quarta-feira, 7 de outubro de 2020

A vida em 2020 - parte 1

As duas últimas postagens que aconteceram aqui tinham as palavras "confinadas"e "solidão".

Pois bem,

eu saí do trabalho no dia 19 de março de 2020 por volta de 17h30 com meu computador, um MAC desktop de 21 polegadas, debaixo do braço. Assim como a maioria das pessoas achei que seria um período curto - 1 mês? 2 meses no máximo... 

Hoje é dia 7 de outubro de 2020 e continuo na minha casa, no meu mundo, no meu planeta, na minha. Vou começar a postar nesse espaço tão anacrônico quanto o próprio tempo se tornou algumas das coisas que escrevi no bloco de notas do celular, este aparelho que se tornou uma extensão das minhas mãos, onde me conectei com amores, ouvi vozes desconhecidas, reinventei relações, ri , chorei, queimei minhas retinas.


18-19 de abril de 2020


Estou em quarentena. Não tenho forças para explicar isso, mas esse é um diário de bordo, e essas são as coordenadas do momento: Covid-19, distanciamento social, quarentena, presidente maluco.

Diante da situação, não paro de fumar, algo vai sucumbir: Minha cabeça? Minha saúde? Vamos ver o que vem pela frente, já diz o meme, o sticker, tanto faz... Também me tornei meio alcoólatra e decidi, pelo menos por um momento, voltar a fumar maconha. Em um outro momento me explico — afinal, sou minha principal leitora —, porque parei com o hábito na penúltima década. 




terça-feira, 10 de março de 2020

As últimas horas. Os últimos anos.

"Pode-se pensar que esse estado seria antitético em relação à vida urbana, à presença em massa de outros seres humanos, mas a mera proximidade física não é o suficiente para dissipar uma sensação de isolamento interno. É possível –– e fácil até –– sentir-se desolado e abandonado ao lado de outras pessoas. Cidades podem ser lugares solitários e, ao constatar isso, vemos que a solidão não requer necessariamente isolamento físico, mas sim uma ausência ou escassez de conexão, proximidade, afinidade: uma incapacidade, por um motivo ou outro, de encontrar tanta intimidade quanto se deseja. Infeliz, como diz o dicionário, como resultado de estar sem a companhia de outros. Dificilmente se imagina, portanto, que isso possa chegar à apoteose numa multidão.


(...)


Na maioria dos dias, eu fazia as mesmas coisas. Sair para comprar ovos e café, caminhar sem rumo pelas extraordinárias ruas de pedras ou descer até o passeio de olhar o East River, a cada dia forçando um pouco mais, até chegar ao parque em Dumbo, onde aos domingos você via casais de noivos porto-riquenhos vindo tirar fotos de casamento, as garotas em enormes vestidos esculturais verde-limão e fúcsia que faziam tudo o mais parecer cansado e sério. Manhattan do outro lado da águas, as torres reluzentes. Eu estava trabalhando, mas não tinha nada para fazer depois. Os momentos ruins vinham no início da noite, quando eu voltava para meu quarto, sentava no sofá e assistia ao mundo fora de mim passando através do vidro, uma lâmpada de cada vez.

Eu queria muito não estar onde eu estava. Na verdade, parte do problema parecia ser que onde eu estava não era lugar nenhum. Minha vida parecia vazia e irreal, e eu estava constrangida com sua estreiteza, como alguém que se sente constrangido por vestir uma roupa manchada ou puída. Eu me sentia como estivesse em risco de desaparecer, embora ao mesmo tempo os sentimentos que eu tinha fossem tão crus e opressivos que, com frequência, eu desejava poder encontrar uma maneira de me perder completamente, talvez por alguns meses, até a intensidade diminuir. Se eu pudesse pôr em palavras o que estava sentindo, as palavras seriam um choramingo de criança: Eu não quero fica sozinha. Eu quero alguém que me queira. Eu estou solitária. Estou assustada. Preciso ser amada, ser tocada, ser segurada. Era a sensação de necessidade o que mais me amedrontava, como se eu tivesse levantado a tampa de um abismo implacável. Eu parei de comer muito e meu cabelo caía e ficava visível no chão de madeira, aumentando minha inquietação".

(A cidade solitária: Aventuras na arte de estar sozinho - Olivia Laing - Ed. Rocco)


Edward Hopper, Morning Sun, 1952

sexta-feira, 6 de março de 2020

Jellyfish. Jellymind

No dia 12 de outubro de 2016 eu me dei de presente uma ida ao Aquário de Londres. Nunca tinha ido a um aquário antes. Fiquei com pena dos pinguins, fiquei com pena das tartarugas, fiquei com pena dos tubarões e devo ter ficado com pena de mim também. Das anêmonas e das águas vivas, ou medusas, no entanto, fiquei com inveja. Mesmo confinadas, dançavam transparentes e luminosas na cara dos especistas amontoados no escuro.


Acho que é a primeira vez que posto uma foto minha aqui. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

"É preciso viver na vida real, que é trágica".


