Faz sol e venta, mas eu canto.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela
Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem
- Trechos de "Os estatutos do homem"Thiago de Mello
Tô em um show.
Uma mensagem sem próposito vem me assombrar. (Buu!!)
É você, do limbo, pedindo desculpas por alguma coisa que eu nem sei. (duplo Buu!!)
Respondo te chamando de "meu querido", porque finjo leveza.
Você pede desculpas mais uma vez por perambular pelas redondezas de San Sebastian. (triplo Buu!!)
Peço que pare com isso, você sabe que eu acho desagradável esse sentimento de culpa exacerbado e sem propósito, que acarreta um festival de palavras vazias e insinceras.
Você pede desculpas mais uma vez. (dois Buus para a frente, dois Buus para trás!!!)
Respondo dizendo que você é chato, que eu estou tomando um frozen delícia, que a vida é curta, que tem feito dias lindos, e te chamo pra cometer pecado comigo.
Você pede desculpas, sempre fora de sintonia com o meu humor. (Buu mesmo!!!)
O papo não vai adiante, retiro o convite, perco o celular no banheiro. Acho depois de 30 minutos, e vejo que você escreveu: "Você é perturbada !!". (Bingo!!)
Eu te digo que só estava tentando ser a benfeitora da culpa e transformá-la em algo real, e que "viver é melhor que sonhar".
Você diz que ainda me ama.
Eu respondo que eu acho que não.
« Le beau est toujours bizarre. Je ne veux pas dire qu'il soit volontairement, froidement bizarre, car dans ce cas il serait un monstre sorti des rails de la vie. Je dis qu'il contient toujours un peu de bizarrerie, de bizarrerie non voulue, inconsciente, et que c'est cette bizarrerie qui le fait être particulièrement le Beau. » (Charles Baudelaire)
sábado, 30 de julho de 2011
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Sem preparo para tal
Poderia estar tudo bem, na verdade, talvez até esteja. Só que falta um detalhe, e a falta pesa demais para ser só detalhe.
"A arte de perder" - Elizabeth Bishop - Trad. Paulo Henriques Britto
“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “
Esse cd da banda Cults é bem legal: http://www.youtube.com/watch?v=lcId8t9c4cc&feature=related
"A arte de perder" - Elizabeth Bishop - Trad. Paulo Henriques Britto
“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “
Esse cd da banda Cults é bem legal: http://www.youtube.com/watch?v=lcId8t9c4cc&feature=related
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Honrarias
"Você não é meu amante, você é eu mesma. Meu coração ou meu sexo. Um ramo de mim." E Gabriel, comovido, mas sorrindo orgulhoso, responde: "Ah sua putinha!"
Sartre faz uma apresentação de quase 60 páginas na edição do livro "Nossa Senhora das Flores" de Jean Genet, que tenho em mãos. O que poderia ser um pouco maçante, se torna quase fundamental na preparação para o que está por vir. Neste texto mais que introdutório, ele faz um divisão para melhor analisar os diversos aspectos que o fazem considerar esta obra uma das três grandes obras "medievais" do século XX.
Escrevendo no interior de uma cela, Genet fala sobre transgressão, imoralidade, vida, onanismo, solidão e palavra. Pois bem, os trechos aqui selecionados fazem parte da segunda parte intitulada: "As palavras" e falam (literalmente) sobre a atividade individual-mundana-condenada que é o ato de se masturbar.
"Não é por acaso que a palavra acompanha o ato masturbatório, que Gide mostra Boris murmurando sua fórmula evocadora como um "Abre-te Sésamo": o onanista quer reter a palavra como um objeto. Quando repetida em voz alta ou num murmúrio, imediatamente (ela) adquire uma objetividade e uma presença que faltavam ao objeto. A imagem permanece um tanto ausente; na realidade não a vejo, nem a ouço bem. Sou eu quem me canso tentando retê-la. Mas, se murmuro a palavra, posso ouvi-la, e se consigo me esquecer de mim mesmo quando a palavra sai da minha boca, se consigo esquecer que fui eu quem a pronunciou, posso ouvi-la como ela estivesse emanando de outra pessoa e na verdade como se ela estivesse soando por si própria". (pg. 21)
" A enunciação dos prazeres proibidos é uma blasfêmia. O homem que se masturba humildemente, sem emitir uma palavra, ou que está por demais preocupado com o que sua mão está fazendo, está perdoado em parte; seu gesto se dissolve na escuridão. Porém, se for enunciado, torna-se o gesto do masturbador uma ameaça à memória de todos. A fim de aumentar seu prazer, Genet o enuncia. Para quem? Para ninguém e para Deus. Para ele, como para os primitivos, a palavra possui virtudes metafísicas. É perverso, é delicioso que uma palavra obscena ressoe na semi-obscuridade da cela, que surja do buraco negro das suas cobertas. A ordem do universo é desta forma desbaratada. Uma palavra dita é palavra como sujeito: ouvida, é objeto." (Pg. 22)
Jean-Paul Sartre in
Genet, Jean -Nossa Senhora das Flores, Nova Fronteira.
