terça-feira, 29 de setembro de 2009

O aprendizado


Uma vez entre uma imagem do Gehard Richter e um comentário sobre Stendhal, me falaram: "Força é mudares de vida"! Carrego comigo este ensinamento

. denn da ist keine Stelle,/

die dich nicht sieht. Du musst dein Leben ändern.

... pois ali ponto não há/
que não te mire. Força é mudares de vida.

(“Archaïser Torso Apollos” , R. M. Rilke;

Torso arcaico de Apolo, trad. Manuel Bandeira

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

" O excesso de pranto ri. O excesso de riso chora"

Ninguém entende que o que eu sinto não vem do coração.

" Aqueles que reprimem o desejo podem fazê-lo quando este é fraco e passível de ser refreado; e quem o reprime, ou razão, usurpa seu lugar e governa os relutantes.
Uma vez reprimido, ele se torna cada vez mais passivo até não ser mais que mera sombra do desejo". BLAKE, William. O casamento do céu e do inferno e outros escritos.

http://www.youtube.com/watch?v=S0fgT7CNnmU

domingo, 27 de setembro de 2009

São Cosme e Damião

É dia de São Cosme e Damião. Eu queria ter ganhado um saquinho de doces. Faz muito tempo não ganho um daqueles, e vi na loja ao lado que tem até saquinho de plástico hoje em dia ( esse tipo de higiene não leva a lugar algum). Se nesse domingo de sol eu tivesse ganhado um saquinho, teria doado minha maria mole, comido depois do almoço minha teta de nega, e deixado para o lanche o famigerado cocô de rato. O ritual seria o mesmo de quando eu era criança: antes de dormir sobraria somente um jujubão bicolor, que ainda é meu favorito. De resto somente uma ameaça de muitas cáries, caso não escovasse meus dentes.

Estrela na fronte

A obediência tolhe. Me colocam no lugar previamente escolhido e dizem: "Entendeu?" Eu respondo que "entendi". Ambas as partes de acordo, fico lá. Obediente que sou, espero enquanto filmes velhos e músicas novas percorrem minha mente. Eu sei que devo ficar aqui, e que não posso mudar, mas nessa relação servil eu pelo menos posso imaginar que estou em outro lugar?

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Contemporaneidade Ecumênica


Domingo resolvi andar de bicicleta. A insônia já tinha acontecido, e mesmo tendo ido dormir às 4 da manhã, três horas e meia depois eu estava muito animada. Já faz tempo não ando de bicicleta, e, quando não venta, o que é bom fica ainda melhor. Resolvi ir até Copacabana. A pista da praia, mesmo fechada, estava bem transitável. Milagre, pensei eu. Passado o Marimbás caio dentro de uma passeata pró fé. Não sei se estava divida por alas, se era tudo junto, sei que caí no meio dos Espíritas e do pessoal da Umbanda. Várias entidades à minha volta, muita energia rolando, caravanas do subúrbio do Rio, crianças com a cabeça feita e muita guia. Pensei em ir embora, mas fiquei curiosa em saber o que tinha atrás do outro carro de som. Infelizmente, não pude satisfazer minha curiosidade. Atrás de um bando de fiéis, uma senhora vira e diz: "Volta para casa, hoje não é dia de andar de bicicleta!". Eu estava achando que era, mas resolvi não contrariar, dei meia volta e fui para casa.
Ok.

Terça- Feira fui pegar meus óculos medonhos. Pedi para a chefe e ela comprou. Feinho que dói, mas agora com lente. Resolvi fazer em uma ótica que fica na galeria do trabalho.Copacabana tem muito velhinho, velhinho usa óculos e é pecado tirar muito dinheiro de velhinho. A ótica se chama Gypsy. Peguei minha bolsinha com aquele mimo dentro, minha receita, minhas velhas lentes e fui embora. Quando abri a bolsa, dentro tinha um papel de catequização evangélica. Li atentamente e voltei para o nome da loja: Gypsy.

O Jesus evangélico é cigano, e Copacabana é um exemplo de mélange religiosa.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Mostra o teu que eu mostro o meu

No baile do preto e branco, é melhor colocar para fora do que guardar. De preferência que seja visualmente agradável.

