quinta-feira, 31 de março de 2011

Les beaux sauvages

Ou que os olhos se recusam a ver.


" É importante insistir neste ponto, já que parece tão difícil aceitar que possa haver uma forma de grandeza na negatividade. Normalmente, a única perfeição admitida é a das alturas. O céu da divindade. Ora, pode acontecer que esta tensão para o alto não corresponda à prática social. Daí a necessidade de descer às profundezas da vida. De vincular- se a esse abismo negro, o da animalidade que dorme em cada um, da crueldade também, do prazer e do desejo, coisas que não deixam de fascinar, mas que costumam ser compartimentadas, e são toleradas apenas nas obras de ficção.
 Acontece, para o melhor ou para o pior , que este espírito animal voltou ao primeiro plano da cena social. Não, como já expliquei, numa simples regressão, mas de acordo com uma atitude de "regrediência", a da implicação que integra o arcaico, o primitivo, o animal humano, e sem "superar" tudo isto. "Regresso", "ingresso", pouco importa o termo que pode ser empregado; basta insistir no fato que seja possível penetrar, entrar (ingresso) na inteireza da natureza humana sem rejeitar-lhe esta ou aquele parte. É isto o "espírito das feras" que encontramos no pensamento fourierista, é isto a ultima ratio dos sentidos, do sensível que não projeta sua completa realização em hipotéticos amanhãs." - Michel Maffesoli - A parte do diabo - Ed. Record


Hipotéticos amanhãs..... (bonito que só) 




















quarta-feira, 30 de março de 2011

Supõe-se cognatas

Na ânsia de fazer alguma maldade com o pintor, que no momento faz um serviço primoroso, porém lentíssimo em minha casa, pensei na palavra supositório. Supositório é uma forma de medicamento que só quem sofreu ou sofre bullying opta em utilizar. A maioria das pessoas prefere baixar na emergência de um hospital e tomar o que for, de forma intravenosa, do que colocar um teleguiado medicamentoso por via suspeita. Na verdade, o supositório inspira emoções contrastantes do tipo ame ou odeie. Conheço alguns sujeitos que falam maravilhas sobre o efeito rápido na corrente sanguínea, e de como na geladeira nunca falta um (sim, eles devem ser guardados em ambiente refrigerado, naquela parte ali onde ficam as superbonders, os sachês de catchups e os ovos). Outros só faltam se benzer quando ele é receitado e raros são indiferentes. A maior parte odeia e ponto.
Pois bem, pensei em supositório. Poderia ter parado por ai, mas não, neurotransmissores trabalharam de forma árdua para que SUPOSITÓRIO ganhasse vida em minha mente. Fui da minha casa à PUC refletindo na semântica híbrida desta palavra. Me lembrei de sanatório, que é um estabelecimento onde a grande maioria procura tratamento para doenças ou psicopatias. Por analogia, o supositório, então, poderia ser um estabelecimento onde as pessoas vão para tratar suas suposições. Acho justo nos dias de hoje. Muito se pensa, muito se diz e muito se supõe... nada melhor do que um local próprio para tal atividade. Porém, para mim, seria possível haver um supositório doméstico, uma espécie de urna, em casa, na qual você guarda suas conjecturas. Seria interessante se fosse vendido na papelaria, por exemplo, ou em clínicas de psicanálise. De posse do seu, seria permitido a cada individuo customizá-lo a seu bel-prazer.
A aula acabou, e a questão cônica se recusava a ir embora do meu pensamento. A profusão de ligações era tanta, que tive que chegar em casa e fazer um levantamento de dados sobre a origem latina e o emprego da palavra supositório. Eis que um universo muito diversificado surge à minha frente.

Segundo o Aurélio:

Supositório: [Do lat. suppositoriu.] 1.Farm. Forma farmacêutica sólida, cônica ou cilíndrica, que se introduz pelo ânus e que, ao derreter-se, libera medicamento(s) a ser(em) absorvido(s) pelo reto.


         Até ai nenhuma novidade para ninguém. Diferente do que eu imaginava, o radical do latim não é o mesmo do verbo Supor (Do lat. Supponere), no entanto, é possível empregar o uso da palavra supositório na norma culta, como vamos ver no questionamento, diga-se de passagem, muito válido, de Fátima Alves, de origem lusa, no site Ciberdúvidas da língua portuguesa:
                                                                                                                         
É correcto dizer esta frase: «Ontem vi o programa dos animais do futuro e achei tudo muito supositório»? Esta última palavra derivará da palavra suposição. Será possível? Agradeço resposta breve, pois aqui no escritório já me chamam doida. Serei?