Sartre faz uma apresentação de quase 60 páginas na edição do livro "Nossa Senhora das Flores" de Jean Genet, que tenho em mãos. O que poderia ser um pouco maçante, se torna quase fundamental na preparação para o que está por vir. Neste texto mais que introdutório, ele faz um divisão para melhor analisar os diversos aspectos que o fazem considerar esta obra uma das três grandes obras "medievais" do século XX.
Escrevendo no interior de uma cela, Genet fala sobre transgressão, imoralidade, vida, onanismo, solidão e palavra. Pois bem, os trechos aqui selecionados fazem parte da segunda parte intitulada: "As palavras" e falam (literalmente) sobre a atividade individual-mundana-condenada que é o ato de se masturbar.
"Não é por acaso que a palavra acompanha o ato masturbatório, que Gide mostra Boris murmurando sua fórmula evocadora como um "Abre-te Sésamo": o onanista quer reter a palavra como um objeto. Quando repetida em voz alta ou num murmúrio, imediatamente (ela) adquire uma objetividade e uma presença que faltavam ao objeto. A imagem permanece um tanto ausente; na realidade não a vejo, nem a ouço bem. Sou eu quem me canso tentando retê-la. Mas, se murmuro a palavra, posso ouvi-la, e se consigo me esquecer de mim mesmo quando a palavra sai da minha boca, se consigo esquecer que fui eu quem a pronunciou, posso ouvi-la como ela estivesse emanando de outra pessoa e na verdade como se ela estivesse soando por si própria". (pg. 21)
" A enunciação dos prazeres proibidos é uma blasfêmia. O homem que se masturba humildemente, sem emitir uma palavra, ou que está por demais preocupado com o que sua mão está fazendo, está perdoado em parte; seu gesto se dissolve na escuridão. Porém, se for enunciado, torna-se o gesto do masturbador uma ameaça à memória de todos. A fim de aumentar seu prazer, Genet o enuncia. Para quem? Para ninguém e para Deus. Para ele, como para os primitivos, a palavra possui virtudes metafísicas. É perverso, é delicioso que uma palavra obscena ressoe na semi-obscuridade da cela, que surja do buraco negro das suas cobertas. A ordem do universo é desta forma desbaratada. Uma palavra dita é palavra como sujeito: ouvida, é objeto." (Pg. 22)
Jean-Paul Sartre in
Genet, Jean -Nossa Senhora das Flores, Nova Fronteira.
Ilustração de André Breton
terça-feira, 26 de julho de 2011
Mix tapes: Brasa mora e Boco-moco
Esses dias refleti sobre obviedades, como, por exemplo, o poder que a música tem de mudar o nosso humor e/ou astral. Na nuvem de coisas ululantes que se formou na minha cabeça, fiquei pensando especificamente em músicas que têm o poder de me deixar alegre. O que poderia ser um ato simples, pá- pum, pelo contrário, me fez procurar durante um tempo, porque só me lembrava de músicas terrivelmente tristes (acabam sendo as mais ouvidas). Mesmo dando a ordem de: "Coisa alegre!" um neuroboicote acontecia, e minha mente só trazia à tona os piores pagodes de minha infância em Miguel Pereira. Dei um basta, e ontem fiz um exercicio que me tomou exatos 20 minutos. Abri o Itunes, que está bem defasado (malefícios de arrumar somente o mp3 player), e criei uma lista com tudo que me remete a felicidade & alegria. Poderia ter sido mais criteriosa nas escolhas, mas gastaria muito tempo, e não era esse o objetivo.
