segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O tempo do amor e da saúde

É o que eu espero e desejo para este novo ano.


sábado, 22 de dezembro de 2012

Ainda sobre saudade

Saudade é uma expectativa de reencontrar em algum momento.
Existe beleza na espera, e nos calendários que se constroem a dois.




quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

De supetão

Vem como uma sombra que cresce ao chegar mais perto de mim. Sem que eu perceba invade minha boca com os dedos longos e pede para eu repetir o que é dito. Eu repito. Com o indicador e o médio afundados na minha língua diz que assim não vale e pede para que eu invente. Eu invento.Colocando o anelar e o mindinho com força ordena então que eu descreva. Eu descrevo. De supetão tira todos os dedos de uma só vez , e enquanto eu engasgo com a quantidade de ar me segura pelo pescoço e pergunta em tom maroto: Tava com saudades? Tusso em resposta.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Um pedido de socorro na garrafa

Eu sempre gostei de final de ano, da luz desses últimos meses, do horário de verão, da expectativa do Natal e de escolher a roupa do ano novo. Gostava de criar lista de resoluções, de fazer um balanço do que tinha passado, e de imaginar todas as possibilidades contidas na célebre frase "que tudo se realize no ano que vai nascer".  Em 2006 meu fim de ano foi estranho, em 2008 também, e pelo visto em 2012 também será, a não ser que um milagre aconteça  ou a profecia Maia se cumpra no dia 21 de dezembro. Hoje eu tinha planejado ir a praia no finalzinho do dia, fazer uma lista de coisas que gostaria de por em prática, comprar um bíquini e, com sorte, comprar uma passagem de avião. Porém, a realidade surpreendeu os presentes na sala, o ar ficou pesado e os planos foram suspensos por tempo indeterminado. E eu que estava disposta a aprender lidar com a facilidade e o medo de perder,  a dificuldade de acreditar que sim, é possível construir histórias felizes e cultivá-las de forma real, e que não necessariamente toda mudança é um fim, me vi com uma imensa vontade de me esconder debaixo do edredon, esperando o momento que alguém me tiraria de lá sem que eu pedisse qualquer ajuda e me contasse ao pé do ouvido que simplesmente essa semana não existiu. Infelizmente ela está aí,  me pedindo mais uma vez que tire forças sabe-se lá de onde, junto com uma fé, e com uma esperança de que dias melhores virão. Essa noite, mais do que ter ido a praia à tarde, comprado um biquíni, e ter feito uma lista, eu gostaria de um colo que me trouxesse segurança, e que me dissesse até eu acreditar que tudo vai ficar bem, e que eu (nós) vou (vamos) ter a chance mais uma vez de ser plenamente feliz .

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Eu te mimo e tu me mimas

Por todos os carnavais que passaram


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Check- in

Eu sempre gostei de comédias românticas, principalmente as inglesas.
Quando eu era mais nova, meu maior medo era que meu romance fosse fazer intercâmbio. Passei somente por um momento desses, mas fui poupada de ir ao aeroporto. Achei que essa fase não voltaria mais.

Eu tenho medo de avião.

Quando meu pai viajou para fora do país a primeira vez, eu chorei como ele se estivesse a caminho de uma câmara de gás. 10 dias depois ganhei 3 fantoches: Minnie, Mickey e Pato Donald. Gostei dos presentes, mas não compensaram o estresse da semana anterior.

O GNT fez um programa que se passa dentro do aeroporto de Guarulhos, apresentado pela Astrid. Fiquei curiosa, mas ia chorar tanto que não valeria a pena. Gosto dos desembarques mais do que dos embarques.

Eu sempre como pão de queijo no aeroporto e volto para casa cheirando a perfume do Duty Free.

Eu queria buscá-lo, e não levá-lo.



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Já é primavera

Eu nem acho pepinos tão saborosos assim, todavia, é uma das minhas palavras favoritas em inglês: Cucumber - uma coisa biquinho refrescante gosmento.

Quanto mais ruídos advêm da boca mastigadora dos mortais, mais próximos nos colocamos dos porcos e de outros seres amigos do chão. Prefiro testemunhar graves e degenerescentes enfermidades a escutar as manifestações detestáveis que a mais maliciosa cavidade do corpo humano propaga quando está a trabalho, nhac, nhac, nhac.

Edificar cidades e escrever legislação são inequívocas comprovações de nossa boa educação, mas civilizar inclui o iso comedido e reservado dos caninos. Pães, carnes e ovos macerados compõem uma repugnante opereta de refeitório, amplificada pelas bochechas.

Não se conhece o perigo de um pepino até ouvir sua trituração. Não se sabe de sua sordidez até constatar que a água nele contida,  liberada na boca após a ação desmedida da gla, ajudará na liquefação da pasta encardida de verde que descerá pelo esôfago.