C.M, um exímio conhecedor do verbo e do medicamento, discorreu em auxílio à nossa amiga acima, que já na pergunta sofre de suposições, e bullying  em ambiente de trabalho:

Resposta a Supositório: além de «medicamento sólido, significa «baseado em ou que contém suposição; supositício, hipotético, suposto» (in Dicionário Eletrônico Houaiss). Portanto, não existe qualquer incorre(c)ção na frase «Ontem vi o programa dos animais do futuro e achei tudo muito supositório». No entanto, deve ter sempre em conta, ao utilizar uma palavra, a acepção em que ela é mais utilizada e conhecida e, na verdade, a maioria dos falantes conhece e utiliza a palavra supositório apenas com o sentido de «medicamento sólido...». Talvez por isso o Dicionário da Porto Editora refere só a acepção relativa à área dos medicamentos; e diz ainda que supositório vem «do latim 'suppositoriu-', "que se põe por debaixo"».

 Deveria  me dar por satisfeita, mas ainda faltavam elementos para acalmar meu fervor de conhecimento. Eis que adentro o maravilhoso mundo altruísta e filantrópico do Yahoo answer, mundo este que me fascina muito.  Lá encontrei um jovem rapaz que confirmava minha teoria sobre o preconceito e chacota. A pobre criatura angustiada suplicava por uma resposta: “eu sempre escuto falar, e as pessoas dão muitas risadas e sempre quando pergunto disfarçam, dizem que sou muito novo. Me expliquem, por favor!!!!!”. Pior que ele, outro rapaz descreve uma intercorrência durante a aplicação medicamentosa, e termina com a dúvida cruenta: “Serei eu gay?”
            Já tinha encontrado material  suficiente para minhas teorias revolucionárias e já tinha, até, incluído a palavra supositório no meu vocabulário (“Acho supositório o pintor dizer que entrega nossa casa no final do mês” ou “Nesta vida tudo é supositório”) quando Portugal me apresenta duas pepitas de joy, mostrando que quem tem problemas com essa palavra somos nós, brasileiros. Eles têm uma receita de “Frango a Supositório”, que segundo o chefe, é um clássico, e que o Diogo(??) aprova. A receita consiste em pegar limão, bacon e azeitonas e introduzir no fofó (momento meigo) da galinha juvenil. Parece gostoso. E por último, a matéria no Presseurop sobre a mais nova ameaça anal disparada por portáteis que Osama criou. A manchete escolhida para esclarecer ao mundo esta barra pesada foi: “Como lutar contra os supositórios assassinos.” O que remete, automaticamente, a uma espécie de filme de terror C, onde supositórios caem feito mísseis do céu, ou te perseguem em casa, podendo se multiplicar na sua geladeira.
            Enquanto um avião não é explodido de forma peculiar, enquanto os muros do preconceito e do bullying não caem, enquanto eu não me torno adepta desta posologia e, principalmente, enquanto o pintor não acaba esta obra enlouquecedora, essa Capela Sistina caseira, a única coisa que me resta é fazer a receita, chamar os amigos e comer. Poxa. 

Foto de: www.corbisimages.com

segunda-feira, 28 de março de 2011

Coisa para caramba ou a dieta do amor

Segundo o escritor William Faulkner:  Civilization begins with distillation


Cartão de: www.carlajonesdesign.co.uk

domingo, 27 de março de 2011

sexta-feira, 25 de março de 2011

Sinto, muito.

"Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade da consciência
delas. Sofri sempre mais com a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento de que
tinha consciência.
A vida das minhas emoções mudou-se, da origem, para as salas do pensamento, e ali vivi
sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da vida.
E como o pensamento, quando alberga a emoção, se torna mais exigente que ela, o regime de
consciência, em que passei a viver o que sentia, tornava mais quotidiana, mais epidérmica,
tornava mais titilante a maneira como sentia." 



"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem
importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto."

._. Bernardo Soares - Livro do Desasossego ._. 

* Trechos extraídos da exposição sobre Fernando Pessoa que acaba de inaugurar no Centro Cultural dos Correios.

