G.H (Clarice Lispector)
Por que eu nunca pude ser paquita:
- Morena com mãe que não aprovava reflexos
- Baixota
- Gordita
- Aparelho nos dentões
- 4 olhos
E isso é mó barra quando se tem 10 anos!
Aí,breve espaço de tempo passa, algo por volta de 2 anos e você descobre o Rock! Seus amigos da escola se tornam idiotinhas, e os novos são todos morenos, ou baixotes ou muito altos, ou gorditos ou magrelinhos, com acne, aparelho e de óculos.
Porém, o "trauma" de não pertencer a raça paquitaniana, tá aqui, eu sinto. É preciso muito análise para superar este capítulo infantojuvenil loiro.
- Baixota
- Gordita
- Aparelho nos dentões
- 4 olhos
E isso é mó barra quando se tem 10 anos!
Aí,breve espaço de tempo passa, algo por volta de 2 anos e você descobre o Rock! Seus amigos da escola se tornam idiotinhas, e os novos são todos morenos, ou baixotes ou muito altos, ou gorditos ou magrelinhos, com acne, aparelho e de óculos.
Porém, o "trauma" de não pertencer a raça paquitaniana, tá aqui, eu sinto. É preciso muito análise para superar este capítulo infantojuvenil loiro.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Súplica de uma viciada
Um dia aindo ouço essa música sem ser na voz do Thin White Duke, em uma versão provavelmente desafinada, e com alguns lapsos de quem não sabe a letra inteira.
Heroes - David Bowie
I, I will be king
And you, you will be queen
Though nothing will drive them away
We can beat them, just for one day
We can be Heroes, just for one day
And you, you will be queen
Though nothing will drive them away
We can beat them, just for one day
We can be Heroes, just for one day
And you, you can be mean
And I, I'll drink all the time
'Cause we're lovers, and that is a fact
Yes we're lovers, and that is that
And I, I'll drink all the time
'Cause we're lovers, and that is a fact
Yes we're lovers, and that is that
Though nothing, will keep us together
We could steal time, just for one day
We can be Heroes, for ever and ever
What d'you say?
We could steal time, just for one day
We can be Heroes, for ever and ever
What d'you say?
I, I wish you could swim
Like the dolphins, like dolphins can swim
Though nothing, nothing will keep us together
We can beat them, for ever and ever
Oh we can be Heroes, just for one day
Like the dolphins, like dolphins can swim
Though nothing, nothing will keep us together
We can beat them, for ever and ever
Oh we can be Heroes, just for one day
(...)
I, I can remember (I remember)
Standing, by the wall (by the wall)
And the guns, shot above our heads (over our heads)
And we kissed, as though nothing could fall (nothing
could fall)
And the shame, was on the other side
Oh we can beat them, for ever and ever
Then we could be Heroes, just for one day
Standing, by the wall (by the wall)
And the guns, shot above our heads (over our heads)
And we kissed, as though nothing could fall (nothing
could fall)
And the shame, was on the other side
Oh we can beat them, for ever and ever
Then we could be Heroes, just for one day
(...)
We're nothing, and nothing will help us
Maybe we're lying, then you better not stay
But we could be safer, just for one day
Maybe we're lying, then you better not stay
But we could be safer, just for one day
* Acho uma vergonha da minha parte o Bowie nunca ter entrado neste blog. Shame on me.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Saudades de fechar os olhos
E conseguir ver você.
" O esquecimento começou a mostrar a sua verdadeira força quando não estavam alertas, esperando sua chegada. Começou a se infiltrar. Na menor abertura que encontrasse, ele penetrava. Atacava o organismo como um germe invisível, invadindo lenta mas obstinadamente. Tomoko realizava movimentos inconscientes, como quem resiste a um sonho. Sentia-se muito perturbada, procurando resistir ao esquecimento" - Morte em pleno verão - Yukio Mishima
Em tempos de retorno ao quarto, música para cantar com a cola Pritt na mão:
domingo, 1 de maio de 2011
Ponto para SP e eu sussa
Ontem fui à despedida de um grande amigo, do primeiro namorado, de um dos ombros mais sinceros e espinhosos para se chorar. Caderninho para desejar coisas boas e fazer com que o viajante saiba que em seu lugar de origem todos o amam. Algumas lágrimas dos mais emotivos, bebidas, risadas e um voto de amor e fidelidade a Guanabara. Um certo ar de inconformismo: "Mais um??!", mas fazer o quê? Segue o baile. Depois de uma grande amiga, um namoro na BR 116, como exemplos mais viscerais, eu sei que SP está ali, bem perto, atraindo e repelindo, neste movimento constante, é só não pensar muito. Vai! eu acho que você vai ser feliz.
“Ninguém ampara o cavaleiro
do mundo delirante”
Murilo Mendes
Eu te ouço rugir para os documentos e as multidões
denunciando tua agonia as enfermeiras desarticuladas A noite vibrava o rosto sobrenatural nos telhados manchados Tua boca engolia o azul Teu equilíbrio se desprendia nas vozes das alucinantes madrugadas Nas boites onde comias pickles e lias Santo Anselmo nas desertas ferrovias nas fotografias inacessíveis nos topos umedecidos dos edifícios nas bebedeiras de xerez sobre os túmulos As leguminosas lamentavam-se chocando-se contra o vento drogas davam movimentos demais aos olhos Saltimbancos de Picasso conhecendo-te numa viela maldita e os ruídos agachavam-se nos meus olhos turbulentos resta dizer uma palavra sobre os roubos enquanto os cardeais nos saturam de conselhos bem-aventurados e a Virgem lava sua bunda imaculada na pia batismal Rangem os dentes da memória segredos públicos pulverizam-se em algum ponto da América peixes entravados se sentam contra a noite O parque Shangai é conquistado pela lua adolescentes beijam-se no trem-fantasma sargentos se arredondam no palácio dos espelhos Eu percorro todas as barracas atropelando anjos da morte chupando sorvete os fios telegráficos simplificam as enchentes e as secas os telefones anunciam a dissolução de todas as coisas a paisagem racha-se de encontro com as almas o vento sul sopra contra a solidão das janelas e as gaiolas de carne crua Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de São Paulo e como um escravo vou medindo a vacilante música das flâmulas
Poema de ninar para mim e Bruegel, Roberto Piva
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