Devemos, no entanto, constatar que, mesmo vil, o pepino é apenas um pequeno componente de uma cena desgraçada, inevitável e cotidiana. O verdadeiro inimigo reconhece-se pela extensão da mandíbula, pela distância que mantém da mesa e pela empunhadura do garfo. Não posso ouvir, com indiferença e calma a formação do bolo alimentar promovida por duas mulheres às voltas com um cadáver insepulto.

A passagem tensa dos corpos - Carlos Brito e Mello.


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Entre linhas e definições

Bel: a garota que mais disse adeus para vivos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Presente do Pretérito

Existe uma vida atual, e existe uma vida a médio/curto prazo a ser explorada. Os últimos meses têm sido tão reais que vejo beleza nos defeitos mais banais, nas palavras malogradas, nas incompatibilidades, desafios e superações.
•
Eu segurava dois balões: um de gás hélio, cintilante, e um bonito, mas que não voava. Os dois não cabiam na minha mão, o de gás hélio eu já tinha segurado demais, se brincasse com ele eu o perderia para sempre. Um dia chegou a hora de soltar e deixá-lo voar, esse era o seu destino. Fiquei olhando ele subir e sumir em um dia sem nuvens, acho que cheguei a acenar dando um "adeus", com os olhos semicerrados por causa do sol.  Optei pelo outro, que não brilha, mas que me permite aproveitar ao máximo sua condição de balão. Tenho que vencer, no entanto, meu medo que ele possa estourar a qualquer momento. Medo e brincadeira não andam de mãos dadas.

•
Minha memória sonora é minha aliada mais traiçoeira. Hoje ouvi o remix do Beck para o Philip Glass e tive vontade de dividir com quem aproveitaria ao máximo a beleza desses 20 minutos, só que não foi possível. É engraçado como surge inesperadamente em algumas pequenas frações de minutos uma vontade de repetir algumas sensações... a da espera é uma delas.



terça-feira, 25 de setembro de 2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Os parênteses eram a minha salvação

Foi assim que passei a ir no consultório do doutor Simão (que não se chamava Simão: aquele era o apelido que escolhi para ele, pronunciando sim-não sem que ele percebesse). Eu me sentava na poltorna e tirava coisas escondidas na parede. Mentia bastante no início, depois passei a entender que as mentiras tinham importância. É um desejo, a mentira, igual aos outros, doutor Simão esclareceu. E então destruí de vez a cerca que separa da verdade.
A minha única sugestão é que você fale tudo. Até essas coisas que você põe entre parênteses, ele recomendava.
Eu ria.
Os parênteses eram a minha salvação. Um espólio que eu punha à parte para dar uma nova chance a tudo que já parecia decidido. É onde guardava o meu pai, a minha mãe e os meus irmãos.
Pelo tempo que eu vivesse, repliquei, esses vãos estariam abertos.
O risco é que eles tomem muitas importância e deixem de ser uma segunda história dentro da história, disse o doutor, que era severo com isso.
Não há duas histórias, pensei em corrigi-lo. O que digo aqui é com voz de ventríloquo. O único perigo é alguém olhar de fora e me enxergar no centro. Seria um engano.
Um bom médico ele, mas péssimo leitor, no final das contas.

A vendedora de Fósforos - Adriana Lunardi.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Justificativas & Explicações para eventuais sumiços


"Quando não conhecia a vida, eu escrevia; agora que conheço seu significado, 
não tenho mais nada a escrever " 

Oscar Wilde - Bartebly e Companhia - Enrique Vila-Matas

Toc toc toc.
Quem é?
É sua vida que chegou para te convidar a vivê-la.

Tudo de novo, tudo outra vez. Um mundo de desencontros e de poucos pontos de interseção. Um coro grego dizendo "isso não vai dar certo", e outro dizendo "aproveite". Da minha parte, um exercício áspero de engolir a diferença sem nem um gole d'água, mastigando a oportunidade que me é dada vagarosamente até que vire uma papa saborosa e deglutível.

Tudo de novo? Só que é daqui. 
Tudo outra vez? Obviamente que mora lá.

Um mundo de desencontros, uma ligaçaõ pela manhã: "Alô? Tô indo para a cidade gloriosa*, não esperava, aconteceu. Vem comigo? " Que coisa boa", respondo, e concluo dizendo: "Isso não faz sentido algum". Antes de desligar ouço uma voz tímida que diz: "Entenda: eu te acho imperdível".

Paro o que estava fazendo para processar a informação. Um tempo depois me pego vendo o mapa da cidade e dizendo: "Fulham" enquanto afirmo a minha decisão com a cabeça.


