Eu sempre gostei de final de ano, da luz desses últimos meses, do horário de verão, da expectativa do Natal e de escolher a roupa do ano novo. Gostava de criar lista de resoluções, de fazer um balanço do que tinha passado, e de imaginar todas as possibilidades contidas na célebre frase "que tudo se realize no ano que vai nascer". Em 2006 meu fim de ano foi estranho, em 2008 também, e pelo visto em 2012 também será, a não ser que um milagre aconteça ou a profecia Maia se cumpra no dia 21 de dezembro. Hoje eu tinha planejado ir a praia no finalzinho do dia, fazer uma lista de coisas que gostaria de por em prática, comprar um bíquini e, com sorte, comprar uma passagem de avião. Porém, a realidade surpreendeu os presentes na sala, o ar ficou pesado e os planos foram suspensos por tempo indeterminado. E eu que estava disposta a aprender lidar com a facilidade e o medo de perder, a dificuldade de acreditar que sim, é possível construir histórias felizes e cultivá-las de forma real, e que não necessariamente toda mudança é um fim, me vi com uma imensa vontade de me esconder debaixo do edredon, esperando o momento que alguém me tiraria de lá sem que eu pedisse qualquer ajuda e me contasse ao pé do ouvido que simplesmente essa semana não existiu. Infelizmente ela está aí, me pedindo mais uma vez que tire forças sabe-se lá de onde, junto com uma fé, e com uma esperança de que dias melhores virão. Essa noite, mais do que ter ido a praia à tarde, comprado um biquíni, e ter feito uma lista, eu gostaria de um colo que me trouxesse segurança, e que me dissesse até eu acreditar que tudo vai ficar bem, e que eu (nós) vou (vamos) ter a chance mais uma vez de ser plenamente feliz .
« Le beau est toujours bizarre. Je ne veux pas dire qu'il soit volontairement, froidement bizarre, car dans ce cas il serait un monstre sorti des rails de la vie. Je dis qu'il contient toujours un peu de bizarrerie, de bizarrerie non voulue, inconsciente, et que c'est cette bizarrerie qui le fait être particulièrement le Beau. » (Charles Baudelaire)
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Check- in
Eu sempre gostei de comédias românticas, principalmente as inglesas.
Quando eu era mais nova, meu maior medo era que meu romance fosse fazer intercâmbio. Passei somente por um momento desses, mas fui poupada de ir ao aeroporto. Achei que essa fase não voltaria mais.
Eu tenho medo de avião.
Quando meu pai viajou para fora do país a primeira vez, eu chorei como ele se estivesse a caminho de uma câmara de gás. 10 dias depois ganhei 3 fantoches: Minnie, Mickey e Pato Donald. Gostei dos presentes, mas não compensaram o estresse da semana anterior.
O GNT fez um programa que se passa dentro do aeroporto de Guarulhos, apresentado pela Astrid. Fiquei curiosa, mas ia chorar tanto que não valeria a pena. Gosto dos desembarques mais do que dos embarques.
Eu sempre como pão de queijo no aeroporto e volto para casa cheirando a perfume do Duty Free.
Eu queria buscá-lo, e não levá-lo.
Quando eu era mais nova, meu maior medo era que meu romance fosse fazer intercâmbio. Passei somente por um momento desses, mas fui poupada de ir ao aeroporto. Achei que essa fase não voltaria mais.
Eu tenho medo de avião.
Quando meu pai viajou para fora do país a primeira vez, eu chorei como ele se estivesse a caminho de uma câmara de gás. 10 dias depois ganhei 3 fantoches: Minnie, Mickey e Pato Donald. Gostei dos presentes, mas não compensaram o estresse da semana anterior.
O GNT fez um programa que se passa dentro do aeroporto de Guarulhos, apresentado pela Astrid. Fiquei curiosa, mas ia chorar tanto que não valeria a pena. Gosto dos desembarques mais do que dos embarques.
Eu sempre como pão de queijo no aeroporto e volto para casa cheirando a perfume do Duty Free.
Eu queria buscá-lo, e não levá-lo.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Já é primavera
Eu nem acho pepinos tão saborosos assim, todavia, é uma das minhas palavras favoritas em inglês: Cucumber - uma coisa biquinho refrescante gosmento.
Quanto mais ruídos advêm da boca mastigadora dos mortais, mais próximos nos colocamos dos porcos e de outros seres amigos do chão. Prefiro testemunhar graves e degenerescentes enfermidades a escutar as manifestações detestáveis que a mais maliciosa cavidade do corpo humano propaga quando está a trabalho, nhac, nhac, nhac.
Edificar cidades e escrever legislação são inequívocas comprovações de nossa boa educação, mas civilizar inclui o iso comedido e reservado dos caninos. Pães, carnes e ovos macerados compõem uma repugnante opereta de refeitório, amplificada pelas bochechas.
Não se conhece o perigo de um pepino até ouvir sua trituração. Não se sabe de sua sordidez até constatar que a água nele contida, liberada na boca após a ação desmedida da gla, ajudará na liquefação da pasta encardida de verde que descerá pelo esôfago.
