segunda-feira, 30 de abril de 2012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Modus operandis

Minha infância foi em Miguel Pereira, pequena cidade serrana no interior do estado do Rio de Janeiro, logo após Japeri, última estação da linha de trem que liga o centro do Rio à baixada fluminense. Boa parte da minha família mora lá, e boa parte do que sou devo àquele lugar. Lá eu dei meu primeiro beijo na boca,  aprendi a diferenciar dorme-dormideira de outras ervas daninhas, e conheci o Raça Negra. Foi nos alpes da baixada que desejei um amor suburbano, um amor que esqueça o Brian Eno, o Leonard Cohen, o Sonic Youth e Londres. Que não saiba o que é hermenêutica, que não tenha visto nem um filme da Miranda July, e muito menos lido Kurt Vonnegut.
Quando estou no alto da serra, na cama que antes era um beliche, desejo dias de simplicidade extrema, onde usarei lingerie azul clara, sem ser de algodão, enquanto meu amor tem cuecas Zorba. No banho irei passar sabonete Francis, aquele que vem embaladinho em TNT, em seu peito peludo, para depois  fazer a higiene com Leite de Rosas, enquanto ele passa uma mistura de álcool com bicarbonato que deixa os pelos de suas axilas encantadoramente ruivos. Sentaremos lado a lado no restaurante, e nossas pizzas serão servidas à francesa. Enquanto abocanho um naco cheio de ketchup ele me olhará apaixonadamente, e eu de boca cheia vou sorrir timidamente. Meu celular vai ter uma foto dele como fundo de parede e o toque vai ser nossa música.  Vamos juntos a um show de pagode, e ele ficará atrás de mim, abraçado, cantarolando "Niguém te pertenceu / Ninguém te ama como eu" baixinho no meu ouvido. Vamos viajar de ônibus, levaremos lanche e vamos dividir o fone. Além disso, todas as vezes que eu subir na frente vou levar um tapa na bunda como demonstração de carinho. Da mesma forma, vamos andar de ônibus no perimetro urbano, em pé  e ele me encoxará e indagará: "Tá vendo como você me deixa?"
Vou chamar os irmãos de cunhados e ele chamará minha mãe de tia. Vamos torcer pelo mesmo time, e, quando ganharmos, comemoraremos uniformizados no motel. É nesses recintos que ele vai me chamar de mulher, dirá que sou para casar e afirmará que é o homem mais feliz do mundo. Aos domingos sentaremos juntos no sofá para assistir Pânico, e ele colocará a mão sobre a minha perna direita, puxando os pelinhos que por acaso são naturalmente loiros. Pegaremos no sono, e assim no prepararemos para uma nova semana. Serão dias de profunda simplicidade, mesmo que a realidade seja bem diferente e tudo isso não passe de fetiche ocasionado pelo ar rarefeito.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Vôos livres

Para o alto e avante!




Foto de Yves Klein e uma que adoraria saber de quem é

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O futuro

Poderia fazer um longo texto sobre as questões economicas e os anseios d'alma, mas ando meio contida nas palavras. A conclusão do que seria escrito é: eu não pertenço mais a cidade grande. Não quero mais viver entre carros, cartões de crédito, gastos altos de dinheiro, não quero ter um mega emprego, não quero ser super reconhecida pelo que faço. Quero trabalhar o suficiente, comer o suficiente, viver o suficiente, sanar as angústias.  E quando sobrar, porque sempre sobra, eu aproveito os luxos e ambições que são necessárias, mas que não me preenchem mais como antigamente.

Quem sabe Mauá? Quem sabe Paraty? Quem sabe uma casa, um cachorro e um gato? Tá de bom tamanho. Tá para o meu tamanho.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

It's always ourselves

Maggie and Milly and Molly and May
E.E Cummings
 maggie and milly and molly and may 
went down to the beach(to play one day)

and maggie discovered a shell that sang 
so sweetly she couldn't remember her troubles,and

milly befriended a stranded star
whose rays five languid fingers were;

and molly was chased by a horrible thing 
which raced sideways while blowing bubbles:and

may came home with a smooth round stone 
as small as a world and as large as alone.

