Que seja doce. Que seja leve. Que seja saudável. Que seja harmonico. Que seja belo. Que seja rico.
« Le beau est toujours bizarre. Je ne veux pas dire qu'il soit volontairement, froidement bizarre, car dans ce cas il serait un monstre sorti des rails de la vie. Je dis qu'il contient toujours un peu de bizarrerie, de bizarrerie non voulue, inconsciente, et que c'est cette bizarrerie qui le fait être particulièrement le Beau. » (Charles Baudelaire)
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Balanço do ano
Em 2009 eu comecei a anotar em um caderno tudo que eu lia e assistia. Em 2010, aumentei as categorias, e comecei a anotar peças, exposições e shows no mesmo caderno e, pela primeira vez, publiquei aqui porque ficava mais fácil fazer a comparação. Este ano, por conta do cupins de janeiro, anotei em um caderno com um garrancho semi ilegível. Dei uma olhada no ano passado e o saldo é próximo: alguns livros a menos, porém os lidos em 2011 foram mais, digamos, complexos. Os shows também diminuíram, mas os filmes aumentaram e acho que as exposições também. Este ano, no entanto, descobri muitas bandas, me apaixonei por antiga paixões, e descobri também como aproveitar melhor meu tempo. O resultado final é positivo.
Música:
. Mazzy Star
. Cults
. Classes Actress
. Cass Mccombs
. The Drums
. Vivian Girls
. Metronomy
. David Lynch
. The Kills
. Nico
. CocoRosie
. Arnaldo Antunes
. The Breeders
. Death in Vegas
. Dick Dale
. Ney Matogrosso
. Elliot Smith
. Florence and The Machine
. Game and Watch
. Ultra Orange e Emmanuelle
. Nick Drake
. Nick Cave and The Badseeds
. Beirut
. Alceu Valença
. Animal Collective
. Cansei de ser sexy
. The Cinematic Orchestra
. Ramones
. Tiê
. Thiago Petit
. The Vaccines
. Velvet Underground
. The National
. Princess Chelsea
. Blonde Redhead
Livros:
. Metamorfose - Kafka
. Todos os homens são mentirosos - Alberto Manguel
. Hamlet - Shakespeare
. O médico e o monstro - R.L. Stevenson
. Na Praia - Ian McEwan
. 9 estórias - J.D Salinger
. A página assombrada por fantasmas - Antônio Xerxensky
. Afirma Pereira - Antonio Tabucchi
. Mrs. Dalloway - Virginia Woolf
. História do Cabelo - Alan Pauls
. As horas - Michael Cunnigham
. Os verbos auxiliares do coração - Péter Esterházy
. O senhor Juarroz - Gonçalo Tavares
. Amores Difíceis - Ítalo Calvino (este livro durou o ano inteiro - achei sintomático)
Filmes (DVD ou Cinema):
. Cisne Negro - Darren Aronofsky
. Você vai conhecer o homens dos seus sonhos - Woody Allen
. O ilusionista - Sylvain Chomet
. Uma noite em Paris - Woody Allen
. Bruna Surfistinha - Marcus Baldini
. Amantes da ponte Neuf - Leos Carax
. Guerra dos Botões - Yves Robert
. Os Intocáveis - Brian de Palma
. Tarde demais para esquecer - Leo McCarey
. Mary and Max - Adam Elliot
. Desejo e Reparação - Joe Wright
. Butch Cassidy - George Roy Will
. Blue Valentine - Derek Cianfrance
. Diário de uma paixão - Nick Cassavetes
. A jovem rainha Vitória - Jean- Marc Vallée
. Catfish - Henry Joost e Ariel Schulman
. Melancholia - Lars Von Trier
. Lua de fel - Roman Polanski
. Brilho de uma paixão - Jane Campion
. Toda forma de amor - Mike Mills
. Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague - Emmanuel Laurent
. O assassinato de bookmaker chinês - John Cassavetes
. Tudo acontece em Elizabethtown - Cameron Crowe
. Pacto Sinistro - Alfred Hitchcock
. A malvada - Joseph L. Mankiewicz
. Cria Corvos - Carlos Saura
. Inquietos - Gus Van Sant
. Garotos de Programa - Gus Van Sant
. Faces - John Cassavetes
. Vicky, Cristina e Barcelona - Woody Allen
. A pele que eu hábito - Almodóvar
. As canções - Eduardo Coutinho
. A mulher ao lado - Truffaut
. Rio - Carlos Saldanha
Teatro:
. Trabalhos de amores perdidos - Pedro Brício
. O vento num violino - Cláudio Tolcachir (argetino)
. O passado é um animal grotesco - Mariano Pensotti (argentino)
Exposição:
. "Lugares Estranhos e quietos" - Wim Wenders - MASP - SP
. "As aventuras da linha" - Saul Steinberg - IMS - RJ
. "Extremos" - Fotografias na coleção da Maison Européene de la Photographie - IMS - RJ
. "Queremos Miles" - Miles Davis - CCBB - RJ
. " I'm a cliché - Ecos da estética punk"- CCBB - RJ
. "Oneness" - Mariko Mori - CCBB - RJ
. "Louise Bourgeois: O retorno do desejo proibido" - Tomie Ohtake- SP
. "Em nome dos artistas" - Pavilhão da Bienal - SP
. "Índia" - CCBB - RJ
. "Manuel Alvarez Bravo: Fotopoesia" - IMS - RJ
Concertos e Óperas:
. "Metropolis" - Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
. "A meninas da nuvens" - Villa Lobos - Theatro Municipal de São Paulo
. " O Guarani " - Carlos Gomes - Teatro São Pedro (SP)
Shows:
. The National - Circo Voador
. Roxette - City Bank Hall
. Lourdes Luz - Oi Futuro
. Tom Zé - Circo Voador
. Ney Matogrosso - Circo Voador
. Kings of Convenience - Circo Voador
Viagens:
. São Paulo
. Buenos Aires
. Colonia del Sacramento
. Montevidéu
. Nova York
. Paraty
. Pernambuco
Música:
. Mazzy Star
. Cults
. Classes Actress
. Cass Mccombs
. The Drums
. Vivian Girls
. Metronomy
. David Lynch
. The Kills
. Nico
. CocoRosie
. Arnaldo Antunes
. The Breeders
. Death in Vegas
. Dick Dale
. Ney Matogrosso
. Elliot Smith
. Florence and The Machine
. Game and Watch
. Ultra Orange e Emmanuelle
. Nick Drake
. Nick Cave and The Badseeds
. Beirut
. Alceu Valença
. Animal Collective
. Cansei de ser sexy
. The Cinematic Orchestra
. Ramones
. Tiê
. Thiago Petit
. The Vaccines
. Velvet Underground
. The National
. Princess Chelsea
. Blonde Redhead
Livros:
. Metamorfose - Kafka
. Todos os homens são mentirosos - Alberto Manguel
. Hamlet - Shakespeare
. O médico e o monstro - R.L. Stevenson
. Na Praia - Ian McEwan
. 9 estórias - J.D Salinger
. A página assombrada por fantasmas - Antônio Xerxensky
. Afirma Pereira - Antonio Tabucchi
. Mrs. Dalloway - Virginia Woolf
. História do Cabelo - Alan Pauls
. As horas - Michael Cunnigham
. Os verbos auxiliares do coração - Péter Esterházy
. O senhor Juarroz - Gonçalo Tavares
. Amores Difíceis - Ítalo Calvino (este livro durou o ano inteiro - achei sintomático)
Filmes (DVD ou Cinema):
. Cisne Negro - Darren Aronofsky
. Você vai conhecer o homens dos seus sonhos - Woody Allen
. O ilusionista - Sylvain Chomet
. Uma noite em Paris - Woody Allen
. Bruna Surfistinha - Marcus Baldini
. Amantes da ponte Neuf - Leos Carax
. Guerra dos Botões - Yves Robert
. Os Intocáveis - Brian de Palma
. Tarde demais para esquecer - Leo McCarey
. Mary and Max - Adam Elliot
. Desejo e Reparação - Joe Wright
. Butch Cassidy - George Roy Will
. Blue Valentine - Derek Cianfrance
. Diário de uma paixão - Nick Cassavetes
. A jovem rainha Vitória - Jean- Marc Vallée
. Catfish - Henry Joost e Ariel Schulman
. Melancholia - Lars Von Trier
. Lua de fel - Roman Polanski
. Brilho de uma paixão - Jane Campion
. Toda forma de amor - Mike Mills
. Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague - Emmanuel Laurent
. O assassinato de bookmaker chinês - John Cassavetes
. Tudo acontece em Elizabethtown - Cameron Crowe
. Pacto Sinistro - Alfred Hitchcock
. A malvada - Joseph L. Mankiewicz
. Cria Corvos - Carlos Saura
. Inquietos - Gus Van Sant
. Garotos de Programa - Gus Van Sant
. Faces - John Cassavetes
. Vicky, Cristina e Barcelona - Woody Allen
. A pele que eu hábito - Almodóvar
. As canções - Eduardo Coutinho
. A mulher ao lado - Truffaut
. Rio - Carlos Saldanha
Teatro:
. Trabalhos de amores perdidos - Pedro Brício
. O vento num violino - Cláudio Tolcachir (argetino)
. O passado é um animal grotesco - Mariano Pensotti (argentino)
Exposição:
. "Lugares Estranhos e quietos" - Wim Wenders - MASP - SP
. "As aventuras da linha" - Saul Steinberg - IMS - RJ
. "Extremos" - Fotografias na coleção da Maison Européene de la Photographie - IMS - RJ
. "Queremos Miles" - Miles Davis - CCBB - RJ
. " I'm a cliché - Ecos da estética punk"- CCBB - RJ
. "Oneness" - Mariko Mori - CCBB - RJ
. "Louise Bourgeois: O retorno do desejo proibido" - Tomie Ohtake- SP
. "Em nome dos artistas" - Pavilhão da Bienal - SP
. "Índia" - CCBB - RJ
. "Manuel Alvarez Bravo: Fotopoesia" - IMS - RJ
Concertos e Óperas:
. "Metropolis" - Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
. "A meninas da nuvens" - Villa Lobos - Theatro Municipal de São Paulo
. " O Guarani " - Carlos Gomes - Teatro São Pedro (SP)
Shows:
. The National - Circo Voador
. Roxette - City Bank Hall
. Lourdes Luz - Oi Futuro
. Tom Zé - Circo Voador
. Ney Matogrosso - Circo Voador
. Kings of Convenience - Circo Voador
Viagens:
. São Paulo
. Buenos Aires
. Colonia del Sacramento
. Montevidéu
. Nova York
. Paraty
. Pernambuco
domingo, 25 de dezembro de 2011
sábado, 24 de dezembro de 2011
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Saindo do armário
Abri o armário procurando um vestido específico e vi um que eu usei com você. Empurrei o cabide com força para trás. Passei blusas, saias e calças e qual foi minha supresa? Outro! Este ainda com seu cheiro (sim, sou imunda). Fechei os olhos, chafurdei o rosto entre os babados e respirei fundo. Não achei o que estava procurando e comecei o processo todo de novo. Mais um vestígio de nossa história ( dessa vez, cinza) passou pelas minhas mãos. Desisti de procurar, desisti de sair, garimpei todos que, de alguma forma, ainda têm um pouco de você, joguei sobre a cama e deitei sobre eles. Essa noite vou dormir em seus braços.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Papel, fumo, comida e um pouco de uísque.