Devemos, no entanto, constatar que, mesmo vil, o pepino é apenas um pequeno componente de uma cena desgraçada, inevitável e cotidiana. O verdadeiro inimigo reconhece-se pela extensão da mandíbula, pela distância que mantém da mesa e pela empunhadura do garfo. Não posso ouvir, com indiferença e calma a formação do bolo alimentar promovida por duas mulheres às voltas com um cadáver insepulto.
A passagem tensa dos corpos - Carlos Brito e Mello.
Quanto mais ruídos advêm da boca mastigadora dos mortais, mais próximos nos colocamos dos porcos e de outros seres amigos do chão. Prefiro testemunhar graves e degenerescentes enfermidades a escutar as manifestações detestáveis que a mais maliciosa cavidade do corpo humano propaga quando está a trabalho, nhac, nhac, nhac.
Edificar cidades e escrever legislação são inequívocas comprovações de nossa boa educação, mas civilizar inclui o iso comedido e reservado dos caninos. Pães, carnes e ovos macerados compõem uma repugnante opereta de refeitório, amplificada pelas bochechas.
Não se conhece o perigo de um pepino até ouvir sua trituração. Não se sabe de sua sordidez até constatar que a água nele contida, liberada na boca após a ação desmedida da gla, ajudará na liquefação da pasta encardida de verde que descerá pelo esôfago.
Devemos, no entanto, constatar que, mesmo vil, o pepino é apenas um pequeno componente de uma cena desgraçada, inevitável e cotidiana. O verdadeiro inimigo reconhece-se pela extensão da mandíbula, pela distância que mantém da mesa e pela empunhadura do garfo. Não posso ouvir, com indiferença e calma a formação do bolo alimentar promovida por duas mulheres às voltas com um cadáver insepulto.
A passagem tensa dos corpos - Carlos Brito e Mello.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Presente do Pretérito
Existe uma vida atual, e existe uma vida a médio/curto prazo a ser explorada. Os últimos meses têm sido tão reais que vejo beleza nos defeitos mais banais, nas palavras malogradas, nas incompatibilidades, desafios e superações.
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Eu segurava dois balões: um de gás hélio, cintilante, e um bonito, mas que não voava. Os dois não cabiam na minha mão, o de gás hélio eu já tinha segurado demais, se brincasse com ele eu o perderia para sempre. Um dia chegou a hora de soltar e deixá-lo voar, esse era o seu destino. Fiquei olhando ele subir e sumir em um dia sem nuvens, acho que cheguei a acenar dando um "adeus", com os olhos semicerrados por causa do sol. Optei pelo outro, que não brilha, mas que me permite aproveitar ao máximo sua condição de balão. Tenho que vencer, no entanto, meu medo que ele possa estourar a qualquer momento. Medo e brincadeira não andam de mãos dadas.
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Minha memória sonora é minha aliada mais traiçoeira. Hoje ouvi o remix do Beck para o Philip Glass e tive vontade de dividir com quem aproveitaria ao máximo a beleza desses 20 minutos, só que não foi possível. É engraçado como surge inesperadamente em algumas pequenas frações de minutos uma vontade de repetir algumas sensações... a da espera é uma delas.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Os parênteses eram a minha salvação
Foi assim que passei a ir no consultório do doutor Simão (que não se chamava Simão: aquele era o apelido que escolhi para ele, pronunciando sim-não sem que ele percebesse). Eu me sentava na poltorna e tirava coisas escondidas na parede. Mentia bastante no início, depois passei a entender que as mentiras tinham importância. É um desejo, a mentira, igual aos outros, doutor Simão esclareceu. E então destruí de vez a cerca que separa da verdade.
A minha única sugestão é que você fale tudo. Até essas coisas que você põe entre parênteses, ele recomendava.
Eu ria.
Os parênteses eram a minha salvação. Um espólio que eu punha à parte para dar uma nova chance a tudo que já parecia decidido. É onde guardava o meu pai, a minha mãe e os meus irmãos.
Pelo tempo que eu vivesse, repliquei, esses vãos estariam abertos.
O risco é que eles tomem muitas importância e deixem de ser uma segunda história dentro da história, disse o doutor, que era severo com isso.
Não há duas histórias, pensei em corrigi-lo. O que digo aqui é com voz de ventríloquo. O único perigo é alguém olhar de fora e me enxergar no centro. Seria um engano.
Um bom médico ele, mas péssimo leitor, no final das contas.
A vendedora de Fósforos - Adriana Lunardi.
A minha única sugestão é que você fale tudo. Até essas coisas que você põe entre parênteses, ele recomendava.
Eu ria.
Os parênteses eram a minha salvação. Um espólio que eu punha à parte para dar uma nova chance a tudo que já parecia decidido. É onde guardava o meu pai, a minha mãe e os meus irmãos.
Pelo tempo que eu vivesse, repliquei, esses vãos estariam abertos.
O risco é que eles tomem muitas importância e deixem de ser uma segunda história dentro da história, disse o doutor, que era severo com isso.
Não há duas histórias, pensei em corrigi-lo. O que digo aqui é com voz de ventríloquo. O único perigo é alguém olhar de fora e me enxergar no centro. Seria um engano.
Um bom médico ele, mas péssimo leitor, no final das contas.
A vendedora de Fósforos - Adriana Lunardi.
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