"A eternidade rotativa pode parecer atroz ao espectador; é satisfatória para seus protagonistas. Livre de más notícias e de enfermidades, vivem sempre como se fosse a primeira vez, sem recordar as anteriores. Além disso, com as interrupções impostas pelo regime das marés, a repetição não é implacável.
Acostumado a ver uma vida que se repete, a minha me parece irremediavelmente casual. As promessas de melhoria são fúteis: não tenho uma próxima vez, cada momento é único, distinto, e muitos se perdem em descuidos. É bem verdade que, para as imagens tampouco existe uma próxima vez (todas são iguais à primeira).
Pode-se pensar que nossa vida é como uma semana dessas imagens e que volta a se repetir em mundos contíguos." - A invenção de Morel - Bioy Casares -.
« Le beau est toujours bizarre. Je ne veux pas dire qu'il soit volontairement, froidement bizarre, car dans ce cas il serait un monstre sorti des rails de la vie. Je dis qu'il contient toujours un peu de bizarrerie, de bizarrerie non voulue, inconsciente, et que c'est cette bizarrerie qui le fait être particulièrement le Beau. » (Charles Baudelaire)
terça-feira, 30 de novembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
O dia que acordei Raça Negra
Antecipar o futuro é trabalho de cartomante. Aqueles que não possuem tal dádiva esotérica deveriam simplesmente viver os dias que aparecem, e desfrutar a vida como ela vem. Não entendo esta necessidade de ver adiante. Não há nada adiante além de: incertezas, dúvidas e algumas poucas coisas que foram plantadas e que é certo darem frutos. Se pensássemos mais no hoje, a vida talvez fosse um exercício existencialista que a longo prazo traria algumas questões. Porém, sem sombra de dúvidas, abortaríamos discussões que em nada engrandecem o agora, e muito o menos o daqui para frente. Livre-se da bola de cristal e abra sua janela.
domingo, 28 de novembro de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010
Despedir-se
Eu não sei quem você é. Eu não sei do que me despedir. Volto para relembrar o que eu sentia, mas a lembrança começa a me fugir. Que angústia. Os solavancos da realidade me fazem passo a passo concluir que não foi tanto assim, mais uma vez eu supervalorizei migalhas, e que tudo é tão vazio de significados. Será? mas eu li certo nas entrelinhas, estava escrito, existem evidências de tudo que aconteceu, pessoas viram, minha sapatilha vinho, minha sandália marrom, meus escarpins azul e preto e meu sapato boneca estiveram lá. Meus esmaltes, em sua maioria azuis, minhas meias calças prateadas, meu vestido com decote nas costas, que até hoje mantenho intacto como na última noite que te vi, guardam um pouco de você. Acima de tudo, senti tudo que se passou. Eu senti, e muito, cada avanço, e, mais ainda, cada recuo dessa longa jornada . Porque agora todo aquele mundo mirrou, e eu nem sei o que guardar de tudo isso? Foi realmente só um mero exercício de linguagem? Eu nunca fui de fato uma opção? Eis que finalmente aceito que não. Você é minha Odette e eu sou seu Swann*
* Baseado na palestra sobre "Romance" do projeto Eu, o leitor. Análise de " O amor de Swann"
* Baseado na palestra sobre "Romance" do projeto Eu, o leitor. Análise de " O amor de Swann"
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O vazio
Quando tudo passa, nem sempre o alívio é imediato feito dor de dente curada, ou unha encravada retirada. Às vezes vem uma tristezinha bem miúda, feito chuva fina que molha o gramado e deixa a paisagem cinza. Como em um passe de mágica, olhar para frente se torna sem muita cor e brilho.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Sob a lente macro
Às vezes as bases que sustentam um sonho, tentação ou desejo, ficam abaladas por questões maiores. É difícil se desfazer de algumas ideias e ideais que construímos. Por ora, olhei a vida alheia e ela me pareceu frágil demais. Penso que muitos devem olhar para minha vida e pensar o mesmo. Que pensem. Só sei que não é justo cobiçar o pouco amor do próximo, quando se tem tanto à volta.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Abecedário da paixão
No post passado minha doce amiga B. falou do momento em que nos apaixonamos. Aquele estalo que surge do nada, aquela imagem ou momento que guardamos. A fração de segundos que nos entregamos por completo ao outro. Assim, pensei nas minhas maiores paixões e nas fotografias que carrego comigo dessas pessoas.