(Dois trechos de uma mesma entrevista de William Faulkner em Nova York, no início de 1956 para a revista: A arte da ficção 12)
A arte tampouco tem a ver com o ambiente; não faz diferença para ela onde estiver. Se você se refere a mim, o melhor emprego que já me ofereceram foi o do gerente de um bordel. Na minha opinião, é o meio perfeito para um artista trabalhar. Dá a ele perfeita liberdade econômica; ele se livra do medo e da fome; temum teto sobre a cabeça e nada para fazer a não ser controlar algumas contas simples e ir uma vez por mês pagar a polícia local. O lugar é tranquilo durante o dia, que é a melhor hora do dia para trabalhar. Há vida social suficiente à noite, se ele quiser participar, para evitar que ele se entendie; ele ganha certa proeminência na sua sociedade; não tem nada para fazer porque a madame cuida do livro-caixa; todos os habitantes da casa são do sexo feminino e vão obedecer a ele, chamando-o de "senhor". Todos os contrabandistas de bebida da área o chamarão de "senhor". E ele poderá chamar os policiais pelos seus primeiros nomes.
Portanto, o único meio ambiente de que o artista necessita é qualquer paz, qualquer solidão, e qualquer prazer que ele consiga obter a um preço não muito alto. Tudo o que um ambiente errado fará é aumentar sua pressão sanguínea; ele passará mais tempo sentindo-se frustrado ou ultrajado. Segundo minha própria experiência, as ferramentas de que preciso para o meu negócio são papel, fumo, comida e um pouco de uísque.
Fiquei surpreso, porque tinha esperado receber do estúdio primeiro um aviso oficial ou uma convocação e um contrato. Pensei comigo mesmo, o contrato está atrasado e chegará no próximo correio. Ao invés disso, uma semana depois recebi outra carta do agente, com o cheque do meu segundo pagamento semanal. Isso começou em novembro de 1932 e continuou até maio de 1933. Até que recebi um telegrama do estúdio. Dizia: "William Faulkner, Oxford, Miss" Onde você está? Estúdio MGM".
Respondi com outro telegrama: "Estúdio MGM, Culver City, Califórnia. William Faulkner".
A jovem operadora perguntou: "Onde está a mensagem, senhor Faulkner?". Eu disse: "É só isso". Ela continuou: O regulamento afirma que não posso enviar um telegrama sem mensagem; o senhor tem que dizer alguma coisa". Então demos uma olhada em algumas amostras, e escolhemos não me lembro qual - uma dessas mensagens enlatadas de feliz aniversário. Enviei-a"
A arte tampouco tem a ver com o ambiente; não faz diferença para ela onde estiver. Se você se refere a mim, o melhor emprego que já me ofereceram foi o do gerente de um bordel. Na minha opinião, é o meio perfeito para um artista trabalhar. Dá a ele perfeita liberdade econômica; ele se livra do medo e da fome; temum teto sobre a cabeça e nada para fazer a não ser controlar algumas contas simples e ir uma vez por mês pagar a polícia local. O lugar é tranquilo durante o dia, que é a melhor hora do dia para trabalhar. Há vida social suficiente à noite, se ele quiser participar, para evitar que ele se entendie; ele ganha certa proeminência na sua sociedade; não tem nada para fazer porque a madame cuida do livro-caixa; todos os habitantes da casa são do sexo feminino e vão obedecer a ele, chamando-o de "senhor". Todos os contrabandistas de bebida da área o chamarão de "senhor". E ele poderá chamar os policiais pelos seus primeiros nomes.
Portanto, o único meio ambiente de que o artista necessita é qualquer paz, qualquer solidão, e qualquer prazer que ele consiga obter a um preço não muito alto. Tudo o que um ambiente errado fará é aumentar sua pressão sanguínea; ele passará mais tempo sentindo-se frustrado ou ultrajado. Segundo minha própria experiência, as ferramentas de que preciso para o meu negócio são papel, fumo, comida e um pouco de uísque.
...
Respondi com outro telegrama: "Estúdio MGM, Culver City, Califórnia. William Faulkner".
A jovem operadora perguntou: "Onde está a mensagem, senhor Faulkner?". Eu disse: "É só isso". Ela continuou: O regulamento afirma que não posso enviar um telegrama sem mensagem; o senhor tem que dizer alguma coisa". Então demos uma olhada em algumas amostras, e escolhemos não me lembro qual - uma dessas mensagens enlatadas de feliz aniversário. Enviei-a"
Foto de Lisette Model
2011 não foi bissexto
Adquiri o RioCard essa semana para evitar gastos desnecessários de taxi que nesta época do ano circulam por ai com bandeira dois. Nunca tinha tido um, nem quando era carteira assinada, mas agora tenho, e por conta da aquisição voltei a andar de ônibus como nunca. Entre um ponto, um bom dia, uma boa tarde, uma entrega, um bairro, uma música, e um livro, tive tempo de sobra para repensar no ano que já termina. Não cheguei a nenhuma conclusão brilhante, e tampouco tive uma epifania, só desfiei mês a mês o que passou e percebi que, diferente dos outros anos, 2011 foi um ano de grande aprendizado individual. O que vou fazer com isso? não tenho nenhuma grande pretensão.
Fiquei com meu quarto desmontado durante 5 meses, mudei a cara dele, e foi neste ano que, pela primeira vez, coloquei um papel de parede. Foi ainda neste ano que meu banheiro que, era verde, ficou preto & branco. Foi em fevereiro que conheci um país novo, e quase perdi uma grande amizade por causa de uma foto até hoje não vista. Porém, não só não perdi, como a amiga envolvida se tornou fundamental nos meses subsequentes. Ainda no país dos outros decidi cometer meu mais duradouro facebookcídio. A sensação foi uma das mais libertadoras que já tive, e até agora questiono a decisão de ter voltado 6 meses depois. Em março decidi começar uma terapia porque precisava de uma "diarista" para me ajudar a arrumar a casa. Diferente das outras tentativas, essa me ensinou a ver dias mais ensolarados, e a acreditar (ainda não muito) que posso montar verdadeiros banquetes, ao invés de ficar comendo só as migalhas da mesa (nessa matéria fiquei de recuperação e vou fazer de novo ano que vem). O carnaval deste ano também foi em março e eu ia sair de Medusa e Salomé, mas meu velho problema visceral me atacou me deixando de cama de aplique, maquiagem e badulaques. Em 2011 não desfilei meus brilhos. Foi neste ano que mudei de email achando que assim fazia as pazes com o que passou, e foi no email antigo, através de um velho remetente, que recebi a notícia que minha vida acadêmica ganhava mais uma linha. Em maio perdi uma pessoa muito importante, mesmo que ela nunca saiba o quanto me ajudou (e a outros tantos) com o blog dela, e foi em maio também que senti muito medo e depois muita felicidade. Ah, sim, no mês das noivas não noivei, mas conheci Coney Island que é um caso de amor antigo. Em junho fiz mais uma primavera e decidi fazer uma dieta. Perdi muitos quilos entre salames, coca zero, ovo, e comprimidos suspeitos. Ganhei todos eles de volta e mais alguns uns meses mais à frente. Em julho assinei o contrato da minha empresa, me casei com outras 3 pessoas e prometemos acreditar sempre que tudo vai dar certo por mais difícil que seja. No mês 7 dei uma de criança pequena e mexi no que estava, praticamente, cicatrizado. Na hora juro que parecia uma coceira gostosa. Foi no remeillon que percebi o quão passageiro as relações são através de uma foto no facebook. "A vida segue" - para todo mundo, ufa!
Quase no final do mês minha casa ficou sem um elemento, e isso deixou todos cheios de saudades. Agosto chegou cheio de viagens, um flat, algumas feiras e muitas ideias para o trabalho novo. Foi no mês 8 que meu sistema respiratório travou, e assim ficou até novembro. E já quase em setembro me despedi muitas vezes em um mesmo fim de semana. Em um sábado à noite o que parecia ter sido rico se mostrou pobre, e no domingo pude perceber que existem histórias que só ficam boas em livros. Foi ainda no domingo, durante o almoço, que o destino mostrou que sabe ser bem divertido e no mesmo restaurante eu pude ver, sorrir, e entregar em mãos a parte da vida de outra pessoa que estava na minha. Setembro chegou com cara de ressaca, e aquela viagem de 6 horas de volta para casa ainda me assombrava. No início do mês finalizei a segunda pós, e comecei um curso de literatura inglesa entre pães de queijo e amigas queridas. Ainda na primeira quinzena ganhei um novo amigo, que passou despercebido no meio do fim de semana das despedidas, mas que tempos depois enquanto caminhávamos de volta de um café me disse "eu sei que aconteceu alguma coisa aqui, mas tá tudo bem" (ref.matéria de recuperação). De 2011 levo ele e a menina do ônibus que virou companheira de natação e assuntos nonsense, que por obra, também, do destino, despencou dentro da baia da equipe de madame V. Sem dúvida minhas melhores aquisições. Ainda nas festividade de independência, aconteceu a Bienal, um dos meus eventos favoritos, e minha empresa fez o brindes. Em setembro era oficial, eu não podia mais viver sem minha sócia, ela se tornou peça fundamental de tudo. Outubro foi um mês tranquilo, e no marasmo do cotidiano me deparei com a bagunça dos últimos meses. Depois de tudo organizado, comecei a aceitar o que eu sempre soube, mas disfarçava com fantasias e histórias mirabolantes: "Você é sozinha" eu disse para mim mesma durante 31 dias. O mundo dos solitários é mais interessante e culto, é possível rir de si mesmo, dá para ocupar bem seu tempo, mas tem horas que o silêncio é asfixiante. Eram nesses momentos sem ar que sentia a presença do que não existia, e sorria para o nada imaginando que talvez, quem sabe, estivesse de alguma forma sentado a me observar. Não estava, mas ainda me pego sorrindo de vez em quando com a lembrança desses não-momentos. Em novembro conheci Pernambuco, e me apaixonei por lá, e me reapaixonei por Alceu, e senti saudades de dançar forró. Saudade foi uma palavra muito presente neste ano. Neste mês troquei o computador e fui em uma médica que me passou uma dieta esquisita, que segundo a própria, vai me deixar equilibrada com o poder dos legumes. Foi nos 45 do segundo tempo que olhei para trás, e resolvi pequenas-grandes coisas que foram sendo deixadas ao léu. A sensação foi boa para todo mundo, acredito. Algumas supresas, algumas formas novas de pedir desculpas tanto minhas quanto dos outros.