**  Foto do filme "Diário de uma paixão" que tirei de algum Tumblr que não me lembro.

quarta-feira, 23 de março de 2011

" O fim do mundo, não é nenhum fim do mundo, e se for? Descanse em paz" *

Hoje completo um mês longe do site mais popular dos últimos tempos.  Me recordo bem da madrugada portenha, em que, num acesso de raiva, decidi me matar definitivamente. Não era a primeira vez que isso acontecia, acho que tenho no currículo uns 3 suicídios facebookianos. Porém, naquela noite fatídica, todo aquele universo simplesmente não fez mais sentido, aquelas pessoas não fizeram mais sentido como um todo, aquela curtição toda me soou de uma maldade profunda. Na hora eu mesma achei que seria temporário, mas olha, que incrível, um mês já se passou.
Criei meu perfil em abril de 2007, me lembro de ter somente amigos que moravam fora naquelas páginas alvas, de higiene profunda, ainda mais quando comparadas ao Orkut, que ainda estava em vigência na época. Lá era tão desértico que conversava com uma amiga de São Francisco pelo mural, coisa que nunca fiz depois. Tinha também vários aplicativos interessantes de música, artes e livros, que com a oficialização da finalidade de ser um site de relacionamentos acabaram perdendo sua função de entreter. Era um espaço a priori bem legal, tanto que falava para todos os meus amigos íntimos migrarem para lá, afinal, era vazio e tinha que ser povoado. O que eu mais ouvia era: é muito complicado.
Descobri o Facebook por conta da revista Glamour UK, que na época eu assinava. A revista de comportamento feminino inglês (não beba, não fume, desça do scarpin, emagreça, cuidado com o sexo casual) dizia que era um belo lugar para se conhecer gente. Criei minha conta na ânsia de fazer pen friends versão 2.0. Em meados de 2009 ocorreu o boom, e não mais que de repente todo mundo estava lá. Diferente do falecido e querido Orkut, todo mundo mesmo estava lá. E essa massa de gente conectada dava opiniões, colocava música, vídeos, fotos, frases de outras pessoas e autores, jogos idiotas... era tanta informação alheia que apelidei o site de Cortiçobook. Ali só não  sabia da vida do outro quem fazia um esforço tremendo para não querer saber. Paraíso dos stalkers,  fonte de paranoia, maná do ciúme e da histeria coletiva, o Facebook trazia à tona, em um simples passar de olhos, conflitos internos mil. Eu enquanto perfil, sendo apenas mais um entre tantos, abraçava minha missão de me preservar e fuçar tudo que era jogado na minha página inicial, ou, até mesmo, ir à cata de subsídios, para que quebra-cabeças comportamentais complexos se formassem na minha cabeça. Confesso que nunca tive sanidade mental e distanciamento necessário para lidar com aquele espaço, de alguma forma ele me fascinava e perturbava.
Um dia, no entanto, você para e vê que também é peça fundamental de quebra- cabeças alheios, e essa sensação nem é das melhores. Quando esse dia chega, a sensação de certo “fracasso” que dá quando postamos algo e ninguém curte se torna revigorante: “que bom que ninguém tá nem aí pra mim. Ufa! Passei despercebida. Eu nem sou tão interessante, engraçada, inteligente, sarcástica, culta e amiga assim... Sou gente, e das bem mundaninhas”. Todavia, como está escrito no Gênesis, comer do fruto nunca é fácil para ninguém, e suas conseqüências reverberam na nossa rotina: “no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos ”. Ao não se preocupar mais com que acontece ali, uma maneira de olhar diferente aquele espaço aparece, mostrando que, se você não é tão interessante, pior, seus amigos queridos podem ser uns idiotas completos de opiniões vazias e gosto duvidoso. Coisas que no convívio real não se destacam, não são dignas de nota, ali, de alguma forma, ficam muito evidenciadas.
Há um mês do meu sepultamento, seria falso dizer que não senti certa falta e que não assombrei por aquelas bandas. Como o Facebook permite que você ressurja das cinzas, já estive lá por alguns minutos recolhendo pertences e pedaços de informações, e volta e meia pergunto para os amigos: "O que tem acontecido no Facebook?" (respeito e entendo muito quem curte estar lá). Só que dessa vez, diferente das outras mortes, não me sinto mais pertencente àquele lugar, e, sinceramente, como já disse, não sinto uma falta louca, no máximo uma faltinha. Constato até, que ao sair de lá, meu tempo é mais bem aproveitado e fiquei um pouco mais interessante. Sinto uma certa liberdade em não ter que me manifestar em um curto espaço, e não ter uma aprovação imediata. Ando pesquisando as coisas por minha conta, ainda vejo o twitter, apesar de não twittar, ando investindo e reestruturando este blog, que acabou sendo meu maior contato com o mundo digital, e que carrega muito mais coisas minhas que qualquer rede social. Neste espaço customizado, existe a preocupação de se pensar minimamente antes de publicar, e, ao mesmo tempo, a opinião dos outros não é fundamental, já que o número de leitores é mais reduzido que 584 amigos – número máximo atingido.  Aqui, no meu e-mail, por telefone (que eu odeio), e principalmente na minha vida real, sou mais genuína e divertida do que em todo meu tempo de Facebook, quando a brincadeira de esconde-esconde de informação e emoção me esgotava. Infelizmente, não posso afirmar que ficarei 100% longe do espaço azul por questões de trabalho: ele ainda é uma ferramenta muito importante. E muito menos vou dizer que se surgir outra coisa eu não vá aderir à moda, claro que vou. Gostaria até, que houvesse um  retorno do Orkut, que era bem mais engraçado com suas comunidades, gelinhos, testemunhos e corações. Passada a crise de abstinência, acho que estes últimos 30 dias foram mais sinceros, mais reais, e acima de tudo, mais vividos do que os meses anteriores.