For whatever we lose(like a you or a me) 
it's always ourselves we find in the sea
 
 Foto de: beautesauvage.tumblr.com

domingo, 15 de abril de 2012

Presentes, mimos e gestos de afeto


O ato de presentear, não importa se de maneira digital, material, feito manualmente, me encanta. Fico especialmente feliz quando não tem data especial envolvida. A excitação que a dúvida gera: " será que vai gostar? " me agrada. Acho delicioso ficar escolhendo, de olhar para uma coisa e bingo!  Gosto de imaginar que só eu daria aquele presente, porque só eu conheço o gosto do presenteado, ou a referência que o presente faz. Estou tão acostumada a dar, que receber é sempre uma surpresa boa, que me desnorteia e me faz ficar retornando ao presente várias vezes para tirar o máximo de proveito dele.
Esses dias ganhei um presente desses simples, mas que valem ouro: veio em um envelope pardo, com post it na capa identificando origem e destinatário, já que ele foi deixado estrategicamente debaixo de uns papéis na mesa de ladyboss. Por causa dessa localização suspeita achamos que ele tinha sido extraviado para outro departamento, quem sabe não tinha ido parar na divulgação? ou no comercial? 5 dias depois ele chegou em minhas mãos, e só então pude ver o conteúdo que era nada mais, nada menos, que uma xerox! 
Eu adoro xerox, ainda mais que elas agora são sempre subversivas depois da lei que proíbe fotocopiar livros. Além disso, me lembra estudos, textos que me diziam que eram edificantes, e que muitas vezes não eram. Me lembra também marca texto, e setas para todos os lados. Só a xerox me permite sublinhar, anotar e rabiscar como se não houvesse amanhã. Porém, não era só uma xerox, era uma xerox de um texto de Stendhal chamado "os privilégios", que esta presente na Revista Serrote número #10, aquela que eu desisti em cima da hora de ir no lançamento, que tinha procurado na livraria do bairro na semana anterior mas tinha acabado, e que tinha prometido adquirir quando vencesse a preguiça e subisse os 8 quarteirões que me separam do IMS. Com um papel preso por clipe, Swimming, também conhecida como Running, ou Ju para os mais puristas, dizia as palavras mágicas de qualquer presente " lembrei de você ". Este post é uma forma de agradecer a ela, e como homenagem (ou o presente do presente) seleciono 4 artigos, que acho que ela curtiria, sendo um deles sublinhado pela própria que não teve dó e o fez direto na revista. Eu só espero que tenha sido a lápis.

Artigo 3:

A mentula à maneira do dedo indicador, no que diz respeito à dureza e ao movimento, ambos sempre ao bel-prazer. Quanto à forma, duas polegadas maior que o maior dedo do pé, mesma grossura. Mas prazer para a mentula apenas duas vezes por semana. Vinte vezes a cada nao, o privilegiado poderá se transforma-se na criatura que bem quiser, ele saberá por vinte e quatro horas a língua que bem quiser.

Artigo 4:

Milagre. O privilegiado levará um anel num dos dedos; ao apertá-lo enqaunto olha para uma mulher, esta caíra de amores por ele, com a mesma paixáo que se atribui a Heloísa diante de Abelardo. Se o anel for só molhado com um pouco de saliva, a mulher será apensa uma amiga terna e dedicada. Se o privilegiado olhar para a mulher e tirar o anel do dedo, cessarão os sentimentos inspirados em virtude desses privilégios. O ódio transforma-se em benevolência quando ao mesmo tempo se olha para o ser tomado de de ódio e se esfrega o anel contra o dedo. Esses milagres não poderão se dar mais que quatro vezes a cada ano para o amor-paixão, oito vezes para a amizade, vinte vezes para a anulação do ódio e cinquenta vezes para a sugestão de simples benevolência.

Artigo 5 (o que recebeu uma seta):

Cabelo bonito, dentes excelentes, pele boa, nunca aáspera. Odor suave e leve. Em I de fevereiro e I de junho de cada ano, as roupas do privilegiado voltam a ser como eram na terceira vez que as usou.