Trecho de uma entrevista do Woody Allen para Borja Hermoso do El País. Setembro/2019.
"Sentido é capacidade de perceber sensações, a partir do corpo e de seus órgãos: língua com sabor; pele com tato; nariz com olfato; olhos com visão; ouvidos com audição. Quando as sensações se misturam, vira sinestesia; quando não há sentir em jogo, apatia; quando não há sentido no sentir, nonsense; quando não há sensação no sentido, anestesia. Para a faculdade de pensar, sentido é propósito. Para quem faz, sentido é intenção. Diante do desequilíbrio, sentido torna-se senso, tino. Quando não bastam os perceptos, vem o sentido e seus afetos. Para a alma, é um adjetivo doido. No argumento, sentido é um ponto de vista. Se, a partir do presente, o sentido é antecipado, é porque se está entrevendo. Na obra de Cildo Meireles, sentido é instrumento, medida, matéria, procedimento, modo e meio.
Entrevendo, como exposição, é um convite para encontrar a obra de Cildo Meireles a partir das múltiplas noções de sentido e de nossa capacidade de reinventá-las. De caráter antológico, este projeto remonta aos primeiros anos da produção de Meireles, na década de 1960, até os dias atuais. Na amplitude de mais de cinquenta anos, o artista apresenta uma obra de inquestionável contundência, que passa por suportes como desenhos, gravuras, instalações, objetos, estudos, esculturas, situações obras sonoras, instruções. Suas proposições conceituais funcionam como um gatilho para engajamento do público, e a maneira de formalizá-las faz do uso dos materiais (ou a abdicação deles) um recurso de sedução e verdade. Quando, no entanto, os elementos parecem todos evidentes, a equação das obras de Meireles coloca-nos diante de resultados imprevisíveis que têm pensamento crítico, afeto e criação como qualidades. Em seus trabalhos, são indissociáveis as relações entre forma e conteúdo, texto e imagem, poesia e política, abstração e figuração, íntimo e universal, passado e presente.""

(...)

Parte do texto escrito pelos curadores Júlia Rebouças e Diego Matos para a exposição Entrevendo de Cildo Meireles, no SESC Pompéia - Setembro/2019.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

"Não há artista que possa suportar a realidade. Nem a superar."

Logo depois da guerra, Theodor Adorno, abalado, disse: "Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro". Um dos meus professores, Aliés Adamóvitch, um nome que quero citar hoje com gratidão, também considerava que compor prosa sobre os pesadelos do século XX era sacrilégio. Aqui, não se tem o direito de inventar. deve-se mostrar a verdade como ela é. Exige-se uma "supraliteratura", uma literatura que esteja além da literatura. É a testemunha que deve falar. Pode-se pensar em Nietzsche, que dizia que não há artista que possa suportar a realidade. Nem a superar.

Sempre me atormentou o fato de que a verdade não se sustenta num só coração, num só espírito. Que ela é de algum modo fragmentada, múltipla, diversa e dispersa pelo mundo. Há em Dostoiévski a ideia de que a humanidade sabe muito mais sobre si mesma do que aquilo que consegue fixar a literatura. O que eu faço? Recolho sentimentos, pensamentos, palavras cotidianas. Reúno a vida do meu tempo. O que me interessa é a história da alma. A vida cotidiana da alma. Aquilo que a grande história geralmente deixa de lado, que trata com desdém. Eu me ocupo com a história omitida. Ouvi mais de uma vez e ainda ouço que isso não é literatura, que é documento. Mas o que é literatura hoje? Quem pode responder? Vivemos mais rápido que antes. O conteúdo rompe a forma. Ela a quebra e modifica. Tudo extravasa das margens: a música, a pintura e, no documento, a palavra escapa aos limites do documento. Não há fronteiras entre o fato e a ficção, um transborda sobre o outro. Mesmo a testemunha não é imparcial. Ao narrar, o homem cria, luta com o tempo assim como o escultor com o mármore. Ele é um ator e um criador.

O que me interessa é o pequeno homem. O pequeno grande homem, eu diria, porque o sofrimento o torna maior. Nos meus livros ele próprio conta a sua pequena história e, no momento em que faz isso, conta a grande história. O que aconteceu e acontece conosco é ainda incompreensível, é preciso ser pronunciado. Para começar, é preciso ao menos pôr tudo em palavras. E tememos por isso, pois ainda não nos sentimos em condições de dar conta do nosso passado. Em Os demônios, de Dostoiévski, em preâmbulo a uma conversa, o personagem Chátov diz a Stavróguin: "Nós somos dois seres que se encontram fora dos limites do tempo e do espaço... pela última vez no mundo. Deixe o seu tom de lado e pegue outro que seja humano! Fale, uma vez na vida, com voz humana".

Vozes de Tchernóbil- Svetlana Aleksiévitch
Companhia das letras - pág 372 e 373.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

2+2 = 22

- É que eu gosto muito do Woody Allen. Me identifico com ele em Annie Hall. Digo, sei que isso é uma afirmação controversa, pela coisa toda das acusações, mas eu realmente gosto dos filmes dele.

- Tudo bem, eu me identifico com os filmes do Polanski. Principalmente Lua de Fel.


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

5 anos, 6 meses e 18 dias depois...

Olá.

Agora não escrevo tão bem (mal escrevo na verdade).

Agora trabalho batendo ponto.

Agora sou orfã.

Agora moro sozinha.

Agora congelei um punhado de óvulos.

Agora eu tento parar com a coisa que eu mais gosto de fazer: fumar.

Agora tenho outros medos e alguns traumas.

Agora já conheci desertos imensos.

Agora releio tudo o que foi deixado intacto aqui, tal qual a cidade de Prypiat, e já nem sei o porquê dessa vontade de voltar aqui, justamente agora.