E eis que chega dezembro coberto de luzinhas de Natal, e com ele boas notícias para pessoas próximas queridas, passarinhos, festas de comemoração, e a sensação que este ano foi alterado, loucão, mas que era necessário para que o caminho de coisas boas seja trilhado em 2012. Acho que vai dar, todavia.... vai dar sim!
Coloco aqui, e aqui, um pouco da trilha sonora desses 365 dias.
Fiquei com meu quarto desmontado durante 5 meses, mudei a cara dele, e foi neste ano que, pela primeira vez, coloquei um papel de parede. Foi ainda neste ano que meu banheiro que, era verde, ficou preto & branco. Foi em fevereiro que conheci um país novo, e quase perdi uma grande amizade por causa de uma foto até hoje não vista. Porém, não só não perdi, como a amiga envolvida se tornou fundamental nos meses subsequentes. Ainda no país dos outros decidi cometer meu mais duradouro facebookcídio. A sensação foi uma das mais libertadoras que já tive, e até agora questiono a decisão de ter voltado 6 meses depois. Em março decidi começar uma terapia porque precisava de uma "diarista" para me ajudar a arrumar a casa. Diferente das outras tentativas, essa me ensinou a ver dias mais ensolarados, e a acreditar (ainda não muito) que posso montar verdadeiros banquetes, ao invés de ficar comendo só as migalhas da mesa (nessa matéria fiquei de recuperação e vou fazer de novo ano que vem). O carnaval deste ano também foi em março e eu ia sair de Medusa e Salomé, mas meu velho problema visceral me atacou me deixando de cama de aplique, maquiagem e badulaques. Em 2011 não desfilei meus brilhos. Foi neste ano que mudei de email achando que assim fazia as pazes com o que passou, e foi no email antigo, através de um velho remetente, que recebi a notícia que minha vida acadêmica ganhava mais uma linha. Em maio perdi uma pessoa muito importante, mesmo que ela nunca saiba o quanto me ajudou (e a outros tantos) com o blog dela, e foi em maio também que senti muito medo e depois muita felicidade. Ah, sim, no mês das noivas não noivei, mas conheci Coney Island que é um caso de amor antigo. Em junho fiz mais uma primavera e decidi fazer uma dieta. Perdi muitos quilos entre salames, coca zero, ovo, e comprimidos suspeitos. Ganhei todos eles de volta e mais alguns uns meses mais à frente. Em julho assinei o contrato da minha empresa, me casei com outras 3 pessoas e prometemos acreditar sempre que tudo vai dar certo por mais difícil que seja. No mês 7 dei uma de criança pequena e mexi no que estava, praticamente, cicatrizado. Na hora juro que parecia uma coceira gostosa. Foi no remeillon que percebi o quão passageiro as relações são através de uma foto no facebook. "A vida segue" - para todo mundo, ufa!
Quase no final do mês minha casa ficou sem um elemento, e isso deixou todos cheios de saudades. Agosto chegou cheio de viagens, um flat, algumas feiras e muitas ideias para o trabalho novo. Foi no mês 8 que meu sistema respiratório travou, e assim ficou até novembro. E já quase em setembro me despedi muitas vezes em um mesmo fim de semana. Em um sábado à noite o que parecia ter sido rico se mostrou pobre, e no domingo pude perceber que existem histórias que só ficam boas em livros. Foi ainda no domingo, durante o almoço, que o destino mostrou que sabe ser bem divertido e no mesmo restaurante eu pude ver, sorrir, e entregar em mãos a parte da vida de outra pessoa que estava na minha. Setembro chegou com cara de ressaca, e aquela viagem de 6 horas de volta para casa ainda me assombrava. No início do mês finalizei a segunda pós, e comecei um curso de literatura inglesa entre pães de queijo e amigas queridas. Ainda na primeira quinzena ganhei um novo amigo, que passou despercebido no meio do fim de semana das despedidas, mas que tempos depois enquanto caminhávamos de volta de um café me disse "eu sei que aconteceu alguma coisa aqui, mas tá tudo bem" (ref.matéria de recuperação). De 2011 levo ele e a menina do ônibus que virou companheira de natação e assuntos nonsense, que por obra, também, do destino, despencou dentro da baia da equipe de madame V. Sem dúvida minhas melhores aquisições. Ainda nas festividade de independência, aconteceu a Bienal, um dos meus eventos favoritos, e minha empresa fez o brindes. Em setembro era oficial, eu não podia mais viver sem minha sócia, ela se tornou peça fundamental de tudo. Outubro foi um mês tranquilo, e no marasmo do cotidiano me deparei com a bagunça dos últimos meses. Depois de tudo organizado, comecei a aceitar o que eu sempre soube, mas disfarçava com fantasias e histórias mirabolantes: "Você é sozinha" eu disse para mim mesma durante 31 dias. O mundo dos solitários é mais interessante e culto, é possível rir de si mesmo, dá para ocupar bem seu tempo, mas tem horas que o silêncio é asfixiante. Eram nesses momentos sem ar que sentia a presença do que não existia, e sorria para o nada imaginando que talvez, quem sabe, estivesse de alguma forma sentado a me observar. Não estava, mas ainda me pego sorrindo de vez em quando com a lembrança desses não-momentos. Em novembro conheci Pernambuco, e me apaixonei por lá, e me reapaixonei por Alceu, e senti saudades de dançar forró. Saudade foi uma palavra muito presente neste ano. Neste mês troquei o computador e fui em uma médica que me passou uma dieta esquisita, que segundo a própria, vai me deixar equilibrada com o poder dos legumes. Foi nos 45 do segundo tempo que olhei para trás, e resolvi pequenas-grandes coisas que foram sendo deixadas ao léu. A sensação foi boa para todo mundo, acredito. Algumas supresas, algumas formas novas de pedir desculpas tanto minhas quanto dos outros.
E eis que chega dezembro coberto de luzinhas de Natal, e com ele boas notícias para pessoas próximas queridas, passarinhos, festas de comemoração, e a sensação que este ano foi alterado, loucão, mas que era necessário para que o caminho de coisas boas seja trilhado em 2012. Acho que vai dar, todavia.... vai dar sim!
Coloco aqui, e aqui, um pouco da trilha sonora desses 365 dias.
Foto de Joyhey
sábado, 17 de dezembro de 2011
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
O ano giro
Se eu tivesse que escolher um país homenageado em 2011 seria Portugal. Até então não tinha muita curiosidade pelos lusos tirando um fado ali, outro acolá, e o fato de minha mãe ter morado em Lisboa na infância. Este ano, no entanto, eu li "Afirma Pereira" do Tabucchi, e a história do jornalista do suplemento cultural em plena ditadura salazarista me conquistou. Foi na Flip, que Tabucchi não foi, que me emocionei com as palavras de valter hugo mae, e da mesma forma na Fliporto* com as de Gonçalo Tavares. Para finalizar, foi em 2011 que eu me apeguei a Nsra. de Fátima, e agora acho que não tem jeito: é para lá que eu quero ir no próximo ano.
O aborrecimento
Como a realidade era para o senhor Juarroz uma matéria aborrecida ele só deixava de pensar quando era mesmo imprescindível. Eis algumas situações em que era obrigado a deixar de pensar:
- quando falavam com ele muito alto;
- quando o insultavam;
- quando o empurravam;
- quando tinha de utilizar qualquer objeto útil à sua volta.
Por vezes, mesmo nas situações atrás descritas, o senhor Juarroz não saía dos seus pensamentos e por isso os outros supunham que ele:
- era surdo (porque não ouvia quando falvam com ele muito alto);
- era covarde (porque o insultavam e ele não reagia);
- era muito covarde (porque o empurravam e ele não reagia);
- era desastrado (porque pegava mal nas coisas, deixando-as cair ao chão).
No entanto, ele não era nem surdo, nem covarde, nem desastrado. Simplesmente, para o senhor Juarroz, a realidade era uma matéria que aborrecia.
O senhor Juarroz - Gonçalo Tavares
* Aqui uma entrevista com palavras semelhantes às que eu ouvi em Olinda.
O aborrecimento
Como a realidade era para o senhor Juarroz uma matéria aborrecida ele só deixava de pensar quando era mesmo imprescindível. Eis algumas situações em que era obrigado a deixar de pensar:
- quando falavam com ele muito alto;
- quando o insultavam;
- quando o empurravam;
- quando tinha de utilizar qualquer objeto útil à sua volta.
Por vezes, mesmo nas situações atrás descritas, o senhor Juarroz não saía dos seus pensamentos e por isso os outros supunham que ele:
- era surdo (porque não ouvia quando falvam com ele muito alto);
- era covarde (porque o insultavam e ele não reagia);
- era muito covarde (porque o empurravam e ele não reagia);
- era desastrado (porque pegava mal nas coisas, deixando-as cair ao chão).
No entanto, ele não era nem surdo, nem covarde, nem desastrado. Simplesmente, para o senhor Juarroz, a realidade era uma matéria que aborrecia.
O senhor Juarroz - Gonçalo Tavares
* Aqui uma entrevista com palavras semelhantes às que eu ouvi em Olinda.
