quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Jardinagem do sonho

 Pequeninos pedacinhos de alegrias sonhadoras pelo caminho. Ínfimas e íntimas recordações enterradas em avenidas. Microscópicas partículas de afeto generoso dançam por ai. Ando um tanto preocupada com esses fragmentos perdidos. Quem cuida deles? Poderiam eles se perder de vez? Estariam todos avisados dos riscos de uma nova história surgir em caso de colisão?
Creio não saber responder nenhuma dessas questões...
Clique no afresco e ouça uma música que não tem nada a ver com esse post, mas que desde que tocou em uma rádio, dentro de uma pizzaria, tem sido cantarolada por ai. O post pedia essa aqui.

 Esse grão de ervilha que esta debaixo do meu colchão, ele é tão pequeno e tem dias que não me deixa dormir. Devolver poderia ser uma solução se houvesse coragem, ou certeza, porém só entregaria o que hoje chamo de meu se eu resgatasse a minha semente de mostarda que ficou dentro do travesseiro. Ela é um pedaço de mim, e me faria sentir completa novamente.

(Adaptação do conto de Hans Christian Andersen "A princesa e o grão de ervilha")

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A dois

Como leitora de blogs sei que não é muito agradável ler textos longos, ainda mais em outra língua. Porém, tem certos achados que merecem ser compartilhados na íntegra, assim como existem poemas que merecem ser lidos para outra pessoa. Esse é um deles.

 Poppies - Jennifer Grotz

There is a sadness everywhere present
but impossible to point to, a sadness that hides in the world
and lingers. You look for it because it is everywhere.
When you give up, it haunts your dreams
with black pepper and blood and when you wake
you don’t know where you are.
But then you see the poppies, a disheveled stand of them.
And the sun shining down like God, loving all of us equally,
mountain and valley, plant, animal, human, and therefore
shouldn’t we love all things equally back?
And then you see the clouds.
The poppies are wild, they are only beautiful and tall
so long as you do not cut them,
they are like the feral cat who purrs and rubs against your leg
but will scratch you if you touch back.
Love is letting the world be half-tamed.
That’s how the rain comes, softly and attentively, then
with unstoppable force. If you
stare upwards as it falls, you will see
they are falling sparks that light nothing only because
the ground interrupts them. You can hear the way they’d burn,
the smoldering sound they make falling into the grass.
That is a sound for the sadness everywhere present.
The closest you have come to seeing it
is at night, with the window open and the lamp on,
when the moths perch on the white walls,
tiny as a fingernail to large as a Gerbera daisy
and take turns agitating around the light.
If you grasp one by the wing,
its pill-sized body will convulse
in your closed palm and you can feel the wing beats
like an eyelid’s obsessive blinking open to see.
But now it is still light and the blackbirds are singing
as if their voices are the only scissors left in this world.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Meus olhos não são castanhos

Ainda é fevereiro e o mês pede uma visita. Na verdade o mês não pede nada,  e eu não planejava viajar, mas domingo eu  arrumo as malas para trabalhar por dois dias e renovar meus votos  fraternos para este novo ano que ainda se inicia.  Em sendo essa viagem ainda em fevereiro, posso começar a considerar uma tradição. Foi assim em 2011, foi assim em 2010.
Dessa vez, assim com as outras, não vai ser diferente: o caminho vai ser o mesmo, e o hall do Ed. Marcus tem o mesmo cheiro de desinfetante há anos. Mentalizo que são só duas noites, que o acaso não esta comigo,  e que não estou sentindo falta. Tudo mentira. Essa movimentação não é simples e qualquer ilusão pode machucar. "Nada pode acontecer " - afirmo para mim mesma. "E se acontecesse?" – sugiro retórica. Se acontecesse, se os cosmos pregassem uma peça, ou os planetas se alinhassem gerando um campo magnético favorável para rompantes de emoção, eu não faria coisa alguma. Eu não saberia o que dizer, eu não tenho muito assunto para falar. Parada na sua frente eu passaria o polegar no seu lábio superior, e você conseguiria ler no meus olhos  a palavra saudade. Acho que eu chegaria perto do seu ouvido e diria baixinho “eu não presto, e você não vale muita coisa". Sim, acho que seria isso que aconteceria.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Estímulo para poucos (fragmentos de uma futura confissão II)

- O que te atraí em um homem?
- A mente suja.
- Só isso?
- Um homem com a mente verdadeiramente suja, imunda, livre de culpas, é coisa rara de se encontrar.

"(...) mesmo estando de acordo com a maioria, a escolha humana difere da do animal: ela apela para essa mobilidade interior, infinitamente complexa, que é típica do homem. O animal tem ele próprio uma vida subjetiva, mas essa vida, parece, lhe é dada, como acontece com os objetos sem vida, de uma vez por todas; O erotismo do homem difere da sexualidade animal justamente no ponto em que ele põe a vida interior em questão. O erotismo é na consciência do homem aquilo que põe nele o ser em questão. A própria sexualidade animal introduz um desequilíbrio e este desequilíbrio ameaça a vida, mas o animal não o sabe. Nele nada se abre que se assemelhe com uma questão." - O erotismo - George Bataille

Catálogo de um bordel francês em 1915. Está página é atribuída a escritora, crítica e poetisa francesa Renée Dunan.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A roof over my bed