* Let England Shake - até o presente momento o álbum que eu mais ouvi este ano. The glorious land foi a música do meu ano novo na Bahia.

sábado, 11 de agosto de 2012

Nosso jeitinho - Chuva de Meteóros Perseidas

Formosa (o), não faz assim 
Carinho não é ruim 
Mulher (rapaz) que nega 
Não sabe não 
Tem uma coisa de menos 
No seu coração 
Formosa (o), não faz assim 
Carinho não é ruim 
Mulher (rapaz) que nega 
Não sabe não 
Tem uma coisa de menos 
No seu coração
A gente nasce, a gente cresce 
A gente quer amar 
Mulher (rapaz) que nega 
Nega o que não é para negar 
A gente pega, a gente entrega 
A gente quer morrer 
Ninguém tem nada de bom sem sofrer
Formosa (o) mulher (rapaz)
Formosa - Vinícius de Moraes

sábado, 4 de agosto de 2012

terça-feira, 31 de julho de 2012

Jaz em mim

Ao abrir a porta displicentemente vejo teu corpo estendido no chão da memória. Fecho a porta, abro um pouco, dou uma espiada, imóvel, passo por cima de você deixando o ângulo de baixo para cima bem obtuso para que você veja meus fundilhos.
Morreu? Espero que não.
E se tiver morrido, o que vou fazer? Não rola mais de chorar a essa altura do campeonato.
Te chuto, mando parar com a brincadeira, não tem graça nenhuma, você sempre morre, eu borro a maquiagem, digo que te amo, que é o homem da minha vida, que te espero, sinto raiva e você fica sempre com a mesma cara de parvo que teus pais te deram a me olhar, com um riso frouxo semi-débil que é sua marca registrada.
Tô cansada, anda, para com a palhaçada. Levanta, volta para ela, para outra, para quem você bem entender, já não ligo, já não faz diferença, já acabou. Eu não vou pedir mais uma vez, levanta.
Ok. Deito ao seu lado, olho para você, sussurro no teu ouvido: vai se foder, seu doente!
Nada.
A verdade, no entanto, é que fico com pena desse desfecho gelado que você se tornou, te dou a mão, que saco ter que salvar sempre essa história.
Nada.
Me levanto, cansei de ser patética. Vou embora, fecho a porta, cuspo na soleira, olho para você e concluo: "Hei, psiu, Presunto? Você não entende que virou parte do meu ser? Pois bem, saiba que você jaz em mim".

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Todo amor desse mundo

E a espera por um momento como esse.

sábado, 21 de julho de 2012

Meow

Nas férias de julho de 1992, quando eu tinha 9 anos, fui ao cinema aproximadamente quatro vezes para ver "Batman - o retorno". O fascínio, no entanto, não era pelo Cavaleiro das  Trevas, nem pelo Pinguim e muito menos pelo Christopher Walken. O que me fez voltar tantas vezes foi a Mulher Gato, seu quarto com neón (Hello there), e a roupa de vinil.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Vida

Sobre um dia após o outro:

Foram dias surreais - este é um adjetivo que neutraliza as coisas e pode ser adotado sem drama. Tudo saiu do lugar, ficou desconfortável, mudou. Dizem que é para melhor, me questiono sobre esta verdade. Quando passamos por momentos como esses a energia mina, ainda mais com o tempo frio, e nos dá vontade de se encolher. Essa tarde eu vi um filme ruim, achei que estava deprimida, pode ser, mas o filme mesmo sendo do Gus Van Sant era ruim.
Família, saúde, amor, sexo, comida, trabalho, futuro, minhas visceras não funcionam - não há onde se segurar, tudo precisa ser rearrumado. Sinto saudades de quando não vivia tanto, ou vivia dentro da minha cabeça.  A realidade é para profissionais e eu sou assumidamente amadora. Me deixem sonhar em paz, ok?

Sobre eterno retorno e fidelidade:

Recebi um cutucão. Recebi um cutucão oriundo daquele estado. Aquele, que na sexta dentro do aeroporto na cidade dos mórmons com sotaque de Nelson da Capitinga, eu disse em tom semi-desesperado: "Se é para desistir, eu me mudo, e ganho dinheiro, e me caso, e volto". Nenhum profeta é aceito em sua cidade. Ninguém cutuca ninguém nos dias atuais. Um rapaz me cutucou e me adicionou. Olhei a foto e achei bonitinho, já deveria ter aprendido que isso não se faz, que depois dá o maior trabalho voltar para a realidade, lembrar quem você é, e parar de usar esmalte. Ainda mais de lá. Porém, sou fraca, ou viciada, ou saudosista, e aceitei, e ele disse:

- Opa, posso stalkear agora
- Pode. Essa frase dá um certo medo. Por favor não faça montagens com as minhas fotos e publique em sites de tortura animal e/ou abuso de anões.
- Sou bom com montagens
- Sou boa com anões
- Tipo branca de neve?
- Não. Tipo Papai Noel de Quintino.
- Então nem tão boa com anões assim. O que você faz?
- Trabalho com design e literatura. E você?
- Sou professor de literatura na U e faço mestrado lá.
- Tenho que sair. Prazer em conhece-lo .Um beijo
- Outro beijo

Fiquei animada. Senti potencial. Saí. Exclui e bloqueei.
A verdade é que eu sou fiel.