Foto de: beautesauvage
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
As minhas canções
Inspirada e emocionada com o novo filme de Eduardo Coutinho ("As canções"), sai do cinema pensando qual música eu cantaria se fizesse parte do documentário. Lembrei de várias, a maioria internacionais, no campo nacional passei por Arnaldo Antunes, Caetano, Alceu Valença, Tim Maia (quase foi "Gostava tanto de você") Clube da Esquina... procurei por letras sofisticadas que sintetizassem em uma boa melodia tudo que eu já senti. Tanto esforço não adiantou. A verdade é que minha forma de amar é cafona, suburbana (ref. Miguel Pereira), e toda vez que ouço essa música uma lagriminha sempre escapole.
Como o objetivo é recordar, vou colocar também a música que ouvi, tal qual um presságio, quando encontrei pela primeira vez. É através dela que eu consigo lembrar de todo aquele dia. Talvez seja isso: eu ainda lembro demais.
Como o objetivo é recordar, vou colocar também a música que ouvi, tal qual um presságio, quando encontrei pela primeira vez. É através dela que eu consigo lembrar de todo aquele dia. Talvez seja isso: eu ainda lembro demais.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
A dieta que os não merecedores fazem
Quem vive não pode se esconder. Devagar, tudo acontece conosco. O tempo mesquinho se contrai.
Aos quatorze anos de idade, engordei; em compensação, eu esquiava bem. Gostava das calças grossas de flanela que no início raspavam as minhas coxas, às quais mais tarde me acostumei. Era como se a neve ardesse, estalasse, gemesse, igual a uma fogueira de acampamento. Miklóska, anda, vamos apága-la! Ele naõ se mexeu e, com desprezo, disse: " Que arda nela o gendarme!". A frase parecia um ser vivo, de manhã eu ainda a procurava no quarto. A mangueira estava lindamente enrolada; mangueira de incêndio comum, as pequenas alças cravejadas de diamantes e pérolas verdadeiras. Tudo isso devia ser um engano, para desviar a atenção do fogo perigoso! E desviou mesmo.
Naquele tempo, eu ria de tudo, de mim, dos rapazes, das moças, da minha mãe, do meu pai, do nabo, do pilão de cobre, da sopa de galinha, da constelação do cocheiro, do meu irmão Miklós, do trem de carga na curva, da mão que devolvia o troco, de uma perna da calça, ou melhro, de todas as partes da calça, em especial da braguilha e da barra, da gagueira do carteiro, do carimbo torto. Tudo era irresistivelmente engraçado. Ria do mar, da madrugada, da noite, da teai de aranha prateada, dos eseplhos, dos olhares, do cacho de uva, dos sutiãs, do câncer de mama, de um pedaço destruído da cerca, do mar Cáspio, da ossatura delicada de uma mão, das cartas mais sinceras, mais obscenas, encontradas numa gaveta da escrivaninha americana (e a escrita me fazia estremecer), em que meu pai se dirigia a uma dançarina da cidade de Debrecen, e dos vestígios horríveis dos meus parentes e da minha própria circulação sanguínea escura, ria do engenho amoroso e das transformações da morte.
Eu era impiedosa e tinha bom coração.
A superfície, porque o meu rosto cresceu, era feia!, e ficou irregular como um travesseirinho. Muitos não gostavam de mim porque eu deixava a todos nervosos. Mais tarde fiquei mais bonita, e esse foi o período em que fui mais atraente. (Eu não diria isso na época, por exemplo...)
Os verbos auxiliares do coração - Péter Esterházy
Foto de : beautesauvage
sábado, 10 de dezembro de 2011
Entre à noite de ontem e o dia de hoje
De manhã, com uma meta clara, sentei na cama e peguei o livro que ando enrolando para terminar. Na segunda página leio uma linda palavra: emurchecer. Levantei, fui até o espelho do armário, me olhei bem, e pude percebi que sofri a ação da palavra. Era vísivel o quanto eu emurcheci nos últimos tempos.
Os movimentos são como de pássaros, mas precisamente uma garça, a voz, porém, jorra de dentro daquele corpo magro preenchendo todos os espaços através de tangos e boleros. Um sopro de vida percorre a casa de show e sinto saudades de Buenos Aires. E sinto saudades de você.
Os movimentos são como de pássaros, mas precisamente uma garça, a voz, porém, jorra de dentro daquele corpo magro preenchendo todos os espaços através de tangos e boleros. Um sopro de vida percorre a casa de show e sinto saudades de Buenos Aires. E sinto saudades de você.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Ainda sobre a inquietude
Inquietos: um filme belo, ou todos aqueles que deixaram alguma coisa por dizer.
As I write this letter the ocean breeze feels cool in my skin . The very ocean is soon to be my grave. It tells me I will die a hero, that the safety and the honor of my country will be the reward for my sacrifice. I pray they are right. My only regret in life is never telling you how I feel. I wish I were back home, I wish I were holding your hand, I wish I were telling that I have loved you, and only you, since I was a boy, but I'm not. I see now that death is easy, it is love that is hard. As my plane dives, I will not see the face of my enemies. I will instead see your eyes, like black rocks frozen in green water. They tell us that we must scream banzai, as we plunge into our target. I will, instead, whisper your name and in death as in life I will remain forever yours.*
Hiroshi Takahashi.
Caderno similar ao comprado da marca: Jardim Branco
* Transcrição minha da carta final do filme Inquietos (Restless, 2011). Correção feita por V.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Cenas da Vida
Lucie & Simon criaram uma série de fotos que deram o nome de: Scenes of Life. Nas fotos tiradas, geralmente de grandes alturas, um olhar voyeur descortina uma certa solidão em pequenos momentos corriqueiros.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Sol e Ferro
Esses dias, logo após ter visto "Inquietos" (Restless, 2011) do Gus Van Sant, fiquei pensando sobre as tradições japonesas, tema que me interessa, talvez por ter alguns nipônicos na família. Fascinada com o fantasma Hiroshi, me lembrei do autor Yukio Mishima, que cometeu um yokoku na década de 70.
Até onde eu sei e pesquisei, Mishima era de uma família tradicional no Japão da Segunda Guerra e por motivos de saúde não pode se alistar no exército japonês. Decepcionado, seu pai o mandou estudar direito, mas Mishima, que na verdade se chamava Kimitake Hiraoka, já tinha começado sua carreira literária assinando seus livros com o pseudônimo que o fez conhecido. Ao desistir do direito, seu pai disse que só o aceitaria como escritor se ele fosse o melhor do Japão.
Com a morte de seus amigos na guerra, Mishima sentiu o peso de não ter tido uma morte digna defendendo seu país. Adotou um estilo de vida que nomeou de Sol e Ferro, cuidava do corpo obstinadamente, e mesmo casado, tinha relações homossexuais (na verdade, o culto a beleza e a descoberta do homossexualismo se deu ainda jovem, ao ver uma imagem de São Sebastião), que não escondia da sua esposa. Obcecado pela morte honrosa que não teve, em 1966 faz o filme: Yokuko or The rite of Love and Death. Quatro anos mais tarde, finalmente realizou o ritual de passagem, na frente de várias pessoas. A tradição do yokoku diz que logo após a abertura lateral no ventre, a mulher tem que cortar a cabeça para que ela não penda, e assim seja concluído todo o ritual com louvor e dignidade. Se não me engano, inicialmente ele pediu para mulher participar, mas essa declinou, o que o fez optar pelo namorado e deixar um amigo de sobreaviso, caso esse desistisse. Mishima levou sua honra e patriotismo às últimas consequências, e deixou uma série de livros bons. Gritemos Banzai!
Até onde eu sei e pesquisei, Mishima era de uma família tradicional no Japão da Segunda Guerra e por motivos de saúde não pode se alistar no exército japonês. Decepcionado, seu pai o mandou estudar direito, mas Mishima, que na verdade se chamava Kimitake Hiraoka, já tinha começado sua carreira literária assinando seus livros com o pseudônimo que o fez conhecido. Ao desistir do direito, seu pai disse que só o aceitaria como escritor se ele fosse o melhor do Japão.
Com a morte de seus amigos na guerra, Mishima sentiu o peso de não ter tido uma morte digna defendendo seu país. Adotou um estilo de vida que nomeou de Sol e Ferro, cuidava do corpo obstinadamente, e mesmo casado, tinha relações homossexuais (na verdade, o culto a beleza e a descoberta do homossexualismo se deu ainda jovem, ao ver uma imagem de São Sebastião), que não escondia da sua esposa. Obcecado pela morte honrosa que não teve, em 1966 faz o filme: Yokuko or The rite of Love and Death. Quatro anos mais tarde, finalmente realizou o ritual de passagem, na frente de várias pessoas. A tradição do yokoku diz que logo após a abertura lateral no ventre, a mulher tem que cortar a cabeça para que ela não penda, e assim seja concluído todo o ritual com louvor e dignidade. Se não me engano, inicialmente ele pediu para mulher participar, mas essa declinou, o que o fez optar pelo namorado e deixar um amigo de sobreaviso, caso esse desistisse. Mishima levou sua honra e patriotismo às últimas consequências, e deixou uma série de livros bons. Gritemos Banzai!
sábado, 3 de dezembro de 2011
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Rainha de Copas & Valete de Espadas
Quando batia o desespero, as dúvidas e incertezas. Quando não era possível encontrar uma justificativa, ou motivo, para explicar o porquê de ver você por toda parte, de empurrar o cardápio em sua direção como se estivesse ali, de procurar sua mão no ar para atravessar a rua e apontar para vitrines apagadas, busquei algum suporte que pudesse acolher um pouco da minha necessidade de acreditar nos pequenos e frágeis sins que você foi deixando pelo caminho.
Nesta busca, encontrei um oráculo virtual, onde toda noite, de banho tomado e dentes escovados, pronta para dormir e esperar a boa nova na manhã seguinte, eu escrevia em um inglês mequetrefe a pergunta: "Vai dar certo?". Escolhia o Tarot de Marseilles e o jogo Relationship. Durante anos as respostas para as 7 questões eram dúbias. Eu atribuía a falta de sucesso da minha consulta cyber-holística ao fato de minha cadeira não ser confortável, de minha coluna não ser ereta o suficiente, de meus pés não estarem calçados e, acima de tudo, da minha concentração ser precária.