O texto da escritora inglesa Zadie Smith, que saiu na revista Piauí em fevereiro,  chancelou a crise. A parte de maior destaque para mim foi o fato dela alertar que o Facebook surgiu pelo sentimento mais coninha do ser humano – vingança. Deixo aqui, um trecho e o link para a matéria inteira:

"Quando uma pessoa se transforma numa série de dados num website como o Facebook, tudo nela fica menor: a personalidade individual, as amizades, a linguagem, a sensibilidade. De certo modo, não deixa de ser uma forma de transcendência: perdemos nosso corpo, nossos sentimentos contraditórios, nossos desejos, nossos medos – o que me faz pensar que aqueles de nós que sempre recusaram, com repulsa, o que vemos como uma ideia burguesa hiperinflada da identidade individual talvez tenham exagerado no sentido inverso: as identidades despojadas que assumimos na rede não mostram mais liberdade. São, apenas, mais controladas por alguém."


O filme corroborador da decisão tomada:







* Trecho da música Decadance avec elegance - Lobão.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Todo mundo nu

"Om nashi me" - teoricamente significa: "Oh infinite nakedness". 


Se for isso mesmo, vem do sânscrito e provavelmente tem a ver com o ensinamento tântrico. 
Tan - expansão
Tra - libertação


Um texto do grupo Vatayana, do qual fiz parte durante um mês, há muito tempo...


"O Tantra, falando de forma bastante simples, é uma filosofia que surgiu na Índia há cerca de 5.000 anos (isso numa estimativa modesta), embora sua sistematização tenha ocorrido apenas a partir do séc. V de nossa era. É uma filosofia não-dual, que preconiza que em última instância há apenas a Unidade, coincindindo com a visão não dualista do Vedanta. Tem como símbolo dessa Unidade a deidade conhecida como Shiva. Shiva representa a consciência sem forma que se manifesta no mundo na forma de Shakti (a criação, de princípio feminino) e assim cria o mundo manifesto. Shiva e Shakti, masculino e feminino, integram-se e formam tudo o que existe. O objetivo da prática tântrica é fazer com que o indivíduo possa perceber que ele já é, e sempre foi, essa unidade. A tal felicidade, que tanto buscamos, já está aqui. Não há o que buscar, apenas há que reconhecer esta realidade. Quando conseguimos integrar o masculino – Shiva, com o feminino – Shakti, atingimos essa percepção. No caminho para atingir essa integração é que o tantra se desdobra em duas linhas diferentes, o dakshina marga e o vama marga, a via da mão direita e a via da mão esquerda, respectivamente. Embora ambos os caminhos tenham a mesma filosofia de base, diferem na maneira como seguem esse caminho.
No Dakshina Tantra entende-se que, tanto o homem como a mulher possuem os princípios masculino(Shiva) e feminino(Shakti) e são preconizadas várias práticas que buscam integrar esses dois princípios em cada ser individual.
Já no Vama Tantra há o entendimento que a energia masculina (Shiva) encontra-se principalmente no homem e a energia feminina encontra-se na mulher. Então, nesse caso, só há uma maneira de integrá-las: unindo homem e mulher através do ato sexual ritualizado, chamado de maithuna."
A música bonita do Edward Sharpe and the magnetic zeros, afinal, amor ainda é expansão e liberdade.