Imagens de casa na praia, feijoada, gato mia, espetinho de camarão, inicio de namoro, andar de bicicleta, amigos, viagens, Londres (várias músicas me lembram de lá) e que tais, cascatearam a cada música. O resultado, apesar de provar que não nasci para ser Dj e que meu gosto musical tende para algo Pop- indie-retrô e latino-oriental, me deixou feliz. Acho que consegui!
Deixo aqui esses prozacs sonoros:
Brasa Mora
1) Abducted - Cults
2) 13 dias - Manu Chao
3) Its 5 - Architecture in Helsinki
4) Quicksand - La Roux
5) Jules et Jim (main title) - George Delerue (♥)
6) Capzise - Karen O and the kids
7) Japan - CocoRosie
8) Cemalin -Erkin Koray
9 ) Peaches - The President of United States (que achado!)
10) Ballerina - Van Morrison
11) Shabop Shalom - Devendra Banhart
12) Hey Man - Ave Sangria
13) Bohemian like you - The Dandy Warhols
14) A minha menina - Mutantes
15) Om Nashi me - Edward Sharpe & the magnetic zeros
16) Typewriter tip tip tip - Jakishan (minha favorita no momento, acompanha dancinha)
17) Genius of love - Tom tom club
18) Star and sons - Broken social scene
19) Irene - Caetano Veloso
20) Feira de Acari - Funk
21) Get along gang theme
22) I got you babe - Sonny and Cher
23) Ring of fire - Johny Cash
24) Essa noite não - Lobão
25) Hey ya - Outkast
26) Do you think Im sexy - Rod Stewart
27) Baby's on fire - Brian Eno
28) Heads will roll - Yeah Yeah Yes
Boco-moco:
1) Picture Book - The Kinks
2) In the beginnig - Van Morisson
3) My Girls - Animal Collective (a mais querida de todas)
4) Tristeza Maleza - Manu Chao
5) Samba Vexillographica - Devendra Banhart
6) Love and affection - Bob Marley
7) The true wheel - Brian Eno
8) Coração Bobo/ Pelas ruas que andei - Alceu Valença
9) The goonies r' goog enough - Cindy Lauper
10) Love is no big truth - Kings of Convenience
11) Jump in the line - Harry Belafonte
12) Mon manàge a moi - Etiene Daho (homenagem a Bebel e Olavo)
13) There's a boat leaving dat's leving soon - Ella Fitzgerald & Louis Armstrong
14) Burning torch - Don Drummond
15) Cannibale - Stereo Total
16) Girl - Beck
17) Jerk it out - Ceasars Palace
18) Brimful os Asha - Corneshop
19) I see you babe - Groove Armada
20) Temptation - Heaven 17
21) I'd rather dance with you - Kings of Convenience
22) Deceptacon - Le tigre
23) How Bizarre - OMC
24) Wildcat - Ratatat
25) Would you - Touch and Go
Aproveito e divulgo o blog Ferro Extra, que tem mix tapes bem melhores que as que estão aqui. Eu não conheço o Tarta, mas ele presenteia seus leitores com grandes achados: http://ferroextra.wordpress.com/
Imagens de casa na praia, feijoada, gato mia, espetinho de camarão, inicio de namoro, andar de bicicleta, amigos, viagens, Londres (várias músicas me lembram de lá) e que tais, cascatearam a cada música. O resultado, apesar de provar que não nasci para ser Dj e que meu gosto musical tende para algo Pop- indie-retrô e latino-oriental, me deixou feliz. Acho que consegui!
Deixo aqui esses prozacs sonoros:
Brasa Mora
1) Abducted - Cults
2) 13 dias - Manu Chao
3) Its 5 - Architecture in Helsinki
4) Quicksand - La Roux
5) Jules et Jim (main title) - George Delerue (♥)
6) Capzise - Karen O and the kids
7) Japan - CocoRosie
8) Cemalin -Erkin Koray
9 ) Peaches - The President of United States (que achado!)