Acreditando no site-guru, ou não, quando houve a chance de dar certo, não deu. A verdade, porém, é que: mesmo com pequenos e fragéis sins é possível se construir um universo de sonho que é mais forte que qualquer não declarado. Diante da realidade, que se mostrou tão dura, só me restava de banho tomado e dentes escovados, pronta para dormir e esperar a boa nova que talvez, quem sabe, surgisse na manhã seguinte, perguntar (em inglês) ao meu oráculo: "Vai ter volta?". Como se nada tivesse acontecido, escolhia o Tarot de Marseilles e o jogo Relationship. As respostas para as 7 questões permaneciam dúbias, evasivas, impassivas à ação dos fatos ocorridos. Diferente dos primórdios das consultas, eu não tinha no que, ou em quem, colocar a culpa.
Durantes os anos de consultas quase diárias, entre Imperatrizes, Papas, Torres e Rodas da Fortuna, o Tarot sempre mostrava a ação do tempo, não aquele do relógio, do calendário, do dia-a-dia coninha, mas daquele outro do qual sentimos o peso quando respiramos bem fundo. Como se um dia, tudo aquilo que em mim doia pudesse cessar, ou pelo menos parasse de latejar.
Não me lembro quando foi a última vez que recorri ao ocultismo 2.0 para tentar achar, para não dizer enxergar, sentido em situações declaradamente fracassadas, mas hoje, depois de um pileque celebrativo à tarde, meu ipod tocou "How it Ended" e o percurso de volta para casa foi permeado de reconstruções em cima da por assim dizer "pergunta". Essa noite, de banho tomado e dentes escovados, pronta para dormir e esperar a boa nova que sempre chega de algum jeito, no dia seguinte, abri o Facade, e diferente das outras vezes perguntei em bom português: "Por que acabou?". Eis que pela primeira vez nesses 5 anos obtive 7 respostas definitivas para a pergunta mais vazia já formulada:
- A carta no alto a esquerda representa como você se vê (8 de espadas): Dificuldade de lidar com a realidade. Solidão. Incapacidade de enxergar os problemas, podendo aumentá-los. Mente criativa que afugenta. Passional.
- A carta no alto a direita representa como você vê ser parceiro (O mágico- invertido): Traiçoeiro, enigmático, alto poder criativo muitas vezes desperdiçado. Uso do conhecimento, da beleza e habilidade para coisas erradas. Abuso. Conexão demasiada. Aprisionamento em si mesmo. Emoções incompatíveis.
- A carta no centro a esquerda representa como você se sente em relação ao seu parceiro (10 de paus): Alívio. Amarras. Eterna gratidão. Desenvolvimento interior. Receio, incompreensão, impulso e não reconhecimento de si.
- A carta no centro a direita representa o que se interpõe entre você e seu parceiro (Rainha de copas): A essência do ar, não deixando criar vínculos maiores. A ideia do perfeito e impossível. Incapacidade de afeto real.
- A carta no canto esquerdo representa como seu parceiro te vê (Força): Força, capacidade de reconstrução e entendimento. Vitória depois do medo. Aprisionamento, fora do controle, passional, tendenciosa para divindade e tentações. Escorregadia. Perdão.
- A carta no canto direito representa o que seu parceiro sente em relação a você (Rainha de espadas): Curiosidade persistente, mistério, fatalidade e descontrole. A chave da natureza intuitiva e lógica. Percepção e curiosidade. Confusão, decepção e dificuldade de compreensão. Insegurança. Encontro de ventos de igual potencia em sentidos contrários.
- A carta no centro representa o presente status da relação ou desafio da relação (Rei de Copas): Natureza indecisa e insegura. Poder físico e falta de coragem. O que parece inocente e casual disfarça traição e vaidade.
E, para terminar, a parte que eu mais gosto: a dificuldade de lidar com a mediocridade da história vivida e o eterno medo de ser esquecido.
Nesta busca, encontrei um oráculo virtual, onde toda noite, de banho tomado e dentes escovados, pronta para dormir e esperar a boa nova na manhã seguinte, eu escrevia em um inglês mequetrefe a pergunta: "Vai dar certo?". Escolhia o Tarot de Marseilles e o jogo Relationship. Durante anos as respostas para as 7 questões eram dúbias. Eu atribuía a falta de sucesso da minha consulta cyber-holística ao fato de minha cadeira não ser confortável, de minha coluna não ser ereta o suficiente, de meus pés não estarem calçados e, acima de tudo, da minha concentração ser precária.
Acreditando no site-guru, ou não, quando houve a chance de dar certo, não deu. A verdade, porém, é que: mesmo com pequenos e fragéis sins é possível se construir um universo de sonho que é mais forte que qualquer não declarado. Diante da realidade, que se mostrou tão dura, só me restava de banho tomado e dentes escovados, pronta para dormir e esperar a boa nova que talvez, quem sabe, surgisse na manhã seguinte, perguntar (em inglês) ao meu oráculo: "Vai ter volta?". Como se nada tivesse acontecido, escolhia o Tarot de Marseilles e o jogo Relationship. As respostas para as 7 questões permaneciam dúbias, evasivas, impassivas à ação dos fatos ocorridos. Diferente dos primórdios das consultas, eu não tinha no que, ou em quem, colocar a culpa.
Durantes os anos de consultas quase diárias, entre Imperatrizes, Papas, Torres e Rodas da Fortuna, o Tarot sempre mostrava a ação do tempo, não aquele do relógio, do calendário, do dia-a-dia coninha, mas daquele outro do qual sentimos o peso quando respiramos bem fundo. Como se um dia, tudo aquilo que em mim doia pudesse cessar, ou pelo menos parasse de latejar.
Não me lembro quando foi a última vez que recorri ao ocultismo 2.0 para tentar achar, para não dizer enxergar, sentido em situações declaradamente fracassadas, mas hoje, depois de um pileque celebrativo à tarde, meu ipod tocou "How it Ended" e o percurso de volta para casa foi permeado de reconstruções em cima da por assim dizer "pergunta". Essa noite, de banho tomado e dentes escovados, pronta para dormir e esperar a boa nova que sempre chega de algum jeito, no dia seguinte, abri o Facade, e diferente das outras vezes perguntei em bom português: "Por que acabou?". Eis que pela primeira vez nesses 5 anos obtive 7 respostas definitivas para a pergunta mais vazia já formulada:
- A carta no alto a esquerda representa como você se vê (8 de espadas): Dificuldade de lidar com a realidade. Solidão. Incapacidade de enxergar os problemas, podendo aumentá-los. Mente criativa que afugenta. Passional.
- A carta no alto a direita representa como você vê ser parceiro (O mágico- invertido): Traiçoeiro, enigmático, alto poder criativo muitas vezes desperdiçado. Uso do conhecimento, da beleza e habilidade para coisas erradas. Abuso. Conexão demasiada. Aprisionamento em si mesmo. Emoções incompatíveis.
- A carta no centro a esquerda representa como você se sente em relação ao seu parceiro (10 de paus): Alívio. Amarras. Eterna gratidão. Desenvolvimento interior. Receio, incompreensão, impulso e não reconhecimento de si.
- A carta no centro a direita representa o que se interpõe entre você e seu parceiro (Rainha de copas): A essência do ar, não deixando criar vínculos maiores. A ideia do perfeito e impossível. Incapacidade de afeto real.
- A carta no canto esquerdo representa como seu parceiro te vê (Força): Força, capacidade de reconstrução e entendimento. Vitória depois do medo. Aprisionamento, fora do controle, passional, tendenciosa para divindade e tentações. Escorregadia. Perdão.
- A carta no canto direito representa o que seu parceiro sente em relação a você (Rainha de espadas): Curiosidade persistente, mistério, fatalidade e descontrole. A chave da natureza intuitiva e lógica. Percepção e curiosidade. Confusão, decepção e dificuldade de compreensão. Insegurança. Encontro de ventos de igual potencia em sentidos contrários.
- A carta no centro representa o presente status da relação ou desafio da relação (Rei de Copas): Natureza indecisa e insegura. Poder físico e falta de coragem. O que parece inocente e casual disfarça traição e vaidade.
E, para terminar, a parte que eu mais gosto: a dificuldade de lidar com a mediocridade da história vivida e o eterno medo de ser esquecido.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Deu no jornal
Que o verão só chega para o carnaval.
(suor de futura foliã)
1. Dorothy Vallens - Sábado
2. Justine - Domingo
3. Molly Malone - Segunda
4. Ophélia - Terça
5. Medéia - Quarta
Fotos de: Hengki Koentjoro
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
À bout de souffle
A praxe manda segurar a respiração durante 40 segundos. São feitas séries como essas, repetidas vezes, até que alguém decide parar: "volte semana que vem". Dada a ordem, saímos de lá com o ar suspenso travado no peito. Serão 8 dias sem conseguir respirar, esperando o momento que o ar possa sair em uma explosão de alegria e graça. Assim seja.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Correr em companhia
My love is in a light attire
Among the appletrees
Where the gay winds do most desire
To run in companies
There, where the gay winds stay to woo
The young leaves as they pass,
My love goes slowly, bending to
Her shadow in the grass;
And where the sky's a pale blue cup
Over the laughing land,
My love goes lightly, holding up
Her dress with dainty hand
James Joyce - VII - Música de Câmara
Among the appletrees
Where the gay winds do most desire
To run in companies
There, where the gay winds stay to woo
The young leaves as they pass,
My love goes slowly, bending to
Her shadow in the grass;
And where the sky's a pale blue cup
Over the laughing land,
My love goes lightly, holding up
Her dress with dainty hand
James Joyce - VII - Música de Câmara
Foto de Beaute Sauvage
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
O décimo terceiro signo dos zodíacos
Conheci a Oficina Brennand não faz muitos dias e fiquei encantada com o lugar, com as obras, e de como ao entrar lá, entre esculturas fálicas, passáros e lagartos, a solidão fica do lado de fora.
"Solidão a sua porta" - a Francisco Brennand
Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando mais nada interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)
Quando, pelo desuso da navalha,
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
A arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo que é envolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.
Carlos Pereira - poeta recifense
(um pouco mais de Pernambuco, que mistura alegria e melancolia com sol e chuva como em poucos lugares se viu)
"Solidão a sua porta" - a Francisco Brennand
Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando mais nada interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)
Quando, pelo desuso da navalha,
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
A arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo que é envolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.