"Om nashi me
I love you
And I love you forever
And I'm loving you now"





domingo, 20 de março de 2011

Domingos

De olhos abertos vejo você em vários lugares. De olhos fechados sonho com você todas as noites. Porém, é nos finais de semana,quando a casa está vazia, que idealizo meus melhores dias com você (meu doce Frankenstein). Posso afirmar que é bom viver o que eu imagino, e dizer, até, que é bonito. A maior vontade do filho único é compartilhar. Não é dividir, não é fundir se tornando uma só pessoa, é ver o outro chegar na sua vida pelas portas certas do consciente e do inconsciente e, assim, fazer morada, criar um mundo, com direito a rede e temperos na varanda, onde só duas pessoas têm a chave para entrar.
No meu mundo, que só eu habito, acordo ao seu lado e sem te dar bom dia conto com riquezas de detalhes tudo que sonhei. Você me olha, e, mudo me faz um cafu. No banho, jogo água nos seus olhos por causa de uma piada idiota sobre o excesso de ungüentos que eu tenho dentro do box – nossas pastas de dente são distintas, não gosto da sua. No restaurante você ri porque adoro cardápios, e gosto de ordenar o que você vai comer só para ter o prazer de escolher diferente, dessa forma sinto paz por saber que vou pegar um pouco do seu, caso não goste do meu. Aos domingos escolhemos nossos programas por aquela brincadeira do papel, onde um escolhe um número e outro, de posse de uma espécie de boca que abre e fecha, conta até parar. Deixo contigo a escolha de uma das quatro cores que surgem. Uma vez por mês celebramos dias de reis com direito a coroa e rosca com presente dentro. Gravo cds de surpresa e coloco na sua bolsa para você ouvir no trabalho, e você, em contrapartida, pega meus livros e sublinha a lápis trechos que eu vou gostar. Fico especialmente emocionada quando descubro que você lavou meus óculos por achar inconcebível ver o mundo de maneira tão suja.  Combinamos de sair separados com nossos amigos, só para ter o mórbido prazer de nos encontrarmos no final da noite e dizer quantas pessoas se interessaram por nós, e renovar nossos votos de você é meu e eu sou sua. Você odeia porque durmo nos filmes que eu mesma escolho, e eu não suporto a sua mania de deixar os sapatos virados para baixo (a mãe morre! digo todas às vezes, quase chorando). Em um passeio de bicicleta voltamos para casa com um triângulo e um agogô, cuja única função  é chamar um ao outro em forma de repente.
De todas as coisas que a gente faz bem, existe uma que se sobressai... bem, talvez mais de uma... de todas as coisas, acho que o silêncio confortável que temos é a maior delas. Com você ao meu lado eu não preciso falar nada, eu só sinto, e tá tudo bem.

Algumas fotos do nosso álbum imaginário:



O potpourri  nonsense da nossa vitrola imaginária:

Goldfrapp - Number one + The National - Beautiful head + Thelonious Monk - Misterioso +  Manu Chao - Tristeza Maleza + Van Morrison - Sweet thing + Girls - Morning Light + David Bowie - Nature Boy + Lady Gaga - Alejandro +Marilyn Manson - Tainted love +  Lou Reed - Satelitte of love + Devendra Banhart - Santa Maria da feira + Caetano Veloso - Nine out of ten + Vinicius de Moraes - Samba da benção + Flogging Molly - Seven deadly sins + Stereo total - L'amour à trois + Edward Sharpe and Magnetic Zeros - Om nashi me + Metallica - Whiskey in the jar + The Velvet Underground - After hours + Serge Gainsbourg - Bonnie and Clyde + Animal Collective - Lion in a coma +  Blonde Redhead - Here sometimes + Chris Isaak - Wicked games (sempre).


* Inspirado no filme Amélie Poulain (ululante e menininha - às vezes é bom lembrar que se é uma). 