10) Ballerina - Van Morrison
11) Shabop Shalom - Devendra Banhart
12) Hey Man - Ave Sangria
13) Bohemian like you - The Dandy Warhols
14) A minha menina - Mutantes
15) Om Nashi me - Edward Sharpe & the magnetic zeros
16) Typewriter tip tip tip - Jakishan (minha favorita no momento, acompanha dancinha)
17) Genius of love - Tom tom club
18) Star and sons - Broken social scene
19) Irene - Caetano Veloso
20) Feira de Acari - Funk
21) Get along gang theme
22) I got you babe - Sonny and Cher
23) Ring of fire - Johny Cash
24) Essa noite não - Lobão
25) Hey ya - Outkast
26) Do you think Im sexy - Rod Stewart
27) Baby's on fire - Brian Eno
28) Heads will roll - Yeah Yeah Yes
Boco-moco:
1) Picture Book - The Kinks
2) In the beginnig - Van Morisson
3) My Girls - Animal Collective (a mais querida de todas)
4) Tristeza Maleza - Manu Chao
5) Samba Vexillographica - Devendra Banhart
6) Love and affection - Bob Marley
7) The true wheel - Brian Eno
8) Coração Bobo/ Pelas ruas que andei - Alceu Valença
9) The goonies r' goog enough - Cindy Lauper
10) Love is no big truth - Kings of Convenience
11) Jump in the line - Harry Belafonte
12) Mon manàge a moi - Etiene Daho (homenagem a Bebel e Olavo)
13) There's a boat leaving dat's leving soon - Ella Fitzgerald & Louis Armstrong
14) Burning torch - Don Drummond
15) Cannibale - Stereo Total
16) Girl - Beck
17) Jerk it out - Ceasars Palace
18) Brimful os Asha - Corneshop
19) I see you babe - Groove Armada
20) Temptation - Heaven 17
21) I'd rather dance with you - Kings of Convenience
22) Deceptacon - Le tigre
23) How Bizarre - OMC
24) Wildcat - Ratatat
25) Would you - Touch and Go
Aproveito e divulgo o blog Ferro Extra, que tem mix tapes bem melhores que as que estão aqui. Eu não conheço o Tarta, mas ele presenteia seus leitores com grandes achados: http://ferroextra.wordpress.com/
domingo, 24 de julho de 2011
Parte maldita
" O Mal, na medida em que traduz a atração para a morte, em que é um desafio, como o é em todas as formas do erotismo, nunca é, por outro lado, o objeto de uma condenação ambígua. O Mal é assumido gloriosamente, como o é, por sua vez, aquele que assume a guerra, em condições que se revelam irremediáveis na nossa época. Mas a guerra tem o imperialismo como consequencia... Aliás, seria inútil dissimular que, no Mal, sempre aparece uma inclinação para o pior, que justifica a angústia e o desgosto. Não é menos verdadeiro que o Mal, considerado sob a luz de uma atração desinteressada para a morte, difere do mal cujo significado é o interesse egoísta. Uma ação criminosa "infame" se opõe à "passional". A lei rejeita ambas, mas a literatura mais humana é o lugar privilegiado da paixão. Do mesmo modo, a paixão não escapa à maldição: só uma "parte maldita" está destinada àquilo que, numa vida humana, tem o sentido mais carregado. A maldição é o caminho da benção menos ilusória."
A literatura e o mal - Georges Bataille - L&PM.
A literatura e o mal - Georges Bataille - L&PM.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
O processo que vicia
Lucian Freud era um dos maiores pintores figurativos vivo. Pelo menos até hoje. Texto de sua autoria publicado na Revista Serrote: 7.
Algumas reflexões sobre a pintura
Lucian Freud
Meu objetivo ao pintar um quadro é estimular os sentidos pela intensificação da realidade. Esse efeito depende da intensidade com que o pintor compreende ou percebe o objeto de sua escolha. Por causa disso, a pintura é a única arte em que as qualidades intuitivas do artista podem ser mais valiosas para ele do que o conhecimento ou a inteligência propriamente ditos.O pintor torna real para as outras pessoas os seus mais profundos sentimentos em relação a tudo o que lhe é caro. Um segredo é revelado a qualquer um que olhar o quadro com a mesma intensidade com que ele foi concebido. Para isso, o pintor deve liberar os sentimentos ou as sensações que guarda e rejeitar tudo aquilo com que já está naturalmente envolvido. Essa autoindulgência é a mesma disciplina que descarta tudo aquilo que não lhe é essencial – e que cristaliza, assim, seus gostos. Afinal, os gostos do pintor devem ser fruto daquilo que, na vida, o deixa obcecado a tal ponto que ele não precisa se perguntar o que lhe cabe fazer na arte. É somente por meio do entendimento completo dos seus gostos que ele se liberta da tendência a encaixar tudo o que vê em uma concepção preestabelecida. Caso não tenha isso sempre em mente, ele vai passar a enxergar a vida pura e simplesmente como material para uma linha artística específica. De modo que vai olhar para algo e se perguntar: “Posso fazer uma pintura minha a partir disso?”. E assim sua obra acaba por se degenerar, já que deixa de ser o veículo de suas sensações.