Carlos Pereira - poeta recifense
(um pouco mais de Pernambuco, que mistura alegria e melancolia com sol e chuva como em poucos lugares se viu)
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Do que se sente quando falam de janelas
Sonhei, em um domingo azul, que deixava minha janela aberta para você entrar, e você, como em uma transmissão de pensamento, entrava, um tanto hesitante, envergonhado, sem saber que tipo de recepção ia encontrar. Eu fingia indiferença com sua chegada sorrateira, e preparava um café enquanto perguntava de forma banal sobre coisas da vida. Você olhava ao redor, via que algumas coisas tinham mudado de lugar, mas que sim, era o mesmo lugar onde sempre nos encontravamos. Eu sentia a sensação boa de ter você ali perto, passado tanto tempo, com o mesmo jeito, com o mesmo cheiro, com a mesma forma engraçada de falar, mesmo que você não tivesse muito o que me dizer, o que não me incomodava, afinal, eu também não sabia nem por onde começar. Sentei na rede e fitei você com o queixo para cima tal qual um galo de briga, e você ajeitou minha franja que tinha sido cortada recentemente e me disse baixinho: "Se voltei, mulher, é porque sou louco por você". Foi então que baixei a cabeça, e pela primeira vez,em anos, aceitei nosso último silêncio, havia um pacto selado no ar. Ficamos ali, eu e você, aninhados, balançando e olhando pela janela enquanto uma brisa fresca fazia cosquinha na cortina.Quando acordei, era saudade que não cabia dentro de mim.
** Sob o efeito de "Sonhei de cara", "Quando fugias de mim", "Anunciação", "Tomara" e "La belle de jour" do Alceu Valença **
** Sob o efeito de "Sonhei de cara", "Quando fugias de mim", "Anunciação", "Tomara" e "La belle de jour" do Alceu Valença **
Foto de: Spaceskull
terça-feira, 8 de novembro de 2011
No dog knows my smell.
Coloquei no dia 20 de outubro um texto publicado no blog da Paris Review que falava sobre um amor que acontecia inicialmente através de cartas e que terminava, obviamente, com uma. Esses dias, minha grande amiga e companheira de cyber devaneios J. mandou para mim o mesmo link. Alguns dias depois ela pegou o trecho do poema de Robert Lowell que a autora do post citava e fez um postal, que eu adorei, e que me lembrou a capa do cd do Teenage Fanclub "Four thousand seven hundred and sixty-six seconds". Procurando achei o poema de origem, descobri que existe um livro só de correspondências entre ele e Elizabeth Bishop, e percebi que fazia tempo não ouvia esse cd.
Homecoming - Robert Lowell
What was is . . . since 1930; the boys in my old gang are senior partners. They start up bald like baby birds to embrace retirement. At the altar of surrender, I met you in the hour of credulity. How your misfortune came out clearly to us at twenty. At the gingerbread casino, how innocent the nights we made it on our Vesuvio martinis with no vermouth but vodka to sweeten the dry gin-- the lash across my face that night we adored . . . soon every night and all, when your sweet, amorous repetition changed. Fertility is not to the forward, or beauty to the precipitous-- things gone wrong clothe summer with gold leaf. Sometimes I catch my mind circling for you with glazed eye-- my lost love hunting your lost face. Summer to summer, the poplars sere in the glare-- it's a town for the young, they break themselves against the surf. No dog knows my smell.
Uma música refrescante do cd.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Crepe de Nutella
Mas (aqui a conversa vai adquirir um tom infinitamente mais íntimo) fala-se agora das boas relações que Solange conseguiu estabelecer com certas alunas mais atraentes que as outras, mais bonitas, melhor dotadas. Ela devaneia. Suas palavras são ouvidas muito próximo dos lábios. De repente, ela se interrompe, mal a vemos entreabrir a bolsa e, descobrindo uma coxa maravilhosa, ali, um pouco acima da cinta-liga escura... "Que é isso! Você não se drogava! - Não, mas agora, que remédio". A resposta é dada num tom de lassidão lancinante. Como que se reanimando, Solange indaga, por sua vez: "E você... como vai? Conte-me". Também aqui apareceram novatas muito bonitas. Principalmente uma. Tão meiga. "Veja só, querida". As duas se debruçam demoradamente à janela. Silêncio. UMA BOLA CAI DENTRO DA SALA. Silêncio. "Foi ela! E vem cá buscar. - Você acha? " Ambas de pé, encostadas na parede. Solange fecha os olhos, relaxa, suspira, fica imóvel. Batem na porta. A menina de há pouco entra sem dizer nada dirige-se lentamente para a bolsa, olhos nos olhos da diretora; caminha na ponta dos pés. Cai o pano. - No ato seguinte, é noite, numa ante-sala. Passaram-se algumas horas. Um médico, com sua maleta. Foi constatado o desaparecimento de uma das meninas. Tomara que não lhe tenha acontecido alguma infelicidade! Todo mundo se agita, a casa e o jardim são vasculhados de cima a baixo. A diretora, mais calma ainda que antes."Uma menina tão meiga, meio triste talvez. Meu Deus, e a avó dela, que há poucas horas estava aqui! Acabo de mandar chamá-la". O médico, desconfiado: em dois anos consecutivos, um acidente no momento da partida das alunas. No ano passado, a descoberta de um cadáver no poço. Este ano... O jardineiro, vaticinando e balindo. Tinha ido procurar no poço. "Engraçado: por ser engraçado, é que é engraçado".
* Nadja - André Breton.
* Nadja - André Breton.
Fotos de Paul Nougé - surrealista, fotógrafo, poeta, filósofo e belga.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Ocupações de amor e hashtags sentimentais
#Occupymymind
#Occupymysoul
#Occupymyworld
#Occupymyhead
#Occupymybody
#Occupymyheart
#Occupymylips
#Occupymybed
#Occupymybathtub
#Occupymydream
#Occupymyfantasy
#Occupymydesire
#Occupymycouch
#Occupymyroom
#Occupymyloft
#Occupymyfloor
#Occupymylift
#Occupymykitchen
#Occupymydinner
#Occupymylunch
#Occupymynight
#Occupymymorning
#Occupymyspirit
#Occupymyhand
#Occupymyweekend
#Occupymyneighborhood
#Occupymystreet
#OccupymyLIFE
#Occupymysoul
#Occupymyworld
#Occupymyhead
#Occupymybody
#Occupymyheart
#Occupymylips
#Occupymybed
#Occupymybathtub
#Occupymydream
#Occupymyfantasy
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#Occupymycouch
#Occupymyroom
#Occupymyloft
#Occupymyfloor
#Occupymylift
#Occupymykitchen
#Occupymydinner
#Occupymylunch
#Occupymynight
#Occupymymorning
#Occupymyspirit
#Occupymyhand
#Occupymyweekend
#Occupymyneighborhood
#Occupymystreet
#OccupymyLIFE
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
(des) Classificados
Procura-se porteiro que não abra portas.
Procura-se faxineira que não faça faxina.
Procura-se manobrista que não manobre.
Procura-se diretor que não dirija.
Procura-se fotógrafo que não fotografe.
Procura-se costureira que não costure.
Procura-se amante que não ame.
Procura-se faxineira que não faça faxina.
Procura-se manobrista que não manobre.
Procura-se diretor que não dirija.
Procura-se fotógrafo que não fotografe.
Procura-se costureira que não costure.
Procura-se amante que não ame.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Na madrugada com Saura
Todas las promesas de mi amor se irán contigo
Me olvidarás, me olvidarás
Junto a la estación yo lloraré igual que un niño
Porque te vas, porque te vas
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
O dia que encontrei John Keats
I am certain of nothing but the holiness of the Heart's affections and the truth of the Imagination
Então ficamos esperando que caiam do céu resoluções para todas as palavras não ditas que engolimos em cada refeição na ânsia de saciar o desejo real de cuspir. Se ao menos houvesse uma chance de alguns segundos surpreendentes onde se pudesse viver o que ficou pendente... Ao nos deitarmos pedimos que tudo se dissipe antes do despertar. Porém, toda vontade é em vão quando não se tem tanta coragem assim. Talvez seja por isso que durmamos tanto. Somente em sonhos nós podemos nos encontrar.
Lullaby
Em um momento de retrocesso profundo você acorda de supetão de um sonho ruim e pensa: "Queria estar em Londres". Faz as contas de quanto tempo não vai lá e conclui: "Está na hora de voltar".
Março de 2007 - Picadilly Circus
Para escutar quando a saudade aperta: http://www.youtube.com/watch?v=YdrFpPJgxC4
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Transtorno de estresse pós-traumático
O transtorno de estresse pós-traumático pode ser entendido como a perturbação psíquica decorrente e relacionada a um evento fortemente ameaçador ao próprio paciente ou sendo este apenas testemunha da tragédia. O transtorno consiste num tipo de recordação que é melhor definido como revivescência, pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivêscencia, além de recordar as imagens, o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com todo o sofrimento que ela causou originalmente. O transtorno então é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento é desencadeante também de alterações
neurofisiológicas e mentais.
A verdade é que eu não quero ir. Só de pensar que daqui a uma semana vou reviver todo o trajeto de um ano, pegar um táxi de madrugada, vagar com a minha mala por aquela rodoviária insalubre, escolher através de critérios absurdos como: conteúdo do lanche, espessura da manta ou espaço para as pernas, a companhia de ônibus que me arrastará, durante 6 horas, a um destino não desejado, sinto um aperto no peito, tenho pesadelos e não consigo controlar as lágrimas que brotam. Uma mistura de ansiedade e medo surge quando me vejo novamente lá, de manhã cedo, ante a ameaça de um nascer de sol lindo por conta da poluição baixa. Arrepios percorrem minha espinha ao pensar no táxi tocando uma música sertaneja enquanto tento disfarçar meu 's' puxado ao pronunciar nomes de ruas em um dialeto no qual não fui alfabetizada. Basta fechar os olhos, não preciso estar lá para lembrar dos passarinhos do Anhanguera que piam incessantemente às 6 da manhã. Não há beleza naquele piar uníssono, pelo contrário, há um pedido de socorro bem claro, ao menos para mim.
Minha vontade é não ir. Sim, eu tenho pavor de você, cidade de brasileiros trabalhadores solitários. Você é agressiva comigo, e eu retribuo com toda a aversão de ex-capital-balneário-mais-ao-norte-malandra que me cabe. Não gosto da "poesia concreta de suas esquinas", seu cenário é triste, seu ar é rarefeito, usar calça comprida não te faz mais respeitável, e sua cultura nipo-tupi-carcamana simplesmente não encontra eco em mim. Não sinto prazer em ficar em fila, seus taxistas são grossos, seu trânsito é exaustivo, nada acontece no meu coração quando "cruzo a Ipiranga com a São João", a não ser o terror que um noinha venha me assaltar. Suas antenas me lembram Gotham City, para todo lado que olho só vejo cemitério e, pasme, antes a chuva do que o sol que te transforma em um sertão de concreto. Lugar do feijão é em cima do arroz, vista bonita não é para viaduto, gratuito nunca teve acento agudo na letra 'i', aliás, concordância nominal existe, e por favor parem de me chamar por apelido que não dei intimidade para.
