Se Clarice Lispector e Fellini estivessem vivos, existiria ou um conto ou um filme sobre o Natal das minhas famílias. O meu amor pelo Natal é tão grande, que não sobra nada para o Ano Novo. Pois bem, lá fui eu subir a serra e me deliciar com aquela suruba gastronômica.
Dia 24, como de praxe, passei com minha família materna, família miúda e intelectual. Até horas antes da ceia todos, com seus respectivos óculos na cara, liam seus livros, seja de horoscópo chinês de 2009, de receita, de vampiro, chick lit, literatura japonesa ou crítica de arte. A ceia foi farta e fina- um bom nome de restaurante Farto & Fino- comemos, brindamos, seguramos a onda para não chorar pela ausência do meu avô. Tudo com muita elegância. Ganhamos bons presentes, e fomos dormir, todos felizes, rosados e nos amando. Família pequena é bom que traz uma segurança enorme. Sempre me lembro, em meu pensamento trágico, de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, e acho que se o mundo acabasse ali, estaria tudo bem.
Dia 25, aí, sim, entra Fellini. Natal na casa dos Nonno é igual há pelo menos 25 anos. Além de Natal é aniversário da minha tia, ou seja, animação em dose dupla. Chegamos para o almoço em família, e para variar o almoço não estava pronto, a dona da casa e aniversariante se encontrava às voltas com rabanadas e minha vó estava na sua cadeira de rodas achando alguma forma de sacanear a enfermeira. Como é bom estar em casa. Pois bem, não sei o que acontece na minha família que a grande preocupação é com minha vida sexual, não é só minha, mas a minha e das minhas primas. Somos 7 que temos que passar por um paredão, para saber por que a "pixirica da vovó" não tem dono. Sinceramente não sei o que é pior, se é encarar o coro mudo familiar cantando: vai pra titia, vai pra titia, ou se é levar o pretendente para encarar os narizes. Já estive no outro lado ( infelizmente esse ano era eu e mais duas solteiras, só que elas são bem mais novas), e o questionário é sempre o mesmo: "Você é católico?" "não?!!!" "Vai se converter né??!!" "Trabalha?" "Como é sua família?" "Seus pais são separados?" "menor de idade?" não tem irmãos??" "gente estranha, não adianta, é difícil arranjar gente como a gente".... é verdade parentes... dificílimo! Dessa parte fui poupada, mas o coro crescia e todos perguntavam: "Tá sem namorado?" " por que?" "nenhum amigo do amigo?" "mas você é muito exigente!!!" "Isabel, não sabe dar mole por isso tá sozinha.." Cansada e apetitosa, me satisfiz com as rabanadas salgadas (sim na minha casa a bichinha vem com sardinha dentro e é uma delícia), antes de dizer que tudo bem, pelo menos sou empregada e pós graduada. Fim. O que mais podia dizer?! Disse isso com a boca cheia, gesticulando bastante e todos olharam e pensaram: vai pra titia, vai pra titia...
O almoço foi servido. Aguardo ansiosa a chegada do Chester, minha ave favorita, que nunca vi viva! Comi aquilo, com farofa, arroz, fio de ovos, salpicão e arrematei com pavê. Só posso concluir que em dezembro o corpo humano produz uma quantidade extra de bile, porque em qualquer outra época do ano estaria verde no segundo item. Enquanto isso, meus 6 tios, abordavam os temas clássicos: Religião, funcionarismo público (um viva a Minerva), sexo e comida. Minha primas sentadas na mesa das eternas crianças, falavam com seus namorados e eu, sonolenta, fui dormir, entre umas bonecas e papel de presente, que não sei porque todos guardam e nunca usam. Acordei e fui fazer o habitual: catar os salgadinhos do aniversário. Aniversário em Miguel Pereira tem disputa de salgadinho, bolo da Nelly e parabéns da Xuxa, que toca no mínimo 3 vezes, seguido do clássico: A chuva cai, a rua inunda, ô Maria Arlete eu vim comer seu bolo.
Com estafa pancreática, catei meus presentes: uma toalha, uma muda de árvore, um chaveiro e uma garrafa de vinho canônico e fui para casa. Feliz da vida. Como é bom Natal e como eu amo minha família, por mais bizarra que ela seja, ou não. Afinal, para eles eu é que sou quase um ET.
Uma pequena observação.
Voltei de ônibus, e sempre me pergunto: Por que as pessoas levantam antes do ônibus parar?