Sobre achados dentro de livros, ou o dia que comprei um best-seller que vai me fazer chorar (A culpa é das Estrelas - John Green): 

"Enquanto a maré banhava a areia da praia, o Homem das Tulipas Holandês contemplava o oceano:
- Juntadora treplicadora envenenadora ocultadora reveladora. Repare nela, subindo e descendo, levando tudo consigo.
- O que é? - Anna perguntou.
- A água - respondeu o holandês - Bem, e as horas"
 
( Peter Van Houten, Uma aflição imperial)


domingo, 15 de julho de 2012

Por mim

Andrew Wyeth foi um pintor realista americano, apaixonado por invernos e outonos.
Andrew Wyeth pinta paisagens que eu gostaria de ver.

" I can't work completely out of my imagination. I must put my foot in a bit of truth; and then I can fly free".


    Combers

 
Open and closed

Wind from the sea

Crows

His boot

quarta-feira, 11 de julho de 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A verdade

É que ser insuportável não é uma escolha.

Foram 5 dias cantando os primeiros segundos desta música.

Entre quatro paredes de azulejo

You want the truth?
You know I'd do it all again
Left for dead, heaven is only in my head!

Espalha a substância viscosa com cheiro de frutas nas melenas. Desliga o chuveiro. Segura a embalagem de formato anatômico. Fecha os olhos. Escuta a vozinha que diz:

"And the oscar goes to...B. for the best non-story of love"

Abre os olhos. Esfrega mais um pouco o cabelo, desta vez lentamente. Olha para cima. Respira fundo. Fecha os olhos com força. Recita o discurso ensaiado:

" Essa é uma história que nunca aconteceu.
Essa é uma história que por nunca ter acontecido se tornou uma não-história.
Essa é uma não-história que chegou ao fim.
Essa é a minha história de amor.
Essa sou eu, e minha forma de amá-lo.
Esse é ele, e a sua forma de me amar.
Enquanto lembrar, eu a contarei para quem quiser ouvir.
Para que ela não se perca.
Para que ela de alguma forma exista.
Para que nossos personagens não morram.
Para que eu nunca a deixe ser esquecida.

Obrigada a todos que, de alguma forma, assistiram e torceram por um final triunfal. A verdade é que as histórias de amor são banais. Essa é só mais uma. A diferença é que nessa sou protagonista."

Abre a água. Fecha a boca, recusa as gotas quentes e salgadas misturadas com o xampu. Deixa escorrer a espuma do cabelo.


* Essa é uma homenagem aos três anos completados ontem.

domingo, 8 de julho de 2012

O silêncio dos que sentem

Muito pode ser dito sobre o nada, mas só quando ele se assemelha, ou é, vazio. Quando ainda existe algo, o melhor é não falar.
Um reencontro fraternal com 8 amigos, e dias de profunda infelicidade.
Contradição • acaso • quedas • superações • esquecimento • lembrança • finitude • risos • explosão• ambulância • fratura • veranico • acarajé • divulgação
Mudei o destino para poder mensurar o fragmento e não gostei do resultado.
Era maior do que o esperado.
Me calei.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

sábado, 30 de junho de 2012

Calendário pessoal intransponível

(para o segundo semestre que vai nascer)

Falta pouco para o ano novo.
E dói a boca do estômago
Como se fosse um resultado de exame
Por não saber o que esperar
Por não ter o diagnóstico
Da minha patologia
Que é só minha
Ou me dirás que é sua também?
Neste caso
Brindaremos ao laudo?
Sim.

"A sacred night, where we'll watch the fireworks."





terça-feira, 26 de junho de 2012

Vênus retrógrada

Vênus chegou oferecendo romance para todos os gostos. Muita gente se deu bem, com muita gente nada aconteceu, e muita gente mandou mal. Eu queria muito participar do primeiro grupo, mas tendo a achar que faço parte do fatalístico terceiro.
Em uma das minhas sessões de limpeza e arrumação mental que acontecem semanalmente ouvi: "você se defende com a palavra". Pois bem, eu não me defendo, eu perco a linha no que eu digo. Pensando nisso, e repassando todas as minhas alterações e loucuras recentes, divido aqui a experiência do que não dizer (ou fazer) em um (ou mais) encontro(s):

1) Aparente fragilidade, não precisa ter opinião para tudo.

2) Se faça um pouco de burra, a cada encontro eu indico pelo menos 2 livros, 1 disco, 3 filmes e 1 artista "que acho que você vai gostar"

3) Não conte que seu sonho de noite de núpcias é no motel Medieval da Dutra

4) Não conte que adora rodovias e sabe tudo de rota 66 porque seu sonho é passar a lua de mel lá.

5) Não precisa lembrar o fato que você já se envolveu em uma briga.