Todavia, não tenho escolha, tenho que ir. Será a quarta vez este ano, todas as outras três me senti uma intrusa, e você, grande babilônia, não fez nada para amenizar essa sensação, pelo contrário, só piorou. Sinceramente, espero que dessa vez a vontade de fugir não surja no segundo dia, gostaria até que ela não aparecesse, para ser franca. Vou em missão de paz, um pouco temerosa, bastante traumatizada, mas disposta a fazer as pazes. Em toda relação de ódio existiu de certa forma amor. Talvez seja isso, eu te amei São Paulo, e você me tratou com a indiferença que trata todos que te procuram: como só mais uma.
Para você terra da garoa, a música que me faz lembrar do seu silêncio:
** Esse texto é ficcional, não tendo a intenção de ofender ninguém e nem de ser preconceituoso. Utilizo clichês propagados no eixo RJ- SP para ilustrá-lo que não necessariamente condizem com a realidade.**
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Compartilhamento de sensações
Hoje, no blog do Paris Review, a escritora americana Phoebe Connely fala de uma história de amor. Eu que já gosto pouco, deixo aqui o início...
"F. and I were introduced by a mutual friend while I was on a visit to L.A. I was living in D.C., newly single and working at a political magazine. I had given myself a firm dating rule: no journalists. In a sleepy company town, where ethics precluded romantic liaisons with my sources, it had begun to feel as if I’d doomed myself to celibacy. F. was a writer who’d just finished his first film and was passing time as a listings editor. He was my best friend’s occasional tennis partner. “You’ll love him,” she promised, sending him a text as I shoved my bag in the backseat of her car at LAX. “I’ll have him meet us for drinks at this outdoor German place.” We hit it off instantly.
It started with a challenge. I told him that first night that I’d found Donald Antrim’s The Verificationist overly self-conscious, so he slid The Hundred Brothers into my carry-on for the red-eye back east. Antrim’s endlessly multiplying brothers and claustrophobic prose were right at home in the repetitious concourses of LAX. My perfume leaked in my suitcase during the flight, but I returned his copy anyway, with a handwritten note, reeking of the nape of my neck.
We spent the next two years courting each other with words—our own, but also those of any writer we thought might impress. We certainly weren’t the first to go this route. But like every romance, and every reading list, it felt like our own. The question “What are you reading?” became a convenient excuse to chat when we spotted each other online, to send links, to write long, complicated letters in which the subtext was always desire."
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Longos Pescoços
Dedico à mais bela criação
E ao vazio que sua perfeição deixou
É nos dias de sol que sinto sua existência
E suas mãos a me sufocar
E ao vazio que sua perfeição deixou
É nos dias de sol que sinto sua existência
E suas mãos a me sufocar
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Quando dois se tornam um
"A cama estava como Elide a deixara ao se levantar, mas do lado dele, Arturo, estava quase intacta, como se tivesse sido arrumada naquele momento. Ele se deitava de seu próprio lado, como devia, mas depois esticava uma perna para lá, onde havia ficado o calor da mulher, em seguida esticava também a outra perna, e assim pouco a pouco se deslocava todo para o lado de Elide, naquele nicho de tepidez que ainda conservava a forma do corpo dela, e afundava o rosto em seu travesseiro, em seu perfume, e adormecia"
♦ ♦ ♦
"Elide lavava os pratos, examinava a casa de cima a baixo, as coisas que o marido tinha feito, sacudindo a cabeça. Agora ele estava correndo pelas ruas escuras, entre os raros faróis, talvez já estivesse depois do gasômetro. Elide ia para cama, apagava a luz. De seu próprio lado, deitava, espichava um pé em direção ao lugar do marido, para procurar o calor dele, mas toda vez reparava que onde ela dormia era mais quente, sinal de que Arturo também havia dormido ali, e isso despertava nela uma grande ternura".
Os amores difíceis - A aventura de um esposo e de uma esposa - Italo Calvino
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Ainda da série amor eterno
Eu quero um Nicolas Cage - passional, malucão, perturbado e, acima de tudo, apaixonado. PARTE II
domingo, 9 de outubro de 2011
sábado, 8 de outubro de 2011
Espaços inocupáveis
A pior parte não é te esquecer. Essa, aquela tal maturidade, aquele senso comum que diz que um dia passa, dá conta. A pior parte é a difícil tarefa de ocupar os espaços que se abriram com a sua partida. Ao não ter você mais ocupando meus desejos, minhas fantasias, minhas músicas favoritas, meus sonhos, minhas vontades, minhas angústias, meu medo, preciso rearrumar o que ficou, o que estava escondido, o que não dei valor... Já faz tempo que não sei o que é ser eu, com toda a grandiosidade desta pequena palavra. Já faz tempo que você ocupou todos os espaços que havia dentro de mim. Na verdade, acho que não sei mais o que é viver sem ser em função do acaso. Porém, eu sei que desde que comecei a tentar alocar melhor os meus pertences, não consigo mais dormir.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Paris, Texas e suas virtudes
Secura - Medo - Abandono - Covardia - Vazio - Melancólico - Silêncio - Infertil - Árido
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Sentença
Me pego pensando em você, e fico imaginando quantos finais felizes poderiam ter acontecido.
Não sei por que não penso em quantos começos felizes poderiam ter se dado.
Final é sempre fim.
Imagem de: beautesauvage
terça-feira, 27 de setembro de 2011
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Eu prefiro a couve-flor
" How fresh, how calm, stiller than this of course, the air was in the early morning; like the flap of a wave; the kiss of a wave; chill and sharp and yet (for a girl of eighteen as she then was ) solemn, feeling as she did, standing there at the open window, that something awful was about to happen; looking at the flowers, at the trees with the smoke winding off them and the rooks rising, falling; standing and looking until Peter Walsh said, "Musing among the vegetables?" - was that it? - "I prefer men to cauliflowers" - was that it? - He must have said it at breakfast one morning when she had gone out on to the terrace - Peter Walsh. He would be back from India one of these days, June or July, she forgot which, for his letters were awfully dull; it was his sayings one remembered; his eyes, his pocket-knife, his smile, his grumpiness and, when millions of things had utterly vanished - how strange it was! - a few sayings like this about cabbages." - Mrs. Dalloway, Virginia Woolf
Gale Cabbage Head Card, 1887
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Em busca do tempo
Eu não preciso ler Proust para saber o gosto que uma madeleine tem. Já faz tempo que elas estão por toda parte, acompanhando qualquer cafezinho metido a besta.
Eu não preciso ler Proust para sentir o poder avassalador do ciúme diante de uma janela acesa. Nos dias de hoje, basta espiar algum perfil virtual que elucubrações cascateiam em nossas mentes.
Eu não preciso ler Proust para compreender que somos ambíguos, e que o lugar do homem e o da mulher pode ser trocado a qualquer momento.
Eu não preciso ler Proust para entender o que aconteceu em Sodoma e Gomorra, e os motivos que levaram Deus a destruir aquelas cidades.
Eu não preciso ler Proust para perceber que a memória se perde mesmo quando queremos retê-la.
Eu não preciso ler Proust para confirmar a grandiosidade das composições de Wagner.
Eu não preciso ler Proust para observar como amamos mais as relações do que as pessoas, e que não é raro nos encontrarmos apaixonados pelo ideia de estarmos apaixonados.
Tudo indica que eu não preciso ler Proust. E, tudo indica, que o que foi perdido não volta, pelo contrário, abre espaço para que novas memórias sejam construídas sem olhar para trás.
Eu não preciso ler Proust para sentir o poder avassalador do ciúme diante de uma janela acesa. Nos dias de hoje, basta espiar algum perfil virtual que elucubrações cascateiam em nossas mentes.
Eu não preciso ler Proust para compreender que somos ambíguos, e que o lugar do homem e o da mulher pode ser trocado a qualquer momento.
Eu não preciso ler Proust para entender o que aconteceu em Sodoma e Gomorra, e os motivos que levaram Deus a destruir aquelas cidades.
Eu não preciso ler Proust para perceber que a memória se perde mesmo quando queremos retê-la.
Eu não preciso ler Proust para confirmar a grandiosidade das composições de Wagner.
Eu não preciso ler Proust para observar como amamos mais as relações do que as pessoas, e que não é raro nos encontrarmos apaixonados pelo ideia de estarmos apaixonados.
Tudo indica que eu não preciso ler Proust. E, tudo indica, que o que foi perdido não volta, pelo contrário, abre espaço para que novas memórias sejam construídas sem olhar para trás.
Pintura de Henri Martin, A Boy with Sailboats.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Hamlets e Ofélias
Ou como interromper o destino
Ato III
Hamlet: O poder da beleza transforma a honestidade em meretriz mais depressa do que a força da honestidade faz a beleza assemelhar a ela. Antigamente isso era um paradoxo, mas no tempo atual se fez verdade. Eu te amei, um dia.
Ofélia: Realmente, senhor, cheguei a acreditar.
Hamlet: Pois não devia. A virtude não pode ser enxertada em tronco velho sem pegar seu cheiro. Eu não te amei.
Ofélia: Tanto maior o meu engano.
Ato V - Cena I
Primeiro Coveiro: Bom, deve ter sido se defendendo; não pode ser doutro jeito E aí está o nó: se eu me afogo voluntário, isso prova que há um ato; e um ato tem três galhos; que é a ação, a facção e a execução. Argo, foi uma afogação voluntária.
Segundo coveiro: Claro, mas ouve aqui, cavalheiro coveiro...
Primeiro coveiro: Com sua licença! (Mexe na poeira com o dedo). Aqui tem a água; bom. Aqui tem o homem; bom. Se o homem vai nessa água e se afoga, não interessa se quis ou não quis - ele foi. Percebeu? Agora, se a água vem até o homem e afoga ele, ele não se afoga. Argo, quem não é culpado da própria morte, não encurta a própria vida.