(...)
Continua aqui: http://www.revistaserrote.com.br/2011/07/algumas-reflexoes-sobre-a-pintura
Eu, particularmente, gosto muito dos desenhos:
Eu, particularmente, gosto muito dos desenhos:
terça-feira, 19 de julho de 2011
"Pobre Flynn, quem foi que te deixou na chuva?"*
* O Piano.
- Deixa eu te explicar, por favor!
Este é um não-diálogo:
'E's not pinin'! 'E's passed on! This dialogue is no more! He has ceased to be! 'E's expired and gone to meet 'is maker!
'E's a stiff! Bereft of life, 'e rests in peace! If you hadn't nailed 'im to the perch 'e'd be pushing up the daisies!
'Is metabolic processes are now 'istory! 'E's off the twig!
'E's kicked the bucket, 'e's shuffled off 'is mortal coil, run down the curtain and joined the bleedin' choir invisibile!!
'E's a stiff! Bereft of life, 'e rests in peace! If you hadn't nailed 'im to the perch 'e'd be pushing up the daisies!
'Is metabolic processes are now 'istory! 'E's off the twig!
'E's kicked the bucket, 'e's shuffled off 'is mortal coil, run down the curtain and joined the bleedin' choir invisibile!!
This is an ex-dialogue (adaptação de: Dead Parrot sketch - Monty Phyton).
- Deixa eu te explicar, por favor!
- Não.
- Não?
- Tá tudo bem.
- Lá vem você com esse “tá tudo bem” como se não houvesse sentimento dentro de você.
- O que você quer eu faça?
- Me escute!
- Não.
- Mas eu quero.
- Ok.
- Não é como você está pensando, eu não fiz...
- ...
- Tá me ouvindo? O que você está fazendo?
- Me olhando no espelho.
- Sua velha mania de tentar enxergar seu interior através de um espelho.
- Para você ver.
- Você tem um muro na frente, ninguém sabe o que você sente, como sente e na intensidade que sente! É impossível lidar com você, mas ao mesmo tempo...
- Talvez seja por isso que não dê certo, você é imediato e eu sou construção. Logo, tá tudo bem.
- Não, não está! A vida continua, você mesma diz isso, que as coisas mudam e que é necessário humildade para ver essa mudança acontecer vagarosamente, mas sempre dando um empurrãozinho para que haja algum movimento para frente, não se pode ficar parado.
- Bom saber que você aprendeu isso.
- Seu coração nunca foi inteiro meu.
- Lá vem você com esse gráfico cardíaco.
- É sério, é visível, é palpável.
- Todo mundo tem algum tipo de cicatriz, principalmente interna. Vivemos com elas e nem lembramos que elas estão lá, até que o tempo muda e elas coçam, depois param, e voltamos a esquecer. Simples assim. Elas fazem parte de mim, e eu não sei porque te incomodam tanto.
- Sinceramente, foge total à minha compreensão sua linha de raciocínio.
- Me esquece.
- Como assim?
- Assim.
- Você consegue alternar uma alegria contagiante com uma melancolia avassaladora, parece que são duas pessoas, isso é estranho para mim. Além de se esconder atrás de livros, fones de ouvido e óculos de armação gigante.
- Eu chamo essa alternância de gente.
- Gente?
- Você tá sempre perguntando e se explicando, que coisa engraçada e desgastante.
- Engraçada?
- Eu chamo essa alternância de gente.
- Gente?
- Você tá sempre perguntando e se explicando, que coisa engraçada e desgastante.
- Engraçada?
- ...É... Acredito que dessa vez não vão ficar marcas de nenhum tipo...
- Hã? Oi? Tá ai??
- ...
Jane Campion entende de mulher como ninguém, principalmente as com modo operacional dito estranho:
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