A- Colega da escola, 2 ª série. Roía unhas. Achava isso sexy.
B- (1) Colega da escola, CA 1. Era o bateboot da turma. Me dava cada mordida nos braços de tirar sangue, praguejava contra todos por causa do nascimento da irmã. Era uma criança violenta, mas tinha cachinhos dourados. Eu o amava. Porém, uma vez me pediu em namoro do lado da trave e eu declinei. Sempre fui difícil.
C- (1) Colega de classe na 1ª série. Tinha olhos claros e grandes orelhas, não me lembro exatamente o momento que me vi perdida em sentimentos, mas tem a ver com um dever de casa e uma borracha que ele tinha.
(2) Colega de escola, 5 ª série. Me chamou para um aniversário exclusivo em Angra, e gostava de Pulp Fiction. Minha melhor amiga deu seu primeiro beijo nele em uma boate esquisita.Ali consumou-se minha obsessão.
D - Colega de francês. Era o que tinha mais dificuldades de compreensão. Sempre tive um jeito altruísta de amar. Um dia fizemos um trabalho juntos. A burrice dele passou para mim. Falei tudo errado; naquele momento, a flecha de Cupido tinha acertado meu coração.
E - (1) Colega de escola, 4ª série. Tinha um quarto high tech e dava festinhas no play. Usava jeans com jeans e boné. Isso me encantava. Me apaixonei na casa de uma amiga, na Barra, durante um jogo Brasil x Holanda, em 1994.
(2) Colega de escola 6ª série. Usava lentes de contato cor gelo, tinha uma jaqueta de couro do Hard Rock Café. Me apaixonei quando durante um dever de ciências ele colocou fogo na sua caneta compacto. O plástico derretia e eu suspirava.
(3) Conheci daquela maneira que ninguém se conhece. Me apaixonei quando me indicou um livro que era a "minha cara". A protagonista sentava em pratos de leite, comia colhões de padre, enfiava os dedos em testículos de touro, e se masturbava em falésias. Tudo isso é tão eu, que só me restava pensar nos nossos filhos juntos e eu esperando ele para o jantar.
(4) Colega da escola, maternal. Tinha olhos claros e andava de sapato alto pela sala. Um dia cai do trepa trepa e para me consolar ele me deu um punhado de pedras de obra. Ali selei meu amor por ele.
(4) Colega da escola, maternal. Tinha olhos claros e andava de sapato alto pela sala. Um dia cai do trepa trepa e para me consolar ele me deu um punhado de pedras de obra. Ali selei meu amor por ele.
F- (1) Colega de escola, 3ª série. Riquinho, desenhava bem e bonito. A mãe e a tia faziam gosto por mim. Tinha uma casa bacana onde na sala havia um porta-retrato dele neném com a genitália mirim de fora. Me apaixonei.
(2) Colega de faculdade. Na apresentação da minha banca final ficou parado com um olhar nerd perdido. Roubava minhas fotos no fotolog e tinha uma piscina toney na cobertura. Queria passar o resto dos meus dias na lage alheia.
G - (1) Colega de CA. Gorducho e de grandes orelhas. Era sério e bochechudo. Os pais vestiam-no de forma janota nas festinhas, e eu me declarei para ele no meu aniversário de 4 anos cujo tema era Branca de Neve.
(2) Colega de escola, 3º ano. Foi meu namorado por 5 anos. Tinha cara de mau, piercings, cabeça raspada e morou nos países nordicos. Me apaixonei, inicialmente, pela estética, mas depois a convivência mostrou-o como um super amigo.
H - Colega de escola, 1 º ano. Magrinho, baixinho e cara de frágil. Fumava tudo que poderia ser enrolado, e se tornou meu melhor amigo. De tão próximo, e tão delicado me apaixonei. Namorei durante 1 ano e sofri. Laudo final = Gremlin.
I - X
J- (1) Colega de escola, 1º ano. Moreno do Rio, saudável, bonito, bem alimentado e bronzeado. Me apaixonei quando disse que gostava de Sepultura e ele de Zizi Possi. Tinha as cuecas mais incríveis, também: listradas de roxo e amarelo, impossível esquecê-las.
(2) Professor de inglês. Londrino com pinta braba e pronúncia sensual. Andava de moto, fumava, ex hooligan, surfista do arpoador. Descobri que estava amando quando em uma aula ele disse: "Find the adverb" e eu fiquei ruborizada.
(2) Professor de inglês. Londrino com pinta braba e pronúncia sensual. Andava de moto, fumava, ex hooligan, surfista do arpoador. Descobri que estava amando quando em uma aula ele disse: "Find the adverb" e eu fiquei ruborizada.
K - X
L - X
M - Me apaixonei por uma foto. Não o conhecia, mas era branquelo e tatuado. Tinha uma banda, acho. Eu era tão o avesso do tipo de mulher que ele gostava, que achava que quando nos conhecessemos ele só poderia cair de quatro por mim.
N - X
O - X
P - (1) Colega de escola. Tinha uma babá dominadora e pulmões fracos. Meu pai levava a gente para o clube depois da aula. Me apaixonei quando ele desenhou um basset. Ele sempre desenhava bassets nas aulas.
(2) Professor de pós. Tinha voz fina e faltavam-lhe alguns centímetros de pescoço. Inteligente, verborrágico e culto. Foi um dos meus maiores casos de obsessão. Entre Stendhal e Rilke, gostava de Sonic Youth. Durante um bom tempo me imaginava feliz ao lado dele, segurando livros e frequentando saraus de poesia.
Q- X
R - (1) Colega da escola, 4ª série. Tinha uma lapiseira bacana e uma caligrafia bonita. Belos dentes, e um cabelo a la príncipe Danilo. Falava meio arrastado e uma vez dei um tapa na cara dele. Não me lembro o motivo, mas já devia estar apaixonada naquele momento.
(2) Estudava com a minhas primas. Grande, cabeludo, do metal. Me apaixonei quando vi passando na rua em direção ao flipper, com cabelos longos ao vento e camisa do Ramones. Me mandava períodicos - que ele inventava- pelo correio. Namoramos durante 1 ano e meio e hoje é um dos meus melhores amigos.
(3) A primeira vez que vi foi em uma exposição de uma grande amiga em comum. Gostei do porte e da carequice. Nos conhecemos mesmo em um casamento, e de lá para cá estamos juntos. Me apaixonei por ele por causa de um dedinho torto e pela maneira apaixonada e otimista de ver a vida.
S- Fizemos pós juntos. Ele era judeu. Meu pai é católico tradicional. Me vi encantada com essa incompatibilidade religiosa.
T- Conheci no trabalho. Almoçávamos juntos. Tinha a marmita mais arrumada de todo escritório. Não chegava a ser balanceada a dieta, mas comia com gosto. Me vi apaixonada quando me peguei passando batom para ir almoçar no refeitório.
U- X
V- Colega da pré-escola. Tinha um travesseiro para dormir em forma de ônibus. Fazia parte do crachá vermelho. A linha de ônibus mais fucking cool da escola.
W- X
X- X
Y - X
Z- X
Observação inútil: Quando pequena, meu maior medo era que o menino que eu gostava cortasse o cabelo. De alguma forma, quando o visual mudava um pouco o amor diminuía. Coisa esquisita.
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