6) Também é desnecessário dizer que foi a um show de "Alex & Carla o casal mais erótico do Rio" em uma casa de show pornô ao vivo com seu ex namorado e uns amigos da escola, todos amassados dentro de um carro de test drive.

7) Não descreva seu quarto, e muito menos mostre foto no celular, quando a decoração possui santos de um lado, quadro de circo de pulgas e um painel de fotos BDSM (em frente aos santos).

8) Não, não mesmo, em hipótese alguma, diga que se apaixonou por um transformista, e que levou 3 amigos para ver um show que acabava com uma estrelinha acesa em um lugar inapropriado.

9) Seu casinho não precisa saber que você adora filme pornô, que tem um tumblr com imagens sensuais, e que troca referências de sites salientes com as amigas.

10) Não beba mais que ele.

11) Tsunami de links no mesmo email não melhora as coisas e nem te faz parecer normal, muito menos casual.

12) Uma bocona vermelha que anda, só é legal se o sujeito compartilha do mesmo fetiche.

Faz dois dias que eu me vejo fechando os olhos com força no ônibus a cada lembrança de coisa dita que me vem à cabeça . No fundo, se olharem bem para mim, eu só sou uma garota que gostaria de dividir o que acha interessante com alguém, e andar no parque de mãos dadas. Porém, para isso acontecer, começo a achar que essa pessoa será um tanto bizarra (como eu) e de bizarrice eu já me basto.
Esta semana eu tenho um encontro com direito a guardanapo antes de beber, unhas em tom claro, e brinco elegante. Entre uma garfada, com o garfo na mão direita e de preferência com o lado concâvo para cima, e outra, para quebrar o clima, vou contar logo de cara a história da paixão pelo travesti, dessa forma eu garanto mais alguns dias de neurose, algumas lágrimas de arrependimento profundo, e, claro, enriqueço a minha terapeuta.


Trilha sonora do passeio que eu ainda vislumbro:

segunda-feira, 25 de junho de 2012

My way

Eu entendo de rodovia como poucas pessoas, sei chegar em vários lugares, me localizo razoavelmente bem em cidades que não habito. Gosto de ver mapas, gosto de ver filmes que se passam em estradas, adoro viajar. Eu também entendo de carro ( meu ex-namorado era viciado no assunto), e por isso reconheço o barulho do motor de arranque, sei a potência pelo ronco que ele faz, sei que modelo é de qual marca. Sei dirigir, mas não dirijo.
De relacionamentos eu entendo também, mesmo não tendo uma vasta experiência, e posso dizer que funciona um pouco como dirigir em uma estrada e que alguns sinais são claros. É possível perceber quando se coloca o pé no freio, quando a marcha diminui, quando estamos de cinto e isso tudo não nos afeta, quando tem air-bag e o impacto é suave, e quando, em uma emergência, puxam o freio de mão e você abre o supercílio no pára-brisa.
Gostar de estrada, entender de carro e desvendar um relacionamento é um trabalho de observação, e é por isso que o pisca alerta foi ligado, porque logo ali na frente eu já sei que tem obra na pista.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Eu acredito em magia

Vi Beginners na casa de uma grande amiga, em um domingo ao mesmo tempo seco, ao mesmo tempo molhado, de novembro, no alto de Perdizes. Deitamos no futton eu, ela, meu amigo que era seu marido na época, e nossa amiga que era vizinha. Chorei eu e a amiga vizinha.
Sábado falei sobre esse filme, mas falei meio que sem querer, porque tudo estava fluindo de forma muito simples, e quando é assim, existe espaço para coisas sem critério serem ditas.
Hoje tive vontade de rever. Acho que vou fazer isso. As novas experiências sempre mudam um pouco o nosso olhar.

"Metade de nós acha que nada nunca vai dar certo,
a outra metade acredita em magia."



domingo, 17 de junho de 2012

Haikai digital

A verdade é que meu cursor ainda te ama.
Ele pousa sempre em cima do seu nome.
Ele te ama. Eu não.

domingo, 10 de junho de 2012

Domingos no Canadá

Esse clipe me lembrou as fotos de Ryan McGinley. Também me lembrou planos feitos à 4 mãos que nunca sairam da tela.

sábado, 9 de junho de 2012

Elementos corpóreos (fragmentos de uma futura confissão III)

- Como vocês se conheceram?
- Não lembro direito, foi uma noite confusa.
- Ok, mas nunca tinham se visto, foi do nada?
- Praticamente, eu só recordo de ver ele sorrindo...
- E...?
- E eu pude reparar que ele tinha os dentes da frente separados.
- Que diferença faz?
- Isso acaba comigo.
_________________________________________

Das características físicas que abalam, em ordem de importância:

Dentes separados
Cicatriz de apendicite
Veias salientes no antebraço.



sexta-feira, 1 de junho de 2012

Quase lá

To look into my eyes and tell me La la la la la la


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Shoegaezing e o amor

Uma amiga recém chegada de Nova York olhou para mim e disse: "Você é hipster. Deveria morar no Brooklyn". Contra argumentei dizendo que não era, que nem sabia direito o que era isso, que não tinha Iphone, não usava Instagram, não era aficcionada pela Apple, mas que sim, adorava o Brooklyn. Ela do alto de seus 6 anos de experiência na Grande Maçã falou que todo hipster não se diz hipster, e mostrou alguns pontos de interseção entre características minhas e as deles, como grandes armações de óculos, chegar cedo quando sai à noite, andar de bicicleta, gostar do Wes Anderson, ter um Tumblr e adorar bandas como o Animal Collective. Naquele dia me aceitei hipster, mas disse que era uma hipster meio loser, o que automaticamente me faz indie, creio.