** Fotos de: @ papertissue,  @ Mermaids are flying, @ Serpent Skirt, @ papelrowls, @follow the colours, "amantes da ponte neuf", Ryan Mc Ginley e Gordon Ball.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Crocodile Dundee Carioca

“As mulheres eram o que as lojas almejavam conquistar quando competiam entre si, era para elas que eram concebidas as pechinchas-armadilhas, após seduzi-las com seus displays. Eles haviam provocado nelas novos desejos, eles agora eram tentações gigantescas às quais as mulheres iriam fatalmente sucumbir, primeiro, atraídas pelas compras compatíveis com uma boa dona de casa, depois rendidas à vaidade e, finalmente, ardendo de vontade.” *

Da última vez que fui a São Paulo, acabei ficando mais tempo do que de costume, o que me permitiu, em pequena escala, observar a rotina do maravilhoso edifício Marcos. Um dia antes do meu retorno tortuoso para o balneário de San Sebástian fui ajudar a fazer as compras para a festinha de aniversário da Julia. Achei que iríamos no bom e velho Pão de Açúcar, que fica na esquina, mas, quando cheguei da rua, descobri que ela tinha planejado ir em um muito maior, e com preço mais em conta. Me veio à memória, agora, que esse dia foi realmente especial no quesito compras: estava de posse de 3 rolos de papel de parede, Dani, irmão dela, tinha um Hd externo e juntos compramos um baralho para passar a tarde jogando.
Pegamos um táxi e fomos para um shopping, o que do meu ponto de vista de carioca, mentalidade restrita zona sul, já é diferente: nunca fui em um mercado dentro de um shopping center, quer dizer, já fui em um que se chama Master, mas é no subsolo,   que é mais aceitável do que um do lado de uma loja Riachuelo.  Passado o estranhamento inicial, e depois de ter dado uma verificada nas novidades do comércio paulistano, entramos no supermercado Zaffari com seus caixas de madeira estilo bávaro-gaúcho. No primeiro momento, confesso que banquei a blasée e nem dei muito bola para a sessão de toalhas, capachos e recipientes plásticos para geladeira e microondas. O tsunami bovarista só me acometeu quando cheguei à parte das ferramentas, e pensei em frações de segundos tudo que eu precisava para: lixar, polir, aparafusar... além de pequenas furadeiras para ambidestros com dislexia motora na falangeta esquerda.
 O caso ficou sério mesmo quando cheguei à parte dos gelados e higiene. Tal qual um alpinista que conquista o monte Everest, me ajoelhei diante de uma embalagem de milho doce (de verdade, e não Jurema) semipronto para aquecimento rápido yeah. Meu entusiasmo era tanto que peguei dois e fui atrás de meus amigos para mostrar a relíquia. A Ju (ela mora lá) não deu muita bola, mas Dani (ele mora aqui) ficou tocado, eu senti. Estava decidida a prepará-los ainda naquela noite, mas, como não sou muito fiel quando se trata de compras, virei um corredor e dei de cara com várias prateleiras com toda sorte de produtos de limpeza. Rapidamente desovei os milhos (que até aquele momento eram minhas paixões) em uma gôndola, onde repousavam mini-cenouras, médias cenouras e cenouronas cortadas de diversas maneiras (origami), para poder ir ao encontro de um desodorante toque de pétala de gerânio lilás com nano cápsulas hidratantes, e um shampoo de embalagem ergonomicante eco friendly com bico dosador desenvolvido para climas tropicais úmidos (não entope e é anti frizz). Tinha me dado por satisfeita, até ver imensas pilhas de tomates pelati – “Que arte incrível a de empilhar”, pensei eu – , não resisti e liguei para casa, acordando meu pai: “Estou no lugar mais fantástico de todos os tempos! Você TEM que vir aqui ver com seus próprios olhos na sua próxima estadia garoense lírica!”, porém isso não foi suficiente como válvula de escape para tanta euforia. Tive que mandar uma mensagem para um amigo para relatar a variedade de patês para cachorro, e um e-mail para uma prima falando sobre a cascata de petit-fours na sessão de patisserie. Me arrependi de não ter levado máquina fotográfica quando passei pelos vitrais feitos com detergente. Queria também ter posado ao lado dos laticínios, só assim povo lá de casa teria acreditado em mim. Nem falo na sensação de olhos marejados ao passar em frente a uma embalagem azul de cereal matinal em formato de arroz, com umas figuras segurando uma colher dentro do prato. Não consigo me lembrar o nome, mas era ele mesmo, ali, na minha frente, feito uma miragem direto dos anos 80.
Meu tour só chegou ao fim quando adentramos o recôncavo etílico, e eu junto com meu parceiro de consumo saímos de lá abraçados a quatro países (predominância irlandesa) representados por suas cervejas. No caixa, ainda dei uma olhada por alto para conferir a lenda urbana que me chegou na adolescência, quando diziam que Kit-Kat era vendido em São Paulo, mas não vi nenhum por lá naquele dia. Com uma certa estafa jubilosa,  saímos de lá para arrumar a festinha - era necessário voltar à vida!
Esses dias mandei lembranças para o Zaffari. Perguntei como estavam aqueles produtos show e suas disposições nas prateleiras, além, é claro, do quesito empilhamento de latas, paralelismo de garrafas e congruência de iogurtes.  Me informaram que estava tudo de acordo com os padrões, o que me deixou com uma vontade enorme de voltar lá o quanto antes. Enquanto não há data marcada para o retorno, só penso em duas coisas: o programa Super Market, que passava na Band, deveria voltar, e eu tinha muito que participar! Aliás, isso eu sempre soube, porque só uma lavagem cerebral como essa na infância pode fazer pessoas ficarem tão fora de si ao entrar num supermercado. Ah, mas pensando bem, na infância tinha as caixas registradoras.... e as moças que etiquetavam os produtos de patins... Ok, supermercado sempre foi um paraíso e eu uma caipira consumista. Fim.