Artigo 6:

Milagre. Aos olhos de todos que não me conhecem, o privilegiado terá as formas do general De Belle, morto em Santo Domingo, mas sem nenhuma imperfeição. Saberá jogaer perfeitamente o whist, o écarté, o bilhar, o xadrez, mas não poderá jamais ganhar mais do que cem francos; saberá atirar com pistola, montar a cavalo e esgrimar à perfeição.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Os oito brincos de brilhante

Tiraram aproximadamente quatro vidrinhos de sangue do tipo B positivo dela, uma verdadeira violação arterial, para procurar a razão, o porquê de uma hora para outra tudo ter ficado turvo e sem sal. Era óbvio que a medicina ia ter uma justificativa boa suficiente para  pés e unhas com aspecto de mil-folhas. Além disso, a menina tinha cabelos quebradiços, pele sem viço e corpo roliço. Alguns afirmaram que era estresse pós traumático, ciúmes, outros culparam as dificuldades da vida, um amor não vivido, a economia que está em crise, os hormônios estagnados, a solidão, a saudade que não finda, o fato de ela colocar o cachorro em cima da cama e, até mesmo, a falta de investimento em uma previdência privada.
Ela afirmava não saber o que aconteceu, jurava que não tinha motivo, disse que tinha acordado assim. De um dia para o outro ela tirou todos os brincos de brilhantes, quatro em cada lóbulo, e começou a desfilar a orelha pelada por aí, sem pudor algum, com uma ousadia triste. Depois foi a maquiagem que não mais trouxe cor  às maçãs altas, e muito menos amenizou os túneis de olheiras que escondem duas butucas cor de azeitona lá no fundo. Sem contar o esmalte velho, cor de pele (ou nude) que jazia naquelas unhas fracas, e os fios brancos descobertos sem a rinsagem Chocolate glacê. De tudo que abriu mão, o que mais incomodava os outros era a ausência dos brincos. Vivia assim, em uma dieta de palavras, sem som, sem risos, sem vida.
Optaram por ajuda especializada, mandaram colocar a língua para fora, abrir as pernas, respirar pelo nariz e expirar pela boca, esticar o pescoço, furaram o dedinho e perguntaram a data da última menstruação. Assim como os quatro frasquinhos de sangue retirados, nada mostrava a razão para um belo dia ela ver tudo turvo e sem sal. Pelo contrário, os exames afirmavam que era um organismo saudável, sem doenças venéreas, onde colesterol bom e mau davam as mãos e a glicose era como a de um bebê que nunca viu um brigadeiro na vida.
Porém, é o papel da ciência explicar o que acontecia com ela, o que tinha mudado, era necessário achar uma pista para trazer à tona o que se passava dentro daquela corpulência. Sentaram-na em poltronas, deitaram-na em divãs, pediram que ela contasse o que sentiu quando foi esquecida na escola aos sete anos, e qual era a relação dela com os serviços do Google. Ofereceram um pacote de limpeza do passado, auxílio no presente e paz no futuro. Ela aceitou.  Todavia, ela continuava com as orelhas sem brincos. Decidiram por algo mais radical e novo, respondeu testes, colaram eletrodos e deram papéis onde o que estava prescrito vinha repetido em vias azuis, brancas e verdes. A posologia era clara: 1 no almoço e 1 no jantar para você voltar a sonhar. Tiraram o glúten, tiraram tudo que era carne, tiraram os vícios (principalmente os que escondia e os que  mais gostava), tiraram o doce. Deixaram o consumo moderado de bebida  destilada, inseriram consomés de rãs, feijão azuki, e uma lima de pérsia antes de dormir. Além da corrida, o pilates : "Alongar vai te fazer bem" - o professor falou para ela. "Te fazer bem", ela repetia para si mesma. Sugeriram que fosse ao cinema uma vez por semana, que lesse no mínimo um livro por mês, que assistisse um filme antigo toda quarta, e que visse uma exposição sempre que inaugurava uma, "coisas que você gosta". Mandaram que ela se matriculasse em um curso de fotografia e proibiram o uso excessivo de internet e meios de comunicação virtual. Banho era obrigatório todos os dias, e só poderia sair de casa de óculos 3 vezes por semana, o resto era lente de contato "para ficar com uma carinha melhor", disse uma amiga. Deram uma passagem para o destino mais barato: "vai ser bom para espairecer", um ingresso para um festival,  um sapato azul e um caderno com estampa de polvo. Ela ficou bem agradecida.
Tem 11 dias que tudo que tinha que ser tirado foi tirado, e tudo que tinha que ser colocado, foi colocado. Tudo continua meio turvo e meio sem sal, mas afirmaram que logo as formas e cores se definem e os temperos voltam a surgir.  As únicas vontades que brotaram foram:  reaver o brilhantinho que carregava na narina direita para transformá-lo em uma argola, e ir para Colombia. Nota-se, no entanto, que até o presente momento nenhum maldito brinco foi posto naquelas orelhas sem graça.

domingo, 8 de abril de 2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O coração de uma mulher

 Qualquer.