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A paixão mais violenta que eu tive até o presente momento foi por um professor de filosofia. O que despertou todo esse amor obsessivo, não foi o fato dele estar no doutorado precocemente, muito menos o seu total domínio sobre Benjamin. O que acendeu o fogo da paixão foi a confissão que ele fez em sala de aula, sem propósito algum: "Eu adoro Sonic Youth". A partir daquela terça-feira, eu que já adorava o Sonic Youth fiz de Goo, Washing Machine e EVOL trilha sonora para um ano inteiro de amor não correspondido.

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Eu detesto a pergunta: "Qual é sua banda favorita" e também não suporto quando me indagam: "Qual é o seu filme preferido". Não tenho resposta para elas, ou melhor, não tenho essa constância. Sempre que posso saio pela tangente. Só uma coisa é certa desde os meus 15 anos - Inglaterra /Reino Unido. Dos lugares que visitei, lá é o que eu mais gosto, e isso influencia muitas coisas, tendo a achar (uma mistura de romantismo com infantilidade) que tudo que vem de lá  já vem com algum selo de qualidade, principalmente quando penso em música.

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Mês passado eu fui ao show do Mogwai duas vezes.
Mogwai é de Glasgow, assim como o Belle Sebastian, o Teenage Fun Club e o Franz Ferdinand (que tá batido, mas já foi legal), ou seja, Glasgow é uma cidade supimpa. E é mesmo.
Porém, não saí de casa para homenagear a cidade Art Nouveu. Mogwai me emociona verdadeiramente, é como entrar em um transe sonoro, é música que ao vivo não te faz pensar em nada. É muito bonito. E muito bonito é o público do Mogwai, também. Foi no show daqui, talvez um pouco no show de lá, que eu me aceitei com um gosto indie que até então eu não achava que existia.


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Shoegaezing - É olhando para os sapatos que a gente compreende o que está ao nosso redor. E assim a profecia da distorção se fez.








terça-feira, 22 de maio de 2012

Grrrr- miau

Depois da fase polvo, eis que chega a época dos felinos:










segunda-feira, 21 de maio de 2012

Missiva

Ato, ação, obsessão, entretenimento, comunicação, não sei.  Frutos de correspondências, ideias, palavras escolhidas, afetos camuflados, belas pontuações ( uma amiga uma vez disse: "Sinto tesão em vírgulas bem colocadas", todos na mesa consentiram). Meus pais se correspondem por cartas, minha mãe me escreve algumas, meu primeiro namorado fazia um jornalzinho personalizado para mim. Emma Goldman diz: "se não posso dançar não é minha revolução", eu diria que "se não posso me corresponder, então não é amor." Como se não bastasse as duas caixas abarrotadas de cartas e cartões, e dois emails coloridos por pastas de acordo com o remetente, gasto um tempo me infiltrando em mundos que não fui convidada, mas que me deram a chave. Dos autores que li, alguns adoraria que me escrevessem e me mandassem algumas palavras selecionadas em papel dobrado, por correio, afinal, estamos falando de palavras carregadas de simbolismo, e todo ritual é simbólico.

Fragmentos de três mundos distintos (para ser lido com lupa):

Robert Lowell para Elizabeth Bishop

Dearest Elizabeth B.:
I want you to know that you need never again fear my overstepping myself and stirring up confusion with you. My frenzied behavior during your visit has a history and there is one fact that I want to disengage from all its harsh frenzy. There’s one bit of the past that I would like to get off my chest and then I think all will be easy with us.
Do you remember how at the end of that long swimming and sunning Stonington day, we were talking about this and that about ourselves and you said, rather humorously yet it was truly meant, “When you write my epitaph, you must say I was the loneliest person who ever lived.” (...)

Mais aqui.