“Quando saíssem da loja, ele costumava dizer, suas clientes deviam estar
com as retinas esgotadas“ **

O bigode, atropelamento de cameras, amaciante para ajudar a esposa, o questionamento da Julia: porque sempre tantas ervilhas congeladas? - este programa era mágico:


* e ** - Emile Zola in Au bonheur des dames.


* Para minha amiga Julia, que me apresentou este estabelecimento. Fui muito feliz lá, graças à você.

terça-feira, 15 de março de 2011

Com vocês: Mestre Yoda

Graphics Interchange Format (Cafona)

Interchange. Gostei disso.

O primeiro Gif animado a gente nunca esquece



! _ Aplausos, por favor _ !


domingo, 13 de março de 2011

Sula Miranda feelings

Meio emo nessa vida .
Sempre quis ser caminhoneira nessa estrada.



sexta-feira, 11 de março de 2011

Fração do ser

" É que (abrindo um parêntese) Alejandro tinha vocação para compartilhar tudo: comida, leituras, ideias, sexo. Se você punha um prato na frente dele, ele insistia para que você experimentasse um pouco. Se estava mergulhado num romance, ele me chamava e lia em voz alta algum parágrafo do qual gostara. Se no meio da noite lhe ocorresse uma observação, um desatino qualquer, ele me acordava para contar. E a cama, segundo ele, não era lugar para dormir sozinho. Dizia que só os egoístas se masturbavam". MANGUEL, Alberto. Todos os homens são mentirosos (pág.86)


                                        "Don't call my name, Alejandro." - Foto: papertissue

quinta-feira, 10 de março de 2011

Extravio no DDD, ou no DDI

Era o dia 20 de fevereiro à noite, por volta de uma hora da manhã, para ser precisa. Estavamos eu e C. naquele estágio etílico quando não se tem mais nada para falar uma para outra, onde ninguém está se aguentando, a mala não está pronta, a louça não foi lavada e ninguém sabe que música toca no ipod. Já tínhamos visto todos os clipes do É o tchan, já tínhamos entrado no Chatroulette e batia uma brisa fresca oriunda da varanda. A garrafa de vinho comprada no chinês da esquina da Ayacucho, no entanto, continuava imponente mostrando que ainda faltava 1/3 para acabar. Obstinadas e filhas de funcionários públicos que somos, era nosso dever aniquilá-la custasse o que custasse.  Com a meta estabelecida, começamos o processo que foi logo interrompido por um sms no meu celular (minha amiga C. resolveu se livrar da portabilidade antes de sair do Brasil) que dizia assim:

" Ai guri, não consigo parar de pensar naquele beijo, nem sei o que te falar, até porque não sei se tu já tem outra. + isso não importa, quero que tu saiba que eu te amo d+ e nunca vou te esquecer, porque tu foi e é muito importante na minha vida! Não me esquece tá? Boa noite. Manda um beijo para o Alvaro! Te amo. Bjos da tua namorada Nathali"


Na hora achei que a mensagem era de fato para mim, por causa do gauderismo evidente, mas rapidamente vi que não tinha beijado ninguém, ainda mais uma mulher, e que não conhecia nenhum Alvaro. Li para C. que disse para eu deixar quieto, que tinha sido engano. Fiquei com dó do sms amoroso ter caído no aparelho errado e respondi à pobre moça cheia de amor para dar - na hora me veio a imagem de uma mensagem na garrafa sendo devolvida ao mar - da seguinte maneira:

" Oi, essa mensagem é bem bacana para se perder... Ela veio parar no meu cel e foi engano. Beijo e boa sorte =) "

Nathali não se conformou e achou por bem averiguar quem estava respondendo por seu amor. C. a essa altura já estava achando tudo muito estranho (coisa de taurinas), e eu que antes estava pensando no que ainda tinha que fazer antes de dormir arrumei uma grande distração.

"Como assim engano? =O Não entendi, me explica direito."

É necessário dizer que cada mensagem internacional custa 1 real, mas o que é 1 real quando se é nova e se tem essa disposição para se expor diante do outro? Dei um google no prefixo e vi que era um celular de Santa Catarina.

" Eu não sou essa pessoa. O cel ta errado, não sou guri, sou guria, não estou em Santa Catarina e nem conheço um Alvaro"

Nathali, porém, além de destemida era curiosa:

"Ai ta bem então! desculpa, mas só para saber a onde tu mora ?"

"Em Colonia de Sacramento"- mentira, estava em Buenos Aires, mas sei lá, né? melhor dizer o destino do dia seguinte.

"Olha só eu cometi um engano, é que eu não coloquei o DDD certo! Não me leve a mal tá? Foi mal mesmo.. Boa noite e desculpa =)"

Achei que era o fim do bate-papo por mensagem e disse minhas últimas palavras:

"Tudo bem =). Boa sorte com o rapaz. Tô torcendo"

Mas não foi o fim. A pobre moça estava angustiada, e assim como eu, ela também estava gostando dessa troca de mensagem com uma criatura completamente aleatória:

"Ai brigada! mas nessa situação não se trata de sorte e sim de distância. Qual é seu nome? e idade? ai desculpa é que eu sou curiosa e gostei de você! Não sei onde fica esse estado"

O vinho chileno Gato Negro (melhor preço e qualidade da vendinha) já tinha acabado fazia tempo e eu já sentia sono. C. achava tudo meio suspeito e travava uma luta com a revista Piauí. Respondi e não sei se fiz certo, porque minha experiência de vida em nada vai evitar algum sofrimento amoroso e muito menos ensinar alguma coisa para essa menina:

" Uma coisa: eu tenho 27 anos - fica a dica: tira a parte da outra e o eu te amo. É se expor demais. Agora vou dormir que isso é mensagem internacional, e Colonia fica no Uruguai. Beijo. Ps: Quem ama tem pressa, sempre! Não importa a distância (meu ex namorado mora em SP e durante um bom tempo deu certo)."

Menina Nathali não sei se gostou do que eu disse, mas achei que era necessário de alguma forma mostrar  que o caminho para quem ama daquele jeito é longo, e muitas vezes tortuoso.

" Ok. Obrigada pela dica. Boa noite ... e me desculpa qualquer coisa"

 Hoje, de volta ao Brasil, me deu vontade de mandar um SMS para ela para perguntar como foi o desfecho dessa história. De todo modo, continuo torcendo, e muito, por ela.


       Foto de: papertissue

domingo, 6 de março de 2011

Folia momesca

É carnaval e eu virei paulista, to achando que é feriado.

terça-feira, 1 de março de 2011

Carnaval e o lado pesado da força

Ano passado estava com o emocional um pouco alterado, e por isso decidi que minhas fantasias teriam a ver com o que eu havia sonhado ser no ano anterior. Diante da realidade momesca, optei por ser: Cleópatra e Melindrosa. Este ano eu estou bem alterada e loucona e por isso escolho dois personagens simbólicos quando se refere ao poder feminino: Salomé e Medusa.