Então é Páscoa

Essa semana, a BBC colocou um link no Twitter que falava a respeito de uma fotógrafa inglesa cega de nascença por ser albina. Amy Hildebam passou por diversas cirurgias e hoje enxerga algumas cores, sombras e formas. Decidiu estudar fotografia, e tira uma foto por dia. Depois de perder o padrasto ela disse tentar ser uma pessoa positiva.

Amy Hildebam se supera todos os dias.




Aqui o blog dela: http://withlittlesound.blogspot.com.br/

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Das listas que fazemos

Como é fácil criá-las
Como é difícil obedecê-las.

terça-feira, 3 de abril de 2012

De malas prontas

E esperando o melhor momento para ir para Glasgow, a cidade art-deco vem acenando para mim.

Uma noite fora de você

Essa noite tive um sonho erótico.
Fazia tempo que meu imaginário não aparecia com imagens que guardei, em algum lugar que já nem me lembro, mas que serviam de referência para caso um dia acontecesse o encontro cósmico dos corpos. Na falta de lembranças concretas o inconsciente trabalha na modalidade suspense, eu sempre fico sem saber como acabaria. A sensação que dá é que o consciente munido de suas razões gritaria "corta" não permitindo o desfecho.
 Não é a primeira vez que tenho sonhos eróticos com o mesmo protagonista, pelo contrário, foram inúmeras vezes, e todas elas possuem a mesma característica: o sonho é interrompido e nada acontece. É como se só eu soubesse que era para ser um sonho erótico, talvez ele saiba, e mais ninguém. Já estivemos juntos em hotéis, ruas escuras, apartamentos que eu não sei  de quem são , lugares que nunca fui, camas pequenas e grandes. Geralmente o que antecede a transa é cheio de paixão e toque, às vezes rimos muito, às vezes brigamos, poucas vezes nos beijamos, toda a atmosfera é obscena. Em determinado momento só falamos, falamos, falamos, falamos, e quando retomamos a fim de gozar no final, eu acordo, eu sempre acordo.
Essa noite estávamos no chão, havia uns vestidos que não eram meus jogados por toda a parte, uma paisagem bonita, e nós estávamos tristes. Era um sonho erótico só no rótulo, nada era alusivo a sexo,  tudo era desprovido de paixão. Mesmo diante deste cenário, quando finalmente consegui ver o rosto dele de baixo para cima, comecei acordar, fiz um esforço tremendo de não perder o fio da meada, para não ver ir embora a oportunidade, mesmo sabendo que havia perdido oportunidades melhores do que aquela, mas foi em vão.
Acho que a tristeza era o racional que cisma em estar presente. Talvez seja esse o caminho para reter o sonho e viver as cenas finais: não havendo intromissões desse tipo, vamos nos esbaldar e eu não vou acordar.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Quando as marcas de dentro se fundem com as de fora

"Crianças exibem suas cicatrizes como medalhas. Amantes as usam como segredos a serem revelados. Uma cicatriz é o que acontece quando a palavra se faz carne". -  A brincadeira favorita - Leonard Cohen

Repetindo porque é bonito demais

Uma cicatriz é o que acontece quando a palavra se faz carne.


Todas às vezes que vejo uma cicatriz meu primeiro impulso é tocar. Costumo pedir isso para pessoas que conheço, mesmo com pouca intimidade, e geralmente elas deixam. Por um breve momento tenho a sensação que posso sentir, ver o momento que a pele rompeu, ou até mesmo anular a dor que causou a marca. Só depois que toco peço para me contarem a história.

Decisões de uma segunda-feira

A leitura de "Comer Animais" do escritor americano Jonathan Safran Foer, somada às questões hormonais reinantes pedem uma mudança de atitude.
O organismo está débil. Há um desencontro entre corpo e mente. Realinhar é preciso, diria o Yoda. A Bahia já tinha previsto isso.

O deserto me chama.

Para gostar de mim.


(First Aid Kit e a Suécia xamânica - essa música não é minha favorita, mas o clipe é surreal demais)