Gustave Flaubert para Mme. Anne-Justine-Caroline Flaubert

(...) Quanto a mim, assim como parti, assim voltarei, apenas com alguns cabelos a menos na cabeça e muitas paisagens a mais dentro. Isso é tudo. Quanto às minhas disposições morais, mantenho as mesmas até nova ordem. E depois, se é preciso dizer isso sobre o meu mais íntimo pensamento e sem que a palavra assuma um ar pretensioso demais, eu diria que estou velho, velho demais para ter que mudar. Já passei da idade. Quando se viveu como eu uma vida toda ítima, cheia de análises turbulentas e ímpetos contidos, quando se excitou tanto a si mesmo e se acalmou sucessivamente, e se empregou todas sua juventude a manobra a alma, como um cavaleiro faz com seu cavalo quando ele o força a galopar pelos campos, com a espora, a marchar em passos míudos, a saltar os fossos, a correr no trote e com o passo travado, apenas para se divertir e saber mais; o que quero dizer é que se não se quebra o pescoço no começo, há grandes chances de que não se quebre depois. Eu também, eu estou estabelecido, no sentido em que encontrei meu assento como centro de gravidade. Eu não pretendo que nenhum estremecimento interior possa me fazer mudar de lugar e cair por terra. O casamento seria para mim uma apostasia que me assusta. (...) Cartas exemplares - Gustave Flaubert - Ed. Imago 

 Zelda Fitzgerald para Scott

(...) Isso foi o que dissemos na doçura daquela noite imensa do Alabama, muito tempo atrás, quando você me convidou para cear, e eu nunca tinha ceado antes, até então eu só "jantava". O Genereal não estava. Fazia uma noite amena e cinza, as árvores eram penungetas á luz dos postes, os recessos obscuros do pinheiral recendiam aromas do passado e você disse que voltaria, de onde quer que estivesse. E eu falei que estaria ali, à espera. Na hora não acreditei muito nisso, mas agora acredito.
E assim foi que, anos mas tarde, pintei para você um quadro com algumas papoulas fiéis e o quadro dizia " Não importa o que houver, eu sempre o terei amado muito. É assim que me sinto a respeito de nós, novas emoções podem se sobrepor, até acidentes  podem dar outro aspecto a nossas emoções, mas este é nosso amor e nada poderá mudá-lo. Porque essa é a verdade". E eu o amo ainda.
Fui eu quem disse:
Sinto como se algo tivesse acontecido e não sei o que é.
Você disse:
- Bem. Depois sorriu. (E foi um elogio para mimporque você nunca tinha ouvido bem usado dessa forma.) Se você não sabe, eu e que não poderia saber.
E eu então falei "Acho que ninguém sabe -
E
você torceu e eu adivinhei que
Tudo iria dar certo - 
De modo que nos casamos -
E talvez tudo acabe dando certo, no fim das contas.
Há tantas casas onde eu gostaria de morar com você. Não quer ser meu - de novo - e uma vez mais -
Meu amor querido, eu o amo
Zelda
Felizes, felizes, para todo o sempre - da melhor forma que deu.
Querido Scott, Querida Zelda - As cartas de amor de Scott e Zelda Fitzgerald. Organização de Jackson R. Bryer & Cathy W. Barks - Ed. Cia das letras.
 
* Não sei porque tudo esta mini, mas sei o quanto é difícil aceitar isso quando se tem TOC.




 

domingo, 20 de maio de 2012

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Finais de semana*

I get alone without you very well
Of course, I do
Except when soft rains fall
And drip from leaves then I recall
The thrill of being sheltered
In your arms
Of course, I do
But I get alone without you very well

I've forgotten you
Just like I said I would
Of course, I have
Or maybe except when I hear your name
Someone's laugh that's just the same
I've forgotten you just like
I should

What a guy
What a fool am I
To think my aching hearth
Could keep the moon
What's in store
Should I phone once more
No, no, no, no, no
It's best that I stick to my tune

I said that I get alone
Without you very well
Of course, I do
Except perhaps in spring
But then I should never
Ever think of spring
For that would
Surely break my heart in two


Cherish - para dançar na cozinha (vida longa aos gif's)



* Meu português anda sofrendo sérios problemas, daí a mudança do título (perdoem minha falha concordância)

domingo, 13 de maio de 2012

Alguma coisa aconteceu no meu coração

Foram dois dias de muitas atividades: negócios, contatos para freelas, jantar, show e exposições (ao todo 5 em um único dia). Foi leve, foi bonito, e eu não me lembro a última vez que fui tão feliz lá. Me senti bem, me senti de certa forma parte da cidade, esqueci uma saia, e dizem que quando se esquece algo é porque não queremos ir embora. Acho que eu não queria ir embora, não. De tudo que vi, o que mais me chamou a atenção foram as fotos de German Lorca, que não conhecia até então, no Mam. Obviamente que não foi à toa, o estilo street photography com suas paisagens vazias e flagrantes urbanamente desumanos, tão bem fotografados por outros artistas queridos como: Manuel Alvarez, Walker Evans, Beatrice Abbott, André Kertész e Elliott Erwitt, sempre me agradou muito.

Deixo aqui algumas das minhas favoritas e a música que fechou o show intenso do Mogwai:







quarta-feira, 9 de maio de 2012

Trilha sonora para avião

Decolagem & aterrissagem: e a sensação maravilhosa de poder ir e vir

Duras x Polanski

"O que ela fez, ela, com seu castelo é absolutamente inconcebível, sempre para o primogênito, que, criança de cinqüenta anos, não sabe ganhar dinheiro. Ela compra chocadeiras elétricas, instalas-as no salão do térreo. Tem seiscentos pintinhos de uma vez, quarenta metros quadrados de pintinhos. Ela tinha se enganado no controledas lâmpadas de infravermelho, e nenhum pintinho consegue se alimentar. Os seiscentos pintinhos têm o bico defeituoso, que não fecha direito, todos morreram de fome, ela não irá mais recomeçar. Estive no castelo durante a eclosão dos ovoso, uma festa. Depois, é tamanho o fedor dos pintinhos mortos e da ração deles que não consigo mais comer no castelo de minha mãe sem vomitar"
- O amante, Marguerite Duras

terça-feira, 8 de maio de 2012

Alvorada

Eu queria escrever algo bem sujo, imundo e caótico. Algo que perturbasse quando relesse, que me desse algum orgulho, e que trouxesse algum alívio para a cabeça, mas não consegui.
Procurei em livros, não seria a mesma coisa, mas tem tanta gente com talento e perturbações melhores que as minhas por ai. Porém, tampouco encontrei.
Desisti.
A verdade é que os dias tem sido limpinhos.


sábado, 5 de maio de 2012

Habemus Franjan

Todo filme da nouvelle vague deveria vir com uma advertência, logo na abertura dos créditos, em letras garrafais:
Não tente repetir este corte de cabelo em casa.
Posto isso, vi dois filmes de Godard na sequência, e no atual momento ostento um ornamento piloso nouvelle-vaguiano no meio da testa. Não sei dizer se ficou bom, não tenho distanciamento crítico para tal. Porém, não tenho dúvidas que estou desevolvendo TOC, e a escova de cabelo é minha aliada.

Algumas franjas do mesmo diretor e a mulher mais bonita da época:

 Tempo de Guerra

 Alphaville

 Pierrot le Fou

Masculine Feminine

Mais um pouco de Anna Karina, aqui, e aqui em um cover do Broken Social Scene.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Saudade é coisa fina

Eu acredito que, quando a saudade chega, é porque algo mudou na maneira como vemos o passado. De alguma forma, quando sentimos saudades, focamos somente nela, e é como se todos os mal entendidos passassem.
Muita coisa se passou nesse último ano. Muita coisa vem passando.
Desde ontem, quando a temperatura esfriou, a saudade chegou e se alojou em mim. Deve ser por causa do tempo. Nos conhemos no final do verão e começamos a namorar no início do outono, fazia frio, fiquei doente, como é de praxe em abril. Quando saí hoje de casa, usando casaco mesmo com o sol lá fora, lembrei do lençol preto que eu não gostava, da manta que o acompanhava há trinta anos, do aroma chiclete do carro que eu sentia no caminho de madrugada para casa, dos passeios nos sábados de sol, dos cafés aromatizados que ele fazia para mim quando acordava, de uma cueca verde gnomo que de tão lastimável me fazia rir. Foi impossível não recordar da sanha por padarias, do muquifo do amor na Augusta, dos flippers da Liberdade. Ontem à noite, no entanto, a imagem da rodoviária gelada às 6 da manhã surgiu, e junto com ela a cena que sempre se repetia: ele parado me esperando, pronto para dizer a célebre frase: "feliz que você está aqui".
Passou. As coisas passam, mesmo que lentamente, mesmo que fracionadamente.
Não tenho vontade de voltar para aquela época, de repensar as diferenças, de rever minhas decisões... não se trata desse tipo de saudade. Tudo foi finalizado da melhor maneira possível e o baile seguiu tocando músicas diferentes. Porém, quase completando dois anos, olho para trás e vejo que fui feliz naqueles meses, não sei se plenamente feliz, mas feliz. Durante todo aquele outono guardei um pequeno pedaço de mim dentro de uma caixa forrada de veludo verde para um dia viver uma fantasia. Esse pedaço fazia falta para ele, mas eu achava que não; como a maior parte de mim era dele, parecia o suficiente. Na minha cabeça aquela  parte pequena que carregava um sopro de vida próprio poderia permanecer guardada, esperando um desfecho previamente roteirizado. E foi assim que eu vivi aqueles três meses de frio e sol.
Neste mês de maio,  vejo que os outonos passam para dar lugar a invernos e assim por diante, e que as fantasias se esvaziam, dando espaços para outras. Hoje não há pedacinho meu guardado em nenhuma caixa, e talvez seja esse o motivo da saudade: o que ficou guardado não viveu o que o resto de mim viveu, e, só agora, na minha integridade atual, ou remanejamento de espaço, percebo que durante alguns meses tive a chance de ser plenamente feliz e optei por não ser.

Essa música entra aqui a título de registro, ela me lembra aquela época: