segunda-feira, 3 de maio de 2010

Nova perspectiva

Hoje eu recebi um e-mail que falava sobre simplicidade. Era um agradecimento, e nele dizia que a vida é feita de coisas pequenas. Meu lado hippie, católico, Kumbaya my Lord respondeu da forma mais simples que conseguiu. Todos os dias eu tento levar a diante este projeto de simplificação da vida. Um dia eu ainda chego lá!

" Felicidade se encontra em horinhas de descuido" - Guimarães Rosa


Sabe, durante muito tempo eu acreditava que era pesada, e que felicidade só poderia ser encontrada se fosse como eu sonhava, então vivia em uma grande frustração. Até que passei por provas, por conta da minha mãe, e encontrei meus amigos que me mostraram que a vida tem que ser um pouco que nem o AA - "Só por hoje e um dia de cada vez". Aprendi, sobretudo, que felicidade está nas pequenas coisas, no fazer nada, no sentar na areia, na maneira mais singela de se conectar com os espaços. Às vezes achamos que só estamos vivos quando estamos rendendo e produzindo, mas é bom perceber que se está vivo simplesmente vivendo, e que para isso é necessário estar inserido dentro dos espaços e fazendo atividades onde há vida, sejam elas: nossa casa, nossos amigos, comendo, andando, dormindo, chorando e rindo.

É um pouco a minha tatuagem: " Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como sou conhecido."

Eu fui hippie, e carrego um pouco desse ranço, talvez nada desse e-mail faça sentido, mas se você, dessa experiência que estamos vivendo, sair uma pessoa melhor, eu já fico muito contente.

Da minha parte, depois de muitas coisa confusas pelas quais passei, posso dizer que você também me mostra um lado simples que eu tinha deixado um pouco de lado, e isso me deixa uma pessoa feliz.

terça-feira, 13 de abril de 2010

No meu karaokê
















C'mere - Interpol

It's way too late to be this locked inside ourselves
The trouble is that you're in love with someone else
It should be me. Oh, it should be me
Sacred parts, your get aways
You come along on summer days
Tenderly, tastefully

And so may, we make time
Try to find somebody else
This place is mine

You said today, you know exactly how I feel
I had my doubts little girl
I'm in love with something real
It could be me, that's changing!

And so may, we make time
To try and find somebody else
Who has a line

Now season with health
Two lovers walk a lakeside mile
Try pleasing with stealth, rodeo
See what stands long ending fast

Oh, how I love you
And in the evening, when we are sleeping
We are sleeping. Oh, we are sleeping

And so may, we make time
We try to find somebody else
Who has a line

Now season with health
Two lovers walk a lakeside mile
Try pleasing with stealth, rodeo
See what stands long ending fast

* Fotos de Buamai


sexta-feira, 26 de março de 2010

No fim do corredor só escuridão, ou eu não te amo mais e já sabia

Em 2008 encontrei o homem da minha vida. Depois de terminar um namoro de cinco anos, fui parar em uma aula bem longe, e naquele espaço sagrado da sala de aula, em contraste com o quadro branco, estava ele - o homem da minha vida. Durante quase um ano, eu o respirei, pensei nele, na nossa vida, nos nossos e-mails, filhos, louças e cobertas. Não havia dúvida: encontrara o meu amor eterno. Mesmo não dando certo, mesmo sendo platônico, mesmo sabendo que na verdade ele era uma piração minha, nada tirava da minha cabeça que era dele o meu coração. Este blog guarda muito daquele sofrimento de querer e não ter. Em março do ano passado ele se foi, nossa relação inexistente tinha chegado ao final, e eu tive que administrar a quantidade de amor produzida e não usada que estava no meu estoque. De março até julho, almocei, jantei e lanchei amor não correspondido, mas com a certeza que ia acabar, que ia passar, porque sempre passa. Março foi a última vez que nos vimos, eu, como sempre, com a melhor roupa que uma aluna pode usar, ele com o distanciamento que um professor deve ter. Na vida real vestíamos bem nossos papéis sociais, na internet, no gmail mais precisamente, a coisa era um pouco diferente. O tempo passou, eu nunca mais o vi. Às vezes pensava no que ele estaria fazendo, e achava curioso o fato de nós nunca nos encontrarmos nessa cidade que nem é tão grande. Destino, acredito eu.

Ontem enquanto andava pelos corredores da Universidade, olhava as portas e pensava nas opções que cada porta daquelas escondia. Cada número na porta era um pequeno simulacro do saber e da escolha. Foi nessa olhada, na porta ao lado da minha sala, que quem estava lá, de pé, superior e contrastando agora com o quadro verde de giz atrás? O homem da minha vida. Olhei, dei um sorriso, e voltei para minha carteira, mas já pensando nos planos dissolvidos, no aperto do peito que eu sentia há um ano atrás, no vazio de olhá-lo através de um vidro sujo com um e-mail de formandos fixado no meio da testa. Até que no intervalo nos esbarramos no corredor. Nós nos cumprimentamos, ele falou dele, como sempre, e seguiu caminho. Meu coração não bateu mais forte, minhas pernas não bambearam, não senti a secura na boca . Não consegui ser agradável, não consegui olhar no olhos dele, só via o pescoço curto que faz com que a barba e os pêlos do peito se juntem formando uma maçaroca capilar - ah, como eu amei essa maçaroca. Ele seguiu pelo corredor, eu continuei no meu lugar inabalável, imóvel, sem ver o deslizar dele pelas portas. Em uma fração de segundos vi o homem da minha vida seguir em frente, e vi uma vida que não me pertence mais, seguindo ao lado, em passos rápidos, rumo a não me interessa aonde, exceto que ao final dessa trajetória não há luz. Porque passa,sempre passa, e novas vidas surgem e novos homens para preenchê-las também.

Daquela vida passada você continua sendo Rei. Na verdade, não foi você que saiu dela. Fui eu.



terça-feira, 23 de março de 2010

Oi!

Adoro esse filme. This is England. Filme que mostra como um movimento que começa com uma mistura de estilos musicais bem legais, pode se tornar uma ideologia execrável. Da minha adolescência, guardo com certa saudade e parcimônia meu amor pelo Madball.

terça-feira, 16 de março de 2010

Contraponto

* Foto de Grégory Markovic

Em uma janela um falava sobre a morte, de como todos morriam, e que assim seria até os finais dos tempos. Em uma outra janela, falava-se da vida, da magia de nascer e da perpetuação das espécies.
Nesse momento tive que fazer uma escolha. Estava ali na minha frente a difícil tarefa de optar por um caminho. As nuvens carregadas do sudeste se dissipam antes de chegar no nordeste. Eu sempre soube disso.

terça-feira, 9 de março de 2010

É clichê but I like it

Sou muito bem representada por esse trecho do filme Jules et Jim (1962) do Truffaut:


"Je te dis: Je t'aime
Tu me dis: attends
Tu me dis: prends moi
Je te dis: va t'en!"




Solta o Jon Brion DJ.



Tempos Modernos

Vivemos uma explosão de redes de relacionamentos que fazem a gente estar conectado com tudo e todos ao mesmo tempo. Essa febre começou por aqui com o Orkut, veio o Myspace, surgiu o Formspring, e o famigerado Facebook. Criei meu perfil no Facebook em 2006, depois de ler sobre ele na revista Glamour inglesa. Achei que era uma espécie de Orkut, só que com gringos. Como queria arrumar um inglês, fui correndo criar minha conta. No início não tinha muita gente, era um ambiente bem família e higiênico, todo branquinho. Hoje em dia olho para ele e me sinto em um cortiço, não é a toa que o apelidei carinhosamente de Cortiçobook. Todo mundo fala com todo mundo, é gente dando pitaco na sua vida, na do seu amigo, falando da sua mãe, cachorro, periquito e papagaio. Me sinto um pouco afrontada, e às vezes tenho a sensação que meu perfil virou orelhão de porta de favela. Agora mesmo tá rolando um alô para o tio no meu álbum de fotos, uma discussão sobre um filme, e o uso da câmera analógica x digital. De todas as coisas que o Facebook me proporciona: alegrias, tristezas, risos e indiferenças, o que mais me agonia é a síndrome do curti. Estou virando o personagem do Charles Chaplin, em Tempos Modernos, que depois de um dia apertando parafusos, sai apertando tudo que passa pela frente. Um dia inteiro no Facebook e estou igualzinha, curtindo tudo! Isabel curtiu o café, curtiu o que escreveram sobre a política do Pré Sal no G1, curtiu o sabonete da empresa, curtiu o alô da recepcionista e assim vai. Olho para as páginas e procuro um botão que expresse meu encantamento ligeiro pelo que leio, vejo e sinto. Existe uma campanha para colocarem o não curti, o que seria muito bom, e o foda-se, que seria ainda melhor. Ainda bem que na vida real temos essas opções, o cortiço politicamente correto é lá, e a vida aqui fora segue normal.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Noir Désir

" 'Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem'. Por isso o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne".
- Gênesis 2:23 - 25

Em uma mesa de bar, três amigas conversam sobre suas desventuras amorosas. Idade diferentes, gostos opostos, histórias que quando saem das nossas bocas se tornam banais, mas que dentro de nós tomam proporções avassaladoras, a ponto de fazer a gente se olhar no espelho, e conseguir ler as legendas desse filme de terror em nossos olhos. No meio de um papo entrecortado, com relatos distorcidos, uma delas diz: "acontece que a pele não esquece". Essa foi uma das frases mais eróticas e verdadeiras que ouvi recentemente. Como racionalizar o que é instinto? Não há método Pavlov, adestramento, ou lobotomia que faça você refrear o tesão. De todas as coisas possíveis de serem feitas para neutralizar uma má experiência amorosa, acredito que essa seja uma missão das mais difíceis. A tarefa se torna ainda mais árdua se isso for uma das poucas certezas e conexões estáveis entre duas pessoas (vale para relação heterossexual, homossexual e que tais). Ocorre, de quando em quando, o tesão sustentar uma vida a dois sem amor, é um pacto selado e guardado, onde ninguém nunca vai entender, os próprios agentes não entendem, é um acordo de total submissão e dominação. É na cama que toda a diferença se transforma numa face quase obscura, onde tudo é permitido, tudo é despudorado e ao mesmo tempo infantil ( não há nada mais inocente do que ficar pelado). Outras vezes existe o amor, mas nosso lado animal não está presente. Essa conjuntura fatídica faz do término um sofrimento longo e penoso. Como eu, ser humano, abro mão de alguém que amo por conta do meu lado animal? Jack London mostra bem essa dualidade de pensamento em "O chamado da floresta". A gente só é verdadeiro se escuta nossa natureza animal, é nela que encontramos as forças motrizes de nossas vidas: sobreviver, comer, reproduzir e dormir.

Mas tudo isso é porque estou lendo "O Jogo de Amarelinha", livro muito indicado por várias pessoas. Cortázar tem um jeito latino de amar, como nós, e no capítulo 5 ele deixa isso bem claro:

"Era como um despertar e como conhecer o seu verdadeiro nome; depois, voltava a cair numa zona sempre um pouco crepuscular que encantava Oliveira, receoso de perfeições, mas a Maga sofria de verdade quando regressava às suas recordações e a tudo o que obscuramente precisava pensar e não podia pensar. Então, ele tinha de beijá-la profundamente, incitá-la a novas brincadeiras e ela, reconciliada, voltava a crescer debaixo dele e o arrebatava, entregando-se, então, como um animal frenético com os olhos perdidos e as mãos torcidas, mítica e atroz como uma estátua andando por uma montanha, arrancando o tempo com as unhas, entre gemidos e queixumes que duravam eternamente. Certa noite, a Maga cravou-lhe os dentes, mordendo-lhe o ombro até sair sangue, pelo simples fato de ele já estar um pouco cansado, um pouco perdido, o que resultou num confuso pacto sem palavras".



Para quem quer saber mais, vale a pena ler o capítulo na íntegra.

Deixo como sugestão de trilha sonora, um monte de mujeres que cantam, em especial a primeira música:

Soft Shock do Yeah Yeah Yes
AF607105 da Charlotte Gainsbourg
Noir Désir do Vive La Fête

Para ouvir e suspirar, pensando naquele (a)(s) que já nos fizeram gemer.


** Uma homenagem a esse bicho erótico bobo sonhador que se chama mulher**


*** Foto do Blog Vagabond Set***