Untitled [You did say, need me less and I'll want you more]
 Marilyn Hacker
 You did say, need me less and I'll want you more.
I'm still shellshocked at needing anyone,
used to being used to it on my own.
It won't be me out on the tiles till four-
thirty, while you're in bed, willing the door
open with your need. You wanted her then,
more. Because you need to, I woke alone
in what's not yet our room, strewn, though, with your
guitar, shoes, notebook, socks, trousers enjambed
with mine. Half the world was sleeping it off
in every other bed under my roof.
I wish I had a roof over my bed
to pull down on my head when I feel damned
by wanting you so much it looks like need.
 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O vácuo

" Em dias frios, acho que penso um pouco sobre quanto está frio. E no dias quentes, como faz calor. Quando estou triste penso um pouco sobre tristeza. Quando estou feliz, penso um pouco sobre felicidade. Como já mencionei, lembranças aleatórias me vêm à cabeça, também. E ocasionalmente, muito difícl, sério, tenho uma ideia para usar em um romance. Mas na verdade quando corro não penso em quase nada que seja digno de mencionar.
Apenas corro. Corro num vácuo. Ou talvez eu deva me colocar de outra forma: corro a fim de conquistar um vácuo. Mas, como seria de se esperar, um pensamento ocasional vai invadir esse vácuo. A cabeça de uma pessoa não consegue se manter um vazio completo. As emoções humanas não são fortes ou consistentes o bastante para sustentar um vácuo. O que quero dizer é que o tipo de pensamentos e ideias que invadem minhas emoções quando corro permanece subordinado a esse vácuo. Na falta de conteúdo, eles não passam de pensamentos aleatórios que giram em torno desse vácuo central.
Os pensamentos que me ocorrem quando estou correndo são como nuvens no céu. Nuvens de todos os tamanhos diferentes. Elas vêm e vão, enquanto o céu continua o mesmo céu de sempre. As nuvens são meras convidadas que passam e vão embora, deixando o céu para trás. O céu existe ao mesmo tempo em que não existe. Possui substancia e ao mesmo tempo não. E nós meramente acolhemos essa vasta expansão e nos deixamos embriagar." - Do que eu falo quando falo de corrida - Haruki Murakami

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Mi mariscos, mi gaspacho, mi amor.

Tudo que fiz foi por amor a você.  Poderia ser uma epígrafe, uma despedida ou uma explicação. Acredito que seja uma justificativa daquele tipo que serve para muitas coisas, e que deve ser utilizada em julgamentos de crimes passionais. No entanto, tudo que fiz foi por amor a você não pode ser considerado desculpas, nem tampouco um pedido de segunda chance.
De certa forma tudo que fiz foi por amor a você enobrece as atitudes descabidas que tive nos últimos tempos, racionaliza minhas emoções e, acima de tudo, agrega valor à história. Gostaria de deixar registrado aqui, então, que tudo que fiz foi por amor a você, mesmo quando você achou que era loucura, insanidade ou já conseguia me ver babando pelo canto da boca. Imagino que agora cascateiem em sua mente momentos nebulosos onde tal justificativa passional chegue para dissipar algumas nuvens. Da minha parte, assino embaixo de cada suspeita sua. Não sei o quanto você vai revirar a caixinha de recordações para tirar a prova do que foi feito por amor a você, mas adianto o trabalho e digo: Sim. Sim? Isso, sim!
Quando mudei de email, foi  por amor a você. E quando matei meu perfil do Facebook, sim, foi por amor a você. Quando joguei fora todas as nossas correspondências, seus presentes e músicas que trocamos. Ou quando separei os livros que você tinha indicado para mandar para o sebo, junto com as revistas enfadonhas que só comprei para te agradar. Acredite, foi por amor a você. Naquela noite quente de fevereiro quando eu abri a gaveta e rasguei todas as meias-calças achando que não fazia sentido ter uma coleção tão extensa quando os termômetros marcavam 37 graus às 23hs. Com uma tesoura afiada nas mãos, depredei Wolfords sem piedade, fiz pequenos buraquinhos em todas as Henry Holland e fiz da tesoura meu picador de gelo, deixando meu instinto selvagem aniquilar toda a linha primavera-verão da Les Queues des Sardines. Sabe por que isso? A-M-O-R  A  V-O-C-Ê. Também teve uma tarde que cheguei um pouco alterada de um almoço e decidi colar com chiclete sabor melancia as páginas do meu passaporte deixando preso meu visto americano válido por 10 anos. Neste episódio em especial tenho dúvidas em relação aos motivos que me levaram a cometer tamanho vandalismo débil, mas a essa altura, só posso dizer que foi por amor a você. Existiram outros momentos, como quando decidi começar a roer as unhas, ou virar adepta da melatonina para nunca mais sonhar. Tudo isso por você, amor.
Já faz tempo que não faço nada por amor a você. Muito provavelmente você esteja se questionando sobre meu último desaparecimento e se ele tem a ver com os mesmos motivos dos outros (amor a você). O que você não sabe é que dessa vez eu me despedi, consegui expor minhas razões e, acredite, olhando fixamente nos seus olhos, em uma foto um pouco estranha, percebi que você sabia o motivo de eu ir de fato embora e até respeitava a minha decisão. Pela primeira vez, tudo que eu fiz foi por amor a mim.



* Esta manhã acordei Almodóvar.