Ato III
Hamlet: O poder da beleza transforma a honestidade em meretriz mais depressa do que a força da honestidade faz a beleza assemelhar a ela. Antigamente isso era um paradoxo, mas no tempo atual se fez verdade. Eu te amei, um dia.
Ofélia: Realmente, senhor, cheguei a acreditar.
Hamlet: Pois não devia. A virtude não pode ser enxertada em tronco velho sem pegar seu cheiro. Eu não te amei.
Ofélia: Tanto maior o meu engano.
Ato V - Cena I
Primeiro Coveiro: Bom, deve ter sido se defendendo; não pode ser doutro jeito E aí está o nó: se eu me afogo voluntário, isso prova que há um ato; e um ato tem três galhos; que é a ação, a facção e a execução. Argo, foi uma afogação voluntária.
Segundo coveiro: Claro, mas ouve aqui, cavalheiro coveiro...
Primeiro coveiro: Com sua licença! (Mexe na poeira com o dedo). Aqui tem a água; bom. Aqui tem o homem; bom. Se o homem vai nessa água e se afoga, não interessa se quis ou não quis - ele foi. Percebeu? Agora, se a água vem até o homem e afoga ele, ele não se afoga. Argo, quem não é culpado da própria morte, não encurta a própria vida.
Foto de: beautesauvage.tumblr.com
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Santa fé no dia de amanhã
Não se cansa, me perguntam?
Enquanto houver coisas para se dizer e pessoas para ouvir.
E pessoas para falar e eu para escutar.
Não me canso de acreditar que novas histórias vão surgir.
Mesmo que o cenário feio ainda seja o mesmo.
Enquanto houver coisas para se dizer e pessoas para ouvir.
E pessoas para falar e eu para escutar.
Não me canso de acreditar que novas histórias vão surgir.
Mesmo que o cenário feio ainda seja o mesmo.
domingo, 11 de setembro de 2011
Tudo desconhece
( ainda na fase da poesia)
O ar de tua carne, ar escuro
anoitece pedra e vento.
Corre o enorme dentro de teu corpo
o ar externo
de céus atropelados. O firmamento,
incêndio de pilastras,
não está fora - rui por dentro.
Reverbera no escudo o brilho baço
do túrgido aríete
com que distância e tempo enfureces.
Teu pisar macio, dançarino,
enobrece os ventres frios,
femininos.
A tua volta tudo canta.
Tudo desconhece.
- Elefante, Francisco Alvim
O ar de tua carne, ar escuro
anoitece pedra e vento.
Corre o enorme dentro de teu corpo
o ar externo
de céus atropelados. O firmamento,
incêndio de pilastras,
não está fora - rui por dentro.
Reverbera no escudo o brilho baço
do túrgido aríete
com que distância e tempo enfureces.
Teu pisar macio, dançarino,
enobrece os ventres frios,
femininos.
A tua volta tudo canta.
Tudo desconhece.
- Elefante, Francisco Alvim
Foto de: beautesauvage.tumblr.com
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
O céu é o limite
[Ou um pouco de realidade(mimimimi) na ficção]
Provavelmente é uma necessidade humana, não sei, essa de extrairmos de toda situação que vivemos algum aprendizado. Ou pelo menos queremos acreditar que saimos melhores do que entramos, não importa em que, ou qual seja o resultado final da experiência. Essa reflexão, sinceramente, é válida, e faz bem à alma. Nada como sairmos com coisas boas de uma realidade, sobretudo quando ela nos pareceu seca e escassa. Quando nos distanciamos do vivido podemos ver claramente as arestas que nos machucaram, e que deixaram algumas cicatrizes. Por isso, talvez, o exercício de ver coisas boas às vezes seja difícil, árduo e melancólico. Em muito se assemelha a uma coleta seletiva. Joga-se tudo dentro de um latão de lixo cheio de dejeto e coisas pútridas e depois, por mais nojento que seja, coloca-se a mão dentro dele e tira-se somente o que presta, o que merece ser guardado, ou reutilizado.
Em uma conversa me perguntaram sobre meus aprendizados recentes, sobre as lições que deles extraí. Dei de ombros e disse que não tinha aprendido nada que quisesse guardar. Me deram umas sugestões, mas achei que não era nada daquilo. Fiquei pensando algum tempo, voltei para a lata de lixo e fiquei olhando lá para dentro, pensando o que eu tinha para salvar dali, e eis que catei algo pequeno, imundo, pisado e rasgado, mas com um brilho próprio. Minha capacidade de sonhar e acreditar, que é só minha, que me acompanha desde pequena, que sempre me fez colorir a realidade, e achar que com vontade tudo é possível, até que se prove ao contrário, ou se mude de ideia. Se isso é uma boa lição, não sei, mas que é algo de valor e que eu não quero perder, isso eu não tenho dúvida. Sem meus sonhos, perco minha integridade, minha personalidade, deixo de ser eu e, modéstia à parte, rapaz, eu sonho bem demais!
"... antes cair das nuvens que de um terceiro andar" - Machado de Assis
Provavelmente é uma necessidade humana, não sei, essa de extrairmos de toda situação que vivemos algum aprendizado. Ou pelo menos queremos acreditar que saimos melhores do que entramos, não importa em que, ou qual seja o resultado final da experiência. Essa reflexão, sinceramente, é válida, e faz bem à alma. Nada como sairmos com coisas boas de uma realidade, sobretudo quando ela nos pareceu seca e escassa. Quando nos distanciamos do vivido podemos ver claramente as arestas que nos machucaram, e que deixaram algumas cicatrizes. Por isso, talvez, o exercício de ver coisas boas às vezes seja difícil, árduo e melancólico. Em muito se assemelha a uma coleta seletiva. Joga-se tudo dentro de um latão de lixo cheio de dejeto e coisas pútridas e depois, por mais nojento que seja, coloca-se a mão dentro dele e tira-se somente o que presta, o que merece ser guardado, ou reutilizado.
Em uma conversa me perguntaram sobre meus aprendizados recentes, sobre as lições que deles extraí. Dei de ombros e disse que não tinha aprendido nada que quisesse guardar. Me deram umas sugestões, mas achei que não era nada daquilo. Fiquei pensando algum tempo, voltei para a lata de lixo e fiquei olhando lá para dentro, pensando o que eu tinha para salvar dali, e eis que catei algo pequeno, imundo, pisado e rasgado, mas com um brilho próprio. Minha capacidade de sonhar e acreditar, que é só minha, que me acompanha desde pequena, que sempre me fez colorir a realidade, e achar que com vontade tudo é possível, até que se prove ao contrário, ou se mude de ideia. Se isso é uma boa lição, não sei, mas que é algo de valor e que eu não quero perder, isso eu não tenho dúvida. Sem meus sonhos, perco minha integridade, minha personalidade, deixo de ser eu e, modéstia à parte, rapaz, eu sonho bem demais!
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Diálogos de um dia qualquer na vida de duas mulheres
"Há algo surpreendentemente belo em mim" - Flores Azuis (Carola Saavedra)
Condessa de Sancerre*
- Você vai embora mais uma vez?
- Vou.
- Você sempre vai embora e acaba voltando.
- Dessa vez não vou voltar, vai ser diferente.
- Até parece. Vou ficar aqui esperando seu regresso.
- Não tenho dúvida que você vai ficar ai, imóvel, nesse mesmo lugar, me esperando. Surpreendente seria se você não ficasse ai sentado... eu sempre voltei por conta própria, sempre foi fácil.
- ...
- ...
- Você não vai levar nada? Nenhuma memória? nenhuma lembrança? nenhum momento divertido?
- Não. Vou sair como entrei nessa história: sem nada. Livre. Cheia de curiosidade, e, ao mesmo tempo, vazia para construir coisas novas e, quem sabe, mais profundas.
- Por que você vai embora?
- No fundo é o que você quer. Você deveria estar feliz, estou te fazendo um favor. Estou me fazendo um favor.
- Eu não sei o que eu quero.
- Pois é. Sinceramente, acho que você não tem mais idade para isso.
- Não vai haver uma recaída nos seus planos? Um delirium tremens? Não vai sentir saudades?
- Você sabe que vou sentir muita saudade... Porém, não, a priori nada disso está nos meus planos.
- ...
- ...
- Por que você está indo embora mesmo...?
- Porque você nunca fez nenhum gesto para impedir, e nem ao menos me pediu para ficar.
Amelie**
- Eu não estou acreditando que você dormiu com um amigo meu. O que te deu?
- Vontade.
- Você não é esse tipo de pessoa, você nunca foi assim.
- Para você ver como o comportamento das pessoas pode mudar a qualquer momento.
- Eu não estou te entendendo, mas eu nunca te entendo. Você fez isso para me provocar, é isso? Só pode.
- Talvez sim.
- O que eu te fiz?
- A pergunta é: o que você não fez?
- Ok. O que eu não fiz?
- Não me tratou com dignidade.
- Quando não te tratei com dignidade?
- No dia que você faltou ao respeito com a nossa história e me tratou feito uma mulherzinha qualquer.
- Eu nunca te tratei feito uma mulherzinha qualquer.
- Ah, não? Qual é o nome que se dá a uma mulher que você come e depois não olha na cara?
- Sei lá. Que pergunta bizarra... Puta?
- Pois então, ao me reduzir a um buraco onde você meteu, me destinou a fazer você saber de todos os outros que meteram depois de você, como a boa puta na qual você me tornou.
Foto de: Beaute Sauvage
* e ** - Nomes extraídos do livro "Os crimes de amor" do Marquês de Sade (que fazia aniversário no mesmo dia que eu ♥)
sábado, 3 de setembro de 2011
O saber que só os dedos ( ou as mãos) conhecem
The Love Song of J. Alfred Prufrock - T.S Eliot
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo. -( respondo: entendi)
Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question . . .
Oh, do not ask, "What is it?"
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.
And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time
To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair--
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin--
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.
For I have known them all already, known them all:--
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all--
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all--
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
. . . . .
Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
. . . . .
And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head [grown slightly bald] brought in upon a platter,
I am no prophet--and here's no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.
And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: "I am Lazarus, come from the dead
Come back to tell you all, I shall tell you all"--
If one, settling a pillow by her head,
Should say: "That is not what I meant at all.
That is not it, at all."
And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the
floor--
And this, and so much more?--
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
"That is not it at all,
That is not what I meant, at all."
. . . . .
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse
At times, indeed, almost ridiculous--
Almost, at times, the Fool.
I grow old . . .I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.
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