« Le beau est toujours bizarre. Je ne veux pas dire qu'il soit volontairement, froidement bizarre, car dans ce cas il serait un monstre sorti des rails de la vie. Je dis qu'il contient toujours un peu de bizarrerie, de bizarrerie non voulue, inconsciente, et que c'est cette bizarrerie qui le fait être particulièrement le Beau. » (Charles Baudelaire)
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Balanço vai e vem

2008
Não posso dizer que esse ano foi ruim, mas ele foi além do limites da palavra curioso. Geralmente, quando o ano termina, as pessoas olham e dizem: Este ano passou rápido demais! Este ano não passou rápido para mim. Para não ser totalmente do contra, novembro voou. Vou recapitular alguns momentos interessantes. Abri o ano com um momento Guerra nas Estrelas, arrumei confusão na boate. Na verdade não arrumei, arrumaram e eu fui tentar consertar, e ganhei uns arranhões, quebrei uma garrafa, mas no fim acho que o saldo dos sopapos foi até positivo. Passado o momento da euforia pitbull, entrei em uma tristeza profunda, e tal como o Luke Skywalker me senti indo para o dark side of the force. Deixei de achar essas baboseiras, e meu sabre de luz continua verdinho.
Após o incidente da boate, veio a alegria da foliã. Achei que esse carnaval eu ia pirar o cabeção, ia para os blocos, esmigalhar corações e bocas. Comprei fantasia, serpentina, purpurina e tudo mais... saí em um bloco, e cheguei à conclusão que essa não era a minha, passei o resto do carnaval comendo feijoada com os amigos. É válido ressaltar que até o presente momento gostava de um rapaz que não estava nem aí para mim, e que arranjou uma namorada pouco ortodoxa. Minha única relação com ele era um joguinho na internet, que não queria dizer muita coisa, mas eu achava que podia decifrar os desejos mais obscuros através de uns socos cibernéticos. Meu romance por ele acabou no dia que o encontrei e eu tinha nas mãos um saquito de cocô de cachorro. Não há romance que sobreviva a tal imagem.
Por falar em saquito de cocô, minha cachorra teve que operar e esta parte foi bem chata. Mas ela ficou bem e eu entrei para pós Graduação o que me fez bem feliz, porque precisava preencher meus dias e ir para Barra preenche a paciência de qualquer humano. Minha rotina nessa época era bem agradável: acordava, ia para o francês, tomava café na Puc, ia malhar, ficava em casa mondrongando no computador e ia para pós. Estava tudo muito bom e muito bem até que resolvi que todos os meus problemas existiam por que eu não tinha um emprego, e que o Brasil só iria para frente se Isabelzinha estivesse com sua carteirita assinada. Neste momento conturbado, Eros apontou sua lança e me fez gostar de quem não gosta de mim. Agora vejo que este ano foi da internet. Comecei uma troca incessante de e-mails, e por um momento achei que tinha encontrado o " the one", mas o "the one" tinha "another one", e todo esse amor se cristalizou. No entanto, parei na do sujeito e tive durante 10 meses desse ano vontade de cantar: Não dá para esconder o que eu sinto por você arará! As coisas não sairam do jeito que eu queria, mas a situação mudou e agora estamos em uma hierarquia gostosinha, gostosinha.
Este ano, fui a FLIP e descobri que lá é legal, fui a bons shows e fiz boas amizades. Tirei carteira de trabalho, abri previdência privada e fiz seguro de vida, ou seja, o sistema me consumiu e eu sorri para ele. Além disso, arranjei um emprego legal, onde saio feliz por estar empregada e por trabalhar com as pessoas com quem trabalho, mas profundamente infeliz culturalmente. Ok, não se pode querer tudo, é meu primeiro emprego sério e não da para cantar de galo. Tive oportunidades de encontrar amigos antigos, resolver algumas questões na minha cabeça e estreitar alguns laços de amizade. Este ano foi o ano do desabafo, do conselho amoroso e do Sonic Youth. Como eu ouvi essa banda, e como cada música me fazia me sentir viva e expressava exatamente aquilo que eu estava sentindo.
Tive um susto no fim do ano, que me mostrou que a vida é muito sutil e rápida. Na verdade tive uma prova disso em Setembro, quando meu avô foi pilotar literalmente no céu, Rolfito se foi e a saudade dilacera. Mas de todo susto sai uma lição, e por mais que eu odeie muita vezes passar por essa lições de vida, não me canso de aprender. E que 2009 venha, cheia de energias boas, novos sonhos, novos amores, novos cursos e que aos poucos a calma chegue ano após ano, trazendo a sensação boa de estar fazendo a coisa certa.
Agradeço este 2008 a algumas pessoas que ocuparam lugar de destaque : Vivian, Inácio, Zezé, Nessie, Bert, Helô, Cris, Rafael, Karina, Pedro A., Beta, Bernardo, Pedro Ariel, Andrea, Viviany, Luisa, Gabriela, Antonio, Flavia, Maria, Clara M., Clarisse, Júlia, Patricia, Felipe A., Cla, Daniela, Felipe, Guilherme F., Daniel, Guilherme, Clara, Lucas, Eugenia, Lucas T.,Mari, Pedro S, João e Rolf.
" Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do seu gesto.
Chega um dia em que a lenha já não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.
Força é saber amar doce e constantes
com o encanto de rosa alta na haste,
para que o amor ferido não se acabe
na eternidade amarga de um instante".
- A APRENDIZAGEM AMARGA- Thiago de Mello
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