De cima para baixo: Diane Arbus (2), Helmut Newton, Richard Avedon (2), Helmut Newton






domingo, 23 de agosto de 2009

Deu Brian Eno no Samba


Era a feijoada do cafetão mais famoso dos restaurantes a quilo da cidade, o PIMP das balanças. Era a feijoada do Sr. Salpicão. Salpicão cujo nome dispensa apresentações, resolveu dar uma festa e chamar a nata da gastronomia de massa. Na entrada da festa, vestindo black tie, estavam seus capangas que faziam as honras e não arredavam o pé da porta (ou seria horta?) : Jiló, Quiabo e Maxixe. Eles eram os responsáveis por revistar as visitas, se meter onde não deviam e, conseqüentemente, receber cara feia de quem só estava lá para curtir o evento. Esses três fiéis capangas já tinham ficha no presídio famoso Xepa I, aquele que anos depois foi implodido e onde construíram o XepaII. Sr. Salpicão arrumou um esquema com o Varejão Volante às quinta-feiras, e conseguiu tirar eles de lá sem que ninguém percebesse a fuga dentro daqueles ônibus vegetal orgânico, que por si só já era suspeitíssimo. Por via das dúvidas, o experiente Salpicão se certificou de molhar as mãos dos policias no caminho com algumas laranjas limas, que foram recebidas de bom grado, já que são ricas em vitamina C, ajudam no trato gastrico e são ótimas para quem tem filho pequeno.

A festa corria bem, todos estavam se divertindo muito, a família Brocolis sentou-se na mesa dos Couve-Flor, e trocaram juras falsas de amor, aquela coisa de familiares que não fazem questão nenhuma de se frequentar, mas quando estão em público se esforçam em mostrar a todos a união e a sintonia que reina, quando se vem de baixo. Alías, esse momento da festa foi um pouco tenso. Os Brócolis e os Couve Flor começaram um discurso chatíssimo das minorias sociais, e de como eles lutaram muito para chegar ao patamar de essenciais legumes antioxidantes. As famílias das Beterrabas, Rabanetes e Nabos, se levantaram e em coro falaram que eles não sabiam o que era ser excluído pelos demais. A Beterraba deu um relato emocionadíssimo de como há anos ela vem sendo escondida no feijão, para que assim ninguém a perceba, e o Nabo fez o almoço quase acabar quando disse que sua maior utilidade era tirar manchas de Shoyu. Ficou um clima muito tenso entre todos, e o Sr. Salpicão a essa altura já estava achando que ia azedar.

Tudo voltou ao normal, quando a turma Hidropônica, com o maior jeitão de turma do deixa disso, chegou cantando uns mantras, dizendo que todos eram filhos da mãe natureza e que isso era culpa da Babilônia transgênica. O tomate que entrou para o ALFV (associação dos legumes & frutos viciados), concordou e disse para alegria de todos que fazia duas safras que ele abandonara o uso de pesticida. A festa a partir daí foi só diversão, todos dançaram muito! teve desfile da Mangueira com a porta bandeira Carlotinha e o mestre-sala Espada, porque feijoada que é feijoada tem que ter samba e palinha do Jamelão. No fim da noite, para fechar com chave de ouro, o Mc Repolho e o Mc Banana soltaram uns versos e trouxeram para o palco a mulher Melancia, a mulher Sapoti e a mulher Siriguela. Foi um desbunde de não botar defeito.

Acabado os shows foram entregues lembrancinhas de recordação, a mulher do Salpicão pensou em tudo e mandara fazer uns bem-casados de adubo orgânico. Todos só tinham elogios a fazer, e diziam: Festa boa fui no Salpicão! No entanto, ninguém conseguiu se despedir do anfitrião. Este coitado, começou a se sentir mal ainda no calor das discussões, percebeu que aquele suruba gastronômica que faz parte do seu ser não ia bem, e que aquela maionese tava desandando. Para o pobre infeliz deram um sal de frutas Eno, e deitado ele ficou, gemendo, dizendo que nunca mais comeria nada, que se arrependia do dia que tinha nascido e que ia matar quem tinha colocado o abacaxi em calda, porque ele já cansou de dizer que o abacaxi dele tem que ser fresco! Não viu nada, ficou dormindo em um leito de batatas baroas.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

De manhã


Chovia muito essa manhã. O ônibus passava pelo Jardim de Alah, e uma lembrança muito forte de você me veio à mente. Não contive o vômito. Envergonhada e com lágrimas nos olhos, virei para o passageiro ao meu lado e disse: " Desculpa, mas é que ele me causa repugnância". Ele entendeu, sorriu para mim e me deu um lenço. Ele não tinha noção do que